A música brasileira do cerrado

Bacupari, araticum
Mangaba, inhame, taioba
Jambo, pitanga, pequi
Azedinha, gabiroba

Bacupari, araticum, pequi, azedinha, gabiroba, etc. são frutas típicas do cerrado, que vem passando por um processo de devastação provocada pela expansão da exploração latifundiária. E foi cantando o cerrado que o Mina das Minas encantou o público do programa Viola Minha Viola, comandado por Inezita Barroso e transmitido pela TV Cultura de São Paulo, no dia 25 de setembro. A repercussão fez esgotar, da noite para o dia, a venda do CD produzido pelos próprios músicos.

O conjunto Mina das Minas nasceu em 1982, reunindo quatro amigos da infância passada em Guarda-Mor, noroeste de Minas Gerais. O município, de aproximadamente 6 mil habitantes, está situado próximo à cidade de Paracatu, em pleno cerrado brasileiro, e tem como principal atividade econômica a agropecuária.

Terminada a adolescência em Guarda-Mor, os quatro amigos seguiram caminhos diferentes. Pedro Antônio se dirigiu à Brasília para viver de música "e se socorrer de outras coisas"; Galba, também tocando, viajou por vários estados, ficando algum tempo em Belo Horizonte e indo a São Paulo; Wellington de Faria foi para São Paulo, mas não era músico; Márcio Pereira se empregou em uma empresa de Belo Horizonte que não tinha nada a ver com música. O primeiro a se reunir a Galba e Wellington foi Pedro, tendo Márcio chegado por último, mas em tempo.

Vinte anos de estrada

O começo foi com participação em festivais e o primeiro disco, ainda LP, chamado Mina das Minas, foi gravado em 1989, e o segundo, já em CD, foi Bacupari, gravado em 1997.

A inspiração para compor o repertório, segundo Pedro, "é o cerradão". Wellington completa dizendo que "no final do ano, todos vamos com as famílias para Guarda-Mor, nos reunimos na roça, perto das vacas, e voltamos carregados de novas músicas." Os músicos revelam que seu processo musical é intuitivo, apesar de todos terem estudado música quando decidiram constituir o grupo. Estando fora do circuito das grandes gravadoras e emissoras de rádio e televisão, o grupo batalha há mais de vinte anos na divulgação de suas músicas em shows, principalmente em São Paulo e Minas Gerais.

Os músicos concordam que o problema da divulgação da verdadeira música brasileira é o monopólio das grandes gravadoras, que impõem o seu musicalmente miserável e tecnificado padrão. — O que mandava era a música estrangeira, tudo coordenado pelas grandes gravadoras. Elas acostumaram assim: vem de fora e joga os enlatados aqui. Agora toca mais música brasileira, mas da mesma maneira que elas querem, elas vão impondo do jeito delas e a gente deveria dar uma resposta mais rápida. Deve haver mudanças. Jogam a culpa na pirataria, mas não é verdade. A pirataria quem fez foram as próprias gravadoras que criaram e insistiram com essa postura. Hoje, o que se vende pouco, mas dignamente, sem piratear, é a música independente, regional, fora do esquema das grandes gravadoras.— diz Wellington.

Aprendendo dentro e fora

Falando em regional, o Mina das Minas tem uma postura muito clara quanto ao regionalismo (ou o nacional) com relação ao internacional.

— As gravadoras pegam uma forma de música e produzem outras coisas com o mesmo padrão para vender, ao passo que se cada um cantasse sua própria aldeia nós teríamos uma coisa rica demais, porque a boa música, mesmo a regional, não precisa de tradução — esclarece Pedro.

No início dos anos 90, foram a Portugal e passaram lá dois anos como músicos profissionais. A gratificante experiência deixou na memória deles algumas semelhanças com a situação dos músicos no Brasil.

