500 camponeses tomam Pedras de Maria da Cruz em protesto

Cleomar vive no fogo e na luta

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Camponeses bloquearam a ponte que liga as cidades de Pedras de Maria da Cruz e Januária

A pequena Pedras de Maria da Cruz, município de pouco mais de 11 mil habitantes no Norte de Minas Gerais, viveu momentos de tensão durante a manifestação da Liga dos Camponeses Pobres (LCP) no último dia 24 de novembro, um mês após o assassinato de Cleomar Rodrigues. Mais de 500 camponeses de diversas áreas da região, delegações de ativistas de movimentos populares e sindicais de diferentes regiões do país, operários e estudantes realizaram combativo e vibrante protesto exigindo punição para os mandantes e executores do assassinato.

Atendendo a convocação da LCP, compareceram membros de diversas associações de camponeses e trabalhadores de Pedras de Maria da Cruz e região, Associação Brasileira dos Advogados do Povo (Abrapo), Movimento Estudantil Popular Revolucionário (MEPR), o Movimento Feminino Popular (MFP), ativistas da Unidade Vermelha do Rio de Janeiro e Campinas (SP), Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos (Cebraspo), Comissão de Pais e Familiares de Presos Políticos do RJ, ativistas das Frentes Independentes Populares (FIP) do Rio e de São Paulo, dirigentes da LCP de Rondônia e do Pará, operários e diretores do Sindicato dos Trabalhadores da Construção de Belo Horizonte (Marreta), Escola Popular, ativistas da Liga Operária e do Movimento Classista dos Trabalhadores em Educação (Moclate).

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A Mídia Independente Coletiva (MIC) e o Coletivo Cinza Sem Filtro, juntos à equipe de AND, estiveram presentes registrando a manifestação da LCP

Nem o período chuvoso, época em que todos os camponeses aproveitam para plantar suas roças, foi capaz de atrapalhar o ato convocado para expressar a revolta das massas do campo e de todos os verdadeiros democratas contra o assassinato covarde do dirigente camponês. Em uma grande faixa vermelha, mantida alta e à frente da manifestação, estava estampada a dor e revolta dos camponeses de todo o Norte de Minas: “Cleomar vive! Morte ao latifúndio!”.

Desde a noite anterior, o movimento da Polícia Militar na região era intenso. Pelo menos dois ônibus lotados de policiais e do batalhão do choque foram identificados. O ar estava carregado, e não só pelas nuvens de chuva.

A cidade parou para dar passagem aos camponeses e suas bandeiras vermelhas.

Ao longo dos anos, AND registrou in loco diversos movimentos e lutas populares e arriscamos afirmar que este protesto talvez tenha sido um dos que as faixas, cartazes, palavras de ordem e discursos estavam em perfeita sintonia com o estado de consciência das massas participantes e das massas que assistiam. O caráter e o conteúdo da manifestação estavam claros na convocação da LCP: repúdio ao assassinato de Cleomar, a denúncia do latifúndio como mandante do crime e a cumplicidade do Estado, desde a “presidência da república”, a Ouvidoria Agrária Nacional, o Incra, até a polícia de Minas Gerais e a própria prefeitura local.

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Durante aproximadamente quatro horas os camponeses caminharam altivos e decididos. Pararam no centro da cidade, diante da prefeitura. Denunciaram o assassinato, o seu significado, falaram os nomes dos latifundiários possíveis mandantes, lembraram das denúncias de Cleomar e convocaram a população para se juntar à Liga para tomar as terras.

Na medida em que a manifestação avançava, aumentava a temperatura e o ânimo. Os moradores de Pedras de Maria da Cruz chegaram mais perto. Pegavam o panfleto distribuído pelos manifestantes, batiam palmas. Principalmente a juventude da cidade, animada pela manifestação, ingressou nas filas, repetindo as palavras de ordem, convidando amigos e parentes para se juntarem.

Os manifestantes seguiram até a ponte que dá acesso a cidade de Januária. Previamente, haviam acumulado pneus às margens da estrada, que nesse momento foram colocados na pista formando uma barricada que foi incendiada. Era grande a vibração e a emoção de todos. Quilombolas e camponeses poetas cantaram músicas feitas para Cleomar.

Bombeiros foram apagar as chamas dos pneus e jovens atiraram pedras. Os bombeiros recuaram. Os camponeses prosseguiram seu ato, e quando os bombeiros enfim apagaram os pneus, só uma ambulância passou em mais de uma hora de bloqueio da rodovia.

Nas muretas de ponte, ficaram estampadas em grandes letras: ‘Cleomar vive! Morte ao latifúndio!’, ‘Viva a Revolução Agrária!’ e ‘Eleição Não, Revolução Sim!’. Um dos sonhos de Cleomar, fechar a ponte, foi realizado.

E no trajeto de volta, os camponeses deram o tom da decisão das massas: É guerra, é guerra, hoje foi a ponte e amanhã vai ser a terra!”.

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