Juventude recifense e proletária


Neste ano, grande parte das escolas de Pernambuco ficou sem aula

O centro do Recife parece ferver nesse começo de verão, às 11 horas de uma quinta-feira. O sol tropical ilumina a tudo e a todos, enquanto as pessoas trabalham com grande energia e vivacidade, fazendo piadas entre si e enchendo de euforia todas as imediações da Praça da Independência. Uma verdadeira multidão já se conhece, são quase íntimos, na divisão igualitária dos afazeres do dia-a-dia, meses e anos a fio. Na sua maioria, são jovens que vendem, fazem entregas, transportam mercadorias, trabalham em dezenas de atividades e cruzam a praça às carreiras, oferecendo a força dos seus braços e sua inteligência, a serviço do progresso.

No meio da algazarra colorida, Romildo Ferreira, 20 anos, trabalha na sua banca, onde conserta relógios e nos fala com orgulho: “Ganho pouco, mas é meu, e honesto. E de noite vou direto para o colégio. Quero terminar o segundo grau e cursar Educação Física. Meu pai me ensinou a consertar relógio, mas, depois, quero mudar de profissão. Nas horas de lazer eu fico em casa, converso com os vizinhos, sábado à tarde faço feira com a minha mãe, e no domingo vou para o TIP (Terminal Integrado de Passageiros).”

Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, os jovens representam 20% da população economicamente ativa, mas significam 48% do total de desempregados. Outra pesquisa, divulgada no mês de agosto pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), revela que o desemprego é maior entre os jovens com idade entre 15 anos e 24 anos do que a média dos demais segmentos da população. A taxa de desemprego nesta faixa etária é de 18% contra uma média geral de 9,4%. Ou seja, o desemprego dos jovens é quase o dobro da média da população brasileira.

A pesquisa também mostra que o desemprego atinge de forma mais intensa os jovens mais pobres. Entre os jovens oriundos de famílias de maior poder aquisitivo, 77,1% eram assalariados (recebem algum tipo de remuneração) enquanto entre os proletários o assalariamento atingia 41,4%. Do total de assalariados mais ricos, 49% tinham carteira assinada. Entre os mais pobres, apenas 25,7%.

Nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio do IBGE, diminuiu nos últimos dez anos o percentual de jovens na faixa de 15 a 17 anos empregados no mercado de trabalho: em 1992, 35,8% dos jovens nessa faixa etária tinham empregos formais, enquanto no ano passado o percentual caiu para 19,4%. Outro dado da pesquisa é que, nessa faixa de idade, o percentual de desemprego é bem superior ao registrado em faixa das pessoas com mais de 60 anos1.

Lazer na rodoviária

Domingo, 14 de setembro, 16 horas, no TIP, a principal estação rodoviária do Recife. A reportagem de AND encontrou Romildo passeando com amigos, vizinhos e primos, em meio a outras dezenas de jovens que utilizam a rodoviária como área de lazer nos seus fins-de-semana. “A gente fica aqui, conversando, olhando as lojinhas da rodoviária, tomando sorvete e vendo o pessoal chegar e sair nos ônibus. Serve para passar o tempo, conhecer outras pessoas, e, depois, aqui pelo menos todo mundo é igual à gente. Nos outros shoppings só tem barão, gente endinheirada, bem vestida. Faz até vergonha ir lá”, diz Cilene, uma amiga do relojoeiro.

“Aqui a gente fica olhando as pessoas que chegam de São Paulo, do Rio, e fica pensando em ir embora quando terminar os estudos. Eu pelo menos penso”, afirma Marinalva. Mas Romildo quer ficar: “Quem está indo para o sul retorna com menos de um ano do mesmo jeito que foi, ou pior. Eu prefiro ficar, estudar e me formar. Aí sim, depois de formado vou para o Rio de Janeiro, mas só pra passear, tirar férias.”

Em qualquer rua ou casa operária do Recife é fácil encontrar jovens que foram, vieram ou ainda planejam migrar para outras regiões do país em busca de dias melhores. O sonho de melhorar de vida, que nas décadas de 40, 50 e 60 levou milhares de pernambucanos a lotar navios, paus-de-arara, ônibus e caminhões, rumo ao futuro promissor, continua valendo para muitos garotos e garotas. É sabido que o fluxo de migrantes para o sudeste foi tão intenso naqueles anos, que até hoje muitos bairros do Rio de Janeiro, por exemplo, têm áreas inteiras ocupadas por nordestinos e seus descendentes. Alguns bairros cariocas chegam a ter mais da metade dos seus moradores composta por retirantes. Já na cidade de São Paulo, um em cada cinco moradores nasceu no Nordeste. Há 2.047.168 migrantes nordestinos residindo na capital paulista, segundo o IBGE.

Além da tradição de intensa mobilidade humana — uma das principais características desse país, formado em larga escala pelos migrantes —, existe, principalmente, nesse processo, a fuga da pobreza, da falta de emprego, da péssima qualidade de ensino, da ausência de lazer e de cultura que domina a imensa maioria dos bairros proletários. Nos quatro cantos do Recife é assim que muitos jovens vivem: sonhando com uma vida melhor, que eles sabem existir em outro lugar, em outra cidade, outro estado, ou país. Ao contrário do que pensa e diz o ministro do governo PT/ FMI, José Graziano, eles querem ir para trabalhar, estudar, progredir e crescer. Junto com o seu amado país2.

