Teatro para servir ao povo

O povo quer ver na arte e, nesse caso particular, no teatro os mais brilhantes momentos da evolução da espécie humana, a construção dos novos tempos em cada período histórico, e a trajetória da humanidade em direção à sociedade em que não haverá a exploração do homem pelo homem. Falar de Brecht é fácil. Difícil é entender verdadeiramente uma coisa: com que atitude deve-se ver o povo e as suas lutas. E Brecht jamais recusou responder a essa questão, no pensamento e nas árduas tarefas práticas.
O mérito de Sérgio de Carvalho e da sua Companhia do Latão não reside unicamente em falar de Brecht, em produzir Brecht e outros autores a serviço do povo trabalhador, mas precisamente na atitude que dignifica o teatro, que justifica as artes e a literatura de uma maneira geral, assim como todos os saberes sociais; tudo o que contribui para aproximar o tempo "onde o homem seja um parceiro do homem".

O dramaturgo Sérgio de Carvalho, 37 anos, diretor da Companhia do Latão, SP, uma das mais importantes companhias de pesquisa teatral do País, formou-se em Jornalismo e fez mestrado em Artes Cênicas na Escola de Comunicação e Artes da USP, decidindo-se pelos estudos teatrais e montagens de peças.

Com o dramaturgo Márcio Marciano, em 1996, Sérgio criou a Companhia do Latão. A intenção, mantida, era a de fazer do teatro um meio de despertar nos espectadores um impacto sobre os problemas políticos do país, com efeito transformador.

O grupo iniciou suas atividades encenando Ensaio para Danton , adaptação da obra de Georg Büchner, A Morte de Danton, feita por Sérgio e Márcio. Logo depois, 1997, estreou Ensaio sobre o Latão — dando nome à companhia — também adaptação de Sérgio e Márcio, desta vez de A Compra do Latão, de Bertolt Brecht. A partir daí o grupo mergulhou em estudos sobre o teatro dialético proposto por Brecht, formando um projeto para produzir dramaturgia brasileira sobre temas atuais, do ponto de vista social, buscando mais força em cena que um indivíduo vivendo um drama interior. A Companhia do Latão se diferencia justamente por preferir enfocar a sociedade no lugar dos conflitos individuais.

Para a Companhia, narrativa, improvisação cênica e observação da realidade são princípios básicos no trabalho do ator, obtendo grandes sucessos de público nas apresentações. Entre as principais montagens estão: Santa Joana dos Matadouros, de Brecht; Ensaio da Comuna, baseado em Os Dias da Comuna, também de Brecht; e A Comédia do Trabalho, O Mercado do Gozo e O Nome do Sujeito, escritas próprias do grupo.

Contra a ilusão

Segundo Sérgio, o modelo de dramaturgia de Brecht tem a oferecer como análise à dramaturgia de hoje a possibilidade, entre outras, de se continuar a pensar na função da arte. "Essa função pode ser, inclusive, colaborar com a ativação revolucionária num tempo em que isso não está no horizonte próximo e em que o capitalismo assume caras novas e terríveis. Brecht continua sendo um grande modelo para arte que tenta se opor ao imaginário dominante e que procura combater o totalitarismo da forma-mercadoria", defende Sérgio. O dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898 – 1956) opôs-se ao teatro chamado de ilusionista, que faz com que o espectador deixe de pensar, transportando-o para fora da realidade. O ilusionismo leva à alienação, anulação do público e, em oposição a ele, Brecht construiu o teatro épico, depois evoluiu para o dialético, que alterou profundamente todas as relações envolvidas na representação teatral.

Nesse teatro de Brecht, o público não deve ser arrancado do seu mundo para ser conduzido ao da arte, porém através da arte ser introduzido no mundo real. Para ele o ator não deveria ser um simples repetidor de falas, mas agente do espetáculo, totalmente consciente e a serviço do espectador, ao mesmo tempo indagador do seu próprio papel. O diretor, para Brecht, também deveria ter uma função diferente da do teatro naturalista, ilusionista, deixando de ser alguém que dita ordens aos atores para se tornar aquele que formula questões sobre as quais todos os atores devem tomar posição.

O teatro épico e didático de Brecht não se limita a explicar o mundo. Dispõe-se a transformá-lo. Caracteriza-se pelo estilo narrativo e descritivo, que apresenta os acontecimentos sociais em seu processo dialético, divertindo e fazendo pensar. Para Brecht, não interessa compreender e apresentar a alienação do homem, porém ocupar-se com a sua desalienação.

Tudo se transforma

O teatro didático corresponde a uma das tentativas mais experimentais de Brecht na Alemanha, do final dos anos 20, quando escreveu peças de aprendizado para operários e artistas amadores: "Importava mais o estudo de quem ensaia a peça do que a apresentação ao público. São textos radicais como forma estética: neles se concretiza o próprio tema, a coletivização do trabalho social. Nas peças didáticas existe um antiilusionismo levado às últimas conseqüências. São jogos artísticos propostos por alguém que chegava a ponto de desconfiar dos próprios ideológicos de transformação da realidade quando distanciadas de práticas coletivas. Brecht sabia que a boa reflexão anticapita lista exige um enorme senso de realidade, aquilo que chamou de sexto sentido para a história "— diz.

O que Brecht fez, lembra Sérgio, foi propor uma negação mais radical da forma dramática, opondo-se à sua ideologia individualista.