— Onde você for vai encontrar a mesma coisa. Nós ficamos quase dois anos em Portugal e enquanto à tarde nós fazíamos shows com músicas nossas e regionais brasileiras, que é o que a gente gosta, à noite o contrato assinado nos obrigava a tocar a bola da vez, ou seja, tinha que entrar no esquema do que estava tocando nas rádios. O legado para mim é poder dizer que eu vivi dois anos somente de música, fala Wellington

De volta ao Brasil, no entanto, os músicos optaram por outras atividades profissionais para sustentar suas famílias, o que deixou menos tempo para a música, mas evitou uma situação em que se veriam obrigados a tocar por esmolas, como acontece com tantos bons músicos brasileiros. — Nós não conseguimos viver só da música que fazemos, que tem um público restrito. Mas não conseguimos viver também sem a música. Então financeiramente, a música é complementar e nós temos que dar nossos pulos — diz Pedro.

— Hoje, para ser um profissional da música, o cara tem que abrir mão da qualidade do que ele está tocando para entrar no esquema das gravadoras e das rádios — emenda Wellington. Empenhados na tarefa de elevar e popularizar a melhor música popular, o Mina das Minas tem um cuidado especial com a preparação dos shows.

— O maior resultado é quando termina o show, a quantidade de cd que é vendida. Essa é a melhor maneira de saber se o pessoal gostou ou não, porque são pessoas que a gente não conhece, mas chegam a fazer fila para adquirir um CD — comenta Wellington.

— É um trabalho difícil, mas é valoroso. O público vai crescendo aos poucos. É um público fiel que compra o CD e vai ao show porque gosta, não é porque a televisão ou o rádio estão impondo. O que nós queremos com nossa música não é vender milhões de cópias, mas que mais pessoas tenham acesso, porque a resposta para o artista é a pessoa ver, comentar, gostar. O disco não é um produto para se ganhar dinheiro, é um cartão de visitas — completa Pedro.

Cantar o cerrado

Entre os projetos do grupo, o que já está dando alguns passos e foi apresentado também no programa Viola Minha Viola é o Cantadores do Cerrado, que pretende juntar vários artistas dos estados cobertos pelo cerrado, principalmente de Minas Gerais.

A preocupação dos cantadores é com a destruição do cerrado, mas não se trata de ecologismo. O cerrado sempre foi pouco ocupado pelos brasileiros, já que, de uma maneira geral, o campo brasileiro padece de um vazio demográfico que cresce surpreendentemente. Como o latifúndio sempre existiu também naquela região, os camponeses pobres trabalhavam nos latifúndios se submetendo a relações semifeudais de produção. Os camponeses médios, e mesmo os camponeses ricos que são operosos, sempre coexistiram, até os limites mais insuportáveis, com esse sistema.

Cantar a vida do caboclo do cerrado, das pessoas que vivem de seu próprio trabalho é a idéia dos cantadores, que enxergam no avanço do latifúndio e da monocultura da soja não apenas a destruição, mas as conseqüências que se avizinham, inclusive no que diz respeito às principais bacias hidrográficas do país, que têm suas nascentes no cerrado.

— O cerrado cobre 25% do território brasileiro. As principais bacias de água doce nascem no cerrado, como as bacias do Rio Tocantins, do São Francisco, do Rio da Prata, e a tendência, com o avanço da cultura da soja, é a de secarem — diz Pedro.

E completa:

— A região de Guarda-Mor é uma grande produtora de soja e a devastação é muito grande. Nós vamos lançar um disco coletivo junto com alguns companheiros do Triângulo Mineiro e do norte de Minas para mostrar para as pessoas o que é o cerrado. Num segundo momento vamos reunir mais artistas. Os cantadores do cerrado, num primeiro momento, reunirão o grupo Trem de Minas, os músicos e cantores Luís Salgado, do Triângulo Mineiro, Bilora, do Norte de Minas, e Tiaga, de Viçosa, também em Minas.

Os festivais ainda existem

Paralelamente ao trabalho e ao Mina das Minas, Pedro Antônio ainda encontra tempo para a participação em festivais, nos quais tem ganho alguns prêmios. A realização de festivais de música por incrível que pareça, tem aumentado e, às vezes, se realizam dois ou três na mesma data. Pedro destaca ainda que a qualidade dos festivais cresce constantemente e, da mesma forma, o público que exige música de qualidade e que expresse o pensamento brasileiro.

— O público tem aumentado e a estrutura é excelente. Hoje, o artista não vai a um festival imaginando prejuízos, caso não seja premiado. Os festivais têm ajuda de custo, de modo que mais pessoas participam e isso eleva também o nível das músicas — finaliza Pedro.

