Os ‘meninos dançantes’ do Afeganistão

Coalizão internacional liderada pelo USA dá aval à pedofilia

O monopólio dos meios de comunicação, ou “imprensa livre” (como prefere ser chamado), tem como principal função assumir a propaganda do complexo militar-industrial ianque e dos seus aliados. Quando algum grupo contesta a sua hegemonia, não demora em combatê-lo, desumanizando-o e até demonizando-o. No caso do Afeganistão, o grupo rebelde Talibã, sempre quando citado, tem seu nome acompanhado do adjetivo “terrorista”.

Militar afegão ao lado de menino transformado em Bacha bazi
Militar afegão ao lado de menino transformado em Bacha bazi

Como explicar que depois de mais de 15 anos sendo combatido pelos Exércitos mais poderosos do mundo, o Talibã não só sobrevive como vem conquistando terreno?

Se fosse um grupo terrorista, inimigo do seu povo, já teria sido exterminado. Tentar explicar o fato pelo fanatismo religioso ou pelo temor imposto não é suficiente.

A resposta certamente está no fato de ter apoio popular pela sua postura nacionalista, respeitando princípios religiosos, além da “alternativa” desprezível que é o governo títere imposto pelos invasores.

É sabido que enquanto os talibãs governavam, as plantações de papoulas para a produção do ópio tinham sido fortemente combatidas, e que com a chegada das forças ocidentais a droga voltou a ser produzida em grande escala.

Outro fato que revolta o povo afegão é que figuras que foram alçadas ao poder pelos ianques e seus sequazes reviveram uma prática local que os talibãs jamais permitiram: a pedofilia.

Conhecido como Bacha bazi que significa“meninos brinquedos” em dari (uma das duas línguas oficiais do Afeganistão); a prática consiste em arregimentar garotos geralmente de 10 a 16 anos (principalmente comprados dos seus pais que vivem em estado de miséria, sequestrados ou apanhados órfãos), vesti-los com roupas femininas, ensinar-lhes a dançar para depois os obrigar a atuar em bizarros espetáculos de “entretenimento”. O passo seguinte é sua transformação em escravos sexuais.

O documentário denuncia

O jornalista Najibullah Quraishi, que é afegão, mas mora na Inglaterra, percebeu que não bastava denunciar a prática. Para ajudar seu povo, tinha que ir e filmar para ter um documento incontestável. Propôs-se uma missão, em tese, mais que impossível, suicida: em um país corrupto e violento como o Afeganistão, conseguir um registro em vídeo inequívoco dos abusos de crianças e adolescentes.

Dastager foi um comandante mujahideen* e agora é um bem sucedido comerciante. Tem uma importadora de veículos, entre outros negócios. Reza como todos os muçulmanos, tem dois belos meninos e uma esposa. Porém, Dastager é conhecido por ser um dos principais organizadores de apresentações de “meninos dançantes” no norte do Afeganistão.

O jornalista entra em contato com Dastager afirmando a ele que na Europa é comum os homens de dinheiro e poder ter meninos para o seu prazer e que já tinha feito um documentário com eles, declarando ainda que pretendia filmar a prática no Afeganistão.

O comerciante se mostra interessado e se dispõe a mostrar tudo.

A partir de então começa a ser rodado o documentário Os meninos dançantes do Afeganistão (The Dancing Boys of Afghanistan, no título original, lançado em 2010).

Na cena inicial do filme, Dastager dirige seu carro, acompanhado do jornalista. Ele diz que vai pegar um novo menino de 11 anos. Já deu um dinheiro a seus pais pobres e prometeu que vai proporcionar alguma educação.

Quando chegam ao destino, um garoto os espera na porta de uma loja. Dastager sinaliza para alguém no comércio e faz o menino entrar no carro. A câmera desfoca o rosto da criança que, interrogada, responde ao jornalista que se chama Shafiq e que vai morar com Dastager, o qual nunca tinha visto antes.

Shafiq é levado para um professor encarregado de treiná-lo. Durante um ano vai lhe ensinar noções sobre música e instrumentos, e o mais importante: vestir roupas femininas com todos os adereços e dançar sensualmente.

A lei proíbe a prática do Bacha bazi. O jornalista entrevista diversas autoridades policiais que asseguram reprimir tal prática, mesmo quando exercida pelos mais poderosos comerciantes e generais. A seguir, o jornalista vai ao centro da capital Cabul onde encontra bancasvendendo cópias de DVDs de Bacha bazi. Ele mesmo filma esse tipo de espetáculo e várias vezes aparecem entre os espectadores diversos policiais e até mesmo as autoridades entrevistadas anteriormente.

O jornalista comparece a muitos eventos de Bacha bazi. Entrevista senhores da guerra que exibem seus meninos acompanhantes. Invejam os generais que costumam ostentar uma dezena dos mais bonitos garotos. Em algumas oportunidades brigam entre eles, um cobiçando o acompanhante do outro. Segundo relatos de familiares, estas disputas às vezes terminam no assassinato dos meninos.

A partir de uma determinada situação, Dastager se mostra irritado com o andar do documentário. O jornalista percebe que está em perigo e foge do Afeganistão.

Já tinha material suficiente para seu filme, mas decide que tem mais uma tarefa: ele volta ao Afeganistão, encontra o Shafiq e sua família e entrega o dinheiro que arrecadou para que possam recomeçar a vida longe das garras do Dastager.

Cumplicidade ianque

Oficiais ianques têm reclamado dos Bacha bazi, uns por questão de princípios e outros, mais práticos, pela própria segurança. Acontece que esses garotos, quando escravos de generais e de outros de altas patentes, têm livre acesso a instalações militares e, às vezes, cansados dos abusos fazem contato com os “terroristas” talibãs que lhes fornecem bombas para “cometer atentados” nas zonas teoricamente mais seguras, acabando com seus “donos” e quem estiver por perto.

Foi parcialmente divulgado o resultado de uma investigação solicitada por membros do Congresso do USA que, a princípio, só deveria ser liberado em 2049. Segundo este informe, militares ianques receberam ordem superior de ignorar os abusos, e aqueles que insistiram em denunciar sofreram medidas disciplinares e até tiveram suas carreiras destruídas. Nele são relatados diversos casos. O capitão Quinn, das Forças Especiais do USA, foi punido por bater em um comandante da polícia afegã, porque este (o comandante) mantinha em instalações oficiais um garoto de 14 anos acorrentado numa cama para ser abusado sexualmente.

A Lei Leahy do USA determina que em caso de violação dos direitos humanos deveriam cortar a ajuda militar ao governo do Afeganistão.

Autoridades ianques declararam que os casos de pedofilia protagonizados por militares, policiais e outras autoridades instaladas pela coalizão fazem parte de uma tradição cultural no qual homens poderosos demonstram o seu status ao estarem cercados de Bacha bazi.

Para aqueles interessados no documentário, vale sinalizar que é qualificado como não recomendado para menores de 18 anos. É uma obra de grande valor, porém, extremamente perturbadora.


* Mujahideen: plural de mujahid, que em árabe significa “combatente”. No texto, o termo se refere aos integrantes de grupos armados que lutavam contra as tropas do governo afegão e da União Soviética social-imperialista no contexto da chamada Guerra do Afeganistão, no final da década de 1970 e na década de 1980.

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