"O palco não deveria só mostrar a vida no mundo capitalista, mas narrá-la como transformável. Isto só é possível se a cena assume que toda representação contém um ponto de vista sobre a realidade e se houver uma desmontagem da heroificação e do moralismo, das ideologias impostas, de tudo aquilo que se identifica com a visão de mundo das classes dominantes." Sérgio entende que, no teatro de Brecht, nada pode ser visto como natural, irremediável: "Não se procura" — observa — "mostrar a vida como é, mas como não deveria ter se tornado. Não se busca causar compaixão pelos oprimidos ou ódio aos opressores, mas lançar espanto crítico sobre o processo da exploração, sobre o motivo de certos acontecimentos. O realismo épico trabalha com a suspeita, com a dúvida científica, com a desconfiança em relação a um mundo que não é o melhor dos possíveis. Seu método clássico, extraído do materialismo dialético, é o jogo das contradições. O público é quem realiza o sentido da cena ao pensar sobre os subterrâneos dos fatos observados, ao estabelecer o vínculo interrogativo entre uma história que se mostra incompleta e suas causas sociais e econômicas."

Sobre A Comédia do Trabalho, da Cia do Latão, um dos trabalhos mais importantes do grupo, apresentado em um Brasil com alto índice de desemprego, Sérgio destaca que os atores do Latão a consideram tragédia disfarçada de farsa.

"O tema da peça revela a notável capacidade do capitalismo atual de desorganizar e fragmentar a contestação, ao impor aos trabalhadores a maldição: ‘No mundo da mercadoria, a pior coisa é não ser mercadoria’."

A peça, que estreou em agosto de 2000, por exemplo, foi escrita a partir dos processos de criação coletiva da Companhia, do qual participou todo o grupo. Além disso, foram realizadas oficinas com profissionais e estudantes de teatro, que acompanharam o processo, envolvendo coleta de depoimentos e entrevistas com personalidades. Brecht está presente na inspiração do tema, método e estilo da encenação.

O espetáculo expõe o atual estado do sistema produtivo, falando das relações trabalhistas e suas faces, como o desemprego e a busca desesperada da integração no mercado de trabalho; as várias formas de subemprego e a exploração do capital. É uma peça anticapitalista. Nela estão presentes a luta de classes e a crítica à existência de um humanismo pobre e assistencialista, nem um pouco transformador, além de revelar a submissão aos interesses do capital nacional ao internacional. O lucro é visto como principal objetivo da classe dominante, possuidora do poder.

Que tipo de contradição

Um dos objetivos do Latão com essa peça é o de mostrar antagonismos sociais no atual estágio do capitalismo para estabelecer um diálogo com a realidade social.

"Não fazemos denúncia sobre o que todos já sabem, mas tentamos provocar um espanto realista através do absurdo, fazendo um curto-circuito com os termos da frase: ‘este mundo para quem sente é uma tragédia, para quem pensa é uma comédia’," explica Sérgio.

Além das pesquisas sobre teatro e trabalho em palco, a Companhia do Latão produz oficinas e edita uma revista sobre teatro, política e filosofia, A Ópera do Vintém, lançada em junho de 1997. Projeto editorial da Companhia do Latão, ela vem se constituindo em espaço para a discussão crítica do teatro.

"A revista tem saído irregularmente" – explica o diretor. "Ela costuma acompanhar os temas de estudo do grupo. Desde 2000 não lançávamos nenhuma edição. Em maio último, publicamos um número com um dossiê especial sobre o Heiner Müller (1929 – 1995), um dos mais importantes dramaturgos alemães do século 20, continuador, de certo modo, do trabalho de Brecht, ainda que com procedimentos bem diferentes. Essa edição acompanhou a montagem do exercício Equívocos Colecionados, uma peça curta que apresentamos no Instituto Goethe de São Paulo, misturando trechos de entrevistas de Müller com uma reflexão nossa. Esse exercício fará parte do nosso repertório."

O consagrado é suspeito

Sempre às voltas com novos projetos, em junho Sérgio esteve em Belém do Pará, ministrando curso que denominou Dramaturgia Épica a escritores e dramaturgos, e participando do projeto Curto Circuito de Idéias. Além disso, a Companhia do Latão foi um dos grupos vendedores do edital de fomento ao teatro para a cidade de São Paulo, deste ano, pela Secretaria Municipal de Cultura, com o projeto Brigadas do Teatro Dialético, com estudos de teatro, lançamento de um livro e uma série de oficinas artísticas.

"Nosso trabalho atual" — destaca — "é preparar um repertório que será apresentado em São Paulo no final do ano. A principal novidade é um estudo sobre alguns contos de Machado de Assis, com vistas a uma recriação cênica. O tema não está definido, mas tudo indica que será uma sátira grotesca a certas práticas mercantilistas da cultura brasileira atual. A intenção do trabalho com Machado de Assis é compreender seu método narrativo, sua ironia e violência, sua capacidade de mostrar que os problemas brasileiros decorrem dos mundiais. Vamos tentar fazer um espetáculo em que o público desconfie da narração. Os espectadores não estão acostumados a desconfiar do que vêem."

Sérgio acrescenta que, ao mesmo tempo, preparam oficinas voltadas para integrantes de movimentos sociais:

"O objetivo é colaborar com lideranças teatrais para a formação de coletivos artísticos dentro de movimentos politizados. Esse trabalho deve acontecer no final do ano. Finalmente, pretendemos lançar um CD, já gravado, com canções dos espetáculos, e um livro com algumas de nossas peças."

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