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Escolas que não ensinam

A qualidade do ensino ministrado nas escolas públicas é outra preocupação dos jovens proletários. Eles sentem na pele o resultado da política de sucateamento dos educandários, em toda sua estrutura física e pedagógica, planejada e executada em diversas instâncias de poder, através do Ministério e das secretarias de Educação, desde Brasília até o município.

Numa tarde de sábado, no mês de agosto, no populoso bairro da Mangueira, cinco jovens conversam numa pequena praça, próxima à linha do trem, fazendo pausas obrigatórias a cada vez que o trem passa ou quando o vento traz uma densa nuvem de poeira, vinda das ruas esburacadas que desembocam no largo. O assunto é escola e diversão. Perguntados sobre seu lazer, todos foram unânimes ao dizer que “não há muito o que fazer”. Ficam por ali mesmo, na praça, conversando, ouvindo música, ou saem em grupo quando há algum evento no centro da cidade. “Mas isto só acontece quando conseguimos as passagens de ida e volta, de metrô ou ônibus, o que é difícil.”

Os cinco jovens trabalham fazendo biscates: conserto de computador, serigrafia, bolos, doces, bordados, cortes de cabelo — “O que aparecer a gente vai aprendendo e fazendo. Todos nós aqui temos pais desempregados, biscateiros como nós”, afirma Diana, 21 anos. Dinheiro e roupa são preocupações sempre citadas. “Eu deixei de ir à formatura da minha tia, que concluiu Psicologia, porque fiquei com vergonha de usar roupa velha”, disse ela.

Em relação à escola, todos fazem queixas, manifestam desencanto e tristeza com a péssima qualidade do ensino. “Estou no Projeto Avançar e faz seis meses que não tem aula. Até deixei de ir, porque só fazia pagar passagem, agora não sei mais quando vou conseguir terminar o segundo grau”, diz Júlia. “Eu também não tenho aula, mas é porque a escola está em reformas desde o começo do ano; só às vezes é que tem aula. Os professores fazem revezamento. A Secretaria de Educação disse que as obras terminariam em abril, mas até agora está tudo parado. Aula de Biologia eu só tive duas ou três nesse ano inteiro”, diz José Paulo. “Eu também estou no Avançar. Lá na escola eles nos obrigaram a frequentar esse projeto, nos proibiram de fazer matrícula no curso regular. Fecharam as matrículas no primeiro ano e todo mundo foi parar na ‘tele-sala'. E, assim mesmo, faz seis meses que não tem aula, porque não pagaram as fitas e a escola não pode utilizá-las”, resume Alexandre.

Objeto de muitas denúncias e alvo de investigações do Ministério Público, o Projeto Avançar/Aceleração do Ensino Médio é uma parceria entre o governo de Jarbas Vasconcelos e as fundações Roberto Marinho e Getúlio Vargas. Conhecido como ‘tele-salas', destina-se, na teoria, a alunos que tenham defasagem entre a série cursada e a idade, e que necessitem “acelerar o ensino médio”. Na prática, em muitas escolas, todos os alunos, independente de defasagem, são obrigados a abandonar as salas regulares e se inscreverem nesses telecursos, onde todo o ensino médio deve ser concluído em apenas 15 meses.

As ‘aulas' resumem-se a exibição de fitas do Telecurso 2000, produzidas e comercializadas pela Fundação Roberto Marinho (leia-se Rede Globo de Televisão), um dos mais polêmicos e combatidos (através de vários estudos e teses acadêmicas) instrumentos pedagógicos do Brasil. As fitas são, em seguida, ‘analisadas' pelos professores (um por cada sala-de-aula, responsável por todas as matérias), que na sua maioria são contratados temporariamente e, algumas vezes, sequer possuem licenciatura. Ademais, a duração da jornada escolar diária nas ‘tele-salas' é menor do que a regular. E isto quando há aula. Neste ano, grande parte das escolas ficou sem as exibições, uma vez que o governo de Pernambuco não pagou, no prazo acertado entre eles, os direitos à Fundação Roberto Marinho, que vetou as exibições. O resultado é que centenas de alunos ficaram até sete meses sem assistir as ‘aulas', em decorrência desta ‘falha contratual', numa verdadeira terra de ninguém educacional.


 

1 A População Economicamente Ativa (PEA) na região metropolitana do Recife é estimada em 1,531 milhão de pessoas. Destas, no mês de julho, 366 mil estavam desempregadas. Entre os meses de junho e julho, desapareceram 5 mil postos de trabalho na Região Metropolitana do Recife, segundo o Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos). A indústria de transformação eliminou 2 mil postos de trabalho; o comércio suprimiu 2 mil empregos; o setor de serviços extinguiu mil ocupações; a construção civil dispensou mil trabalhadores.
2 Pesquisa do IBGE mostra que há milhares de nordestinos retornando às suas cidades de origem devido às dificuldades de encontrar ou manter um emprego em São Paulo. No final de junho, a saída de população de São Paulo aumentou em 36%, enquanto a entrada de migrantes diminuiu 12%. O destino da maioria das pessoas que deixaram as terras paulistas foi a região Nordeste. Os estados do Ceará, Piauí e Paraíba registraram os maiores índices de migração de retorno. Esses três estados e mais Pernambuco e Bahia reduziram suas perdas populacionais no período entre os censos de 1991 e 2000. Maranhão e Alagoas estão na contramão do fluxo geral. Nos dois últimos estados, a perda de população foi acentuada no período entre os censos. Isso mostra que a migração continua forte nas unidades da Federação que apresentam os mais drásticos índices sociais.

 

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