O drama do camponês médio

Nasci aqui, vivi nessa morada
Criei meus filhos com a minha doce amada
E trabalhava com prazer de sol a sol
Com muita fé arava a terra onde plantava
Colhia tudo que a família precisava
Inda guardava mantimentos no paiol

Eh, eh, tempo bom se trovejava
ouvia o vento que a e i o uivava

Tirava leite e fazia uns queijinhos
Curtia couro e trançava os meus laços
Moía cana e fazia rapadura
Era fartura o que eu tirava desses braços
Como era bom levar os bois pelos trieiros
Ouvindo o carro que cantava sem parar
Era pra mim o mais famoso seresteiro
Cantava triste só pra gente se alegrar
Meu filho chamando a guia
Era minha companhia que contente assoviava


Era assim que ele vivia ali naquele pé de serra, onde o mundo principia. Aquilo tudo ali era nada. Mas foi ali, na beira daquela aguada, que ele fez sua morada, construiu sua família. Fez casa boa de telha, paredes com tijolos de barro, esteios de aroeira e até o piso era de assoalho de madeira, onde já dançou muito catireiro bom. Fez a cerca de arame que separa os pastos, casinha de queijo, paiol, curral, chiqueiro, barracão. Até o carro de boi, as cangas, canzil, cambão, tudo aquilo ali ele fez, na mão. Pois naquele tempo era bão. A fazenda vivia cheia, tinha muito agregado que tocava roça na meia, muita gente para ajudar e também prá prosear...


Com esse tempo os meninos foram embora
Para estudar lá na cidade, em outra escola
Por lá ficaram, já não podem mais voltar
De vez em quando vêm aqui pra passear
Só ficamos os dois velhos
Na beira do ribeirão
Companheiro e a luz da Lua
Que ilumina o chapadão
Viver, amigo Rosa
Se já era perigoso
Ficou muito mais custoso
Não se arranja nem peão
Já não posso com mais nada
Minha velha já nem fia
Então a gente desconfia
Que é o fim dessa meada

Vou vender todo meu gado
Já não tenho atividade
Vou deixar essa morada
Vou embora pra cidade
Meu velho Rosa pras veredas lá do céu
Só vou levar o que couber no meu chapéu.

(Trechos da Carta ao velho Rosa, de Pedro Antônio)

A música Carta ao velho Rosa ganhou o prêmio de melhor letra no Festival da Canção de Araucária, no Paraná, em setembro de 2004.

A meia, a terça etc., com que o camponês pobre da camada inferior (desprovido de propriedade ou com pouca terra) para sobreviver deve pagar ao latifundiário para trabalhar a terra, utilizando instrumentos de produção muito primitivos e tendo que ocupar toda a família na atividade agrícola— juntamente com o mandonismo político e a restrição ao trabalhador para comercializar o que produz — são algumas das características mais sentidas pelo povo sob as botas do latifúndio.

As relações de produção semi-feudais abarcam toda a economia dominada pelo latifúndio, a ponto dessa espécie de crônica da vida camponesa, que tem o escritor Guimarães Rosa como interlocutor de uma suposta carta, retratar, todavia, a saga do camponês médio. Esse pequeno proprietário de terras, para sobreviver, emprega, na sua propriedade, a força de trabalho do camponês pobre da camada inferior e outros. No entanto, não se trata de um latifundiário, que vive somente às custas do trabalho de outrem, mas do trabalhador operoso que, desde o princípio de seu empreendimento, construiu com as próprias mãos as benfeitorias de sua propriedade e viveu em grande parte de seu próprio trabalho e da família.

No fim da vida, tendo os filhos migrado para a cidade em busca de trabalho assalariado de melhor ganho, o fazendeiro, sem forças para trabalhar, é obrigado a vender seu gado, sua terra e seguir o mesmo rumo.

Se entre o camponês pobre da camada inferior e o latifúndio o antagonismo é mais acirrado, o camponês médio, apesar de proprietário de uma porção de terras (um meio de produção) torna-se vítima fatal do latifúndio, afinal, quem comprará seu gado e as terras, depois que seus filhos abandonarem a família em direção às maiores cidades, buscando trabