Incêndio em presídio mata duas jovens

Elas tiveram mais de 90% do corpo queimado. ‘Omitiram socorro’, diz ex-presidiária

Bruna Santos/AND
Enterro de Yasmin, jovem de 21 anos. Cemitério São João Batista, Botafogo, 28/04
Enterro de Yasmin, jovem de 21 anos. Cemitério São João Batista, Botafogo, 28/04

Yasmin Pires Pessanha, de 21 anos, e Grazielle Gomes Antunes, 27, chegaram ao Hospital Pedro II (zona oeste do Rio de Janeiro) com mais de 90% do corpo queimado, em estado gravíssimo, e não resistiram. Grazielle veio a óbito no dia 24 de abril e Yasmin no dia seguinte, segundo informações da Assessoria de Comunicação Social do Município.

Um incêndio na cela de isolamento do presídio Nelson Hungria, em Bangu, no dia 18 de abril, feriu gravemente as vítimas, que foram levadas para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Dr. Hamilton Agostinho Vieira de Castro, no interior do Complexo, para receberem os primeiros socorros. Em seguida, as duas foram transferidas para o Hospital Estadual Pedro II, onde existe tratamento especializado em queimados.

As poucas informações divulgadas pelo monopólio de imprensa (jornais O Dia e Extra) reproduziam uma nota da Secretaria de Administração Penitenciária (Seap), com a diferença que, nas matérias, admitia-se que 90% dos corpos foram queimados, e, na nota, afirmava-se que elas tiveram apenas partes do corpo queimados, relatando uma versão completamente absurda atribuída às próprias presas (sem dizer ao certo qual delas). Segundo a nota da Seap, “enquanto uma estava dormindo, a outra acendeu um cigarro e acabou acidentalmente deixando queimar um colchão”.

— Eu só queria saber como a causa do incêndio foi um cigarro acesso, sendo que no isolamento não entra nem cigarro e nem isqueiro? Como pode um colchão pegar fogo com uma guimba de cigarro e levar a vida de duas jovens? — questiona uma familiar de Yasmin (que preferiu não se identificar), de 38 anos. Ela prossegue: — Minha sobrinha não era bicho não. Ela era um ser humano e a família merece pelo menos saber como aconteceu isso.

Outro elemento de suspeita é a afirmação da Seap de que as próprias jovens teriam contado essa versão para o incêndio quando, na verdade, ambas estavam gravemente feridas e, portanto, provavelmente impossibilitadas de produzir qualquer tipo de relato.

Um segundo familiar de Yasmin, de 56 anos, motorista de ônibus aposentado, relatou à equipe de AND:

— A gente não pode deixar isso impune, porque eu acho que infelizmente o sistema carcerário só beneficia os poderosos. As pessoas que cometem delitos, até pequenos delitos, as que são pessoas humildes, essa maior parte paga com a vida, e eles abafam tudo isso. Se fosse uma pessoa que tivesse poder aquisitivo alto, num instantinho isso seria repercutido em rede nacional, em várias emissoras — destaca. — Eles só fazem o que interessa para eles, então a gente tem que lutar e acabar com tudo isso! — disparou.

A Seap não se pronunciou sobre como foi possível duas jovens serem queimadas de tal forma sem nada ser notado pelas agentes penitenciárias, nem a respeito das denúncias de descaso feitas pelos familiares das vítimas.

Para uma ex-presidiária de 40 anos que ficou 11 meses nesse mesmo presídio, o socorro foi negligenciado. Em entrevista à equipe de AND, ela explica:

— Para mim, omitiram socorro. Mesmo que tivesse ocorrido um curto circuito ou algo assim, quem está na tranca [isolamento] tem como se comunicar com quem está na galeria D ou na galeria F. Dava tempo de quem estava fora do isolamento chamar a polícia antes delas terem mais de 90% do corpo queimado — expôs. Ela disse ainda que problemas com fiação exposta e sob riscos de curto circuito eram constantes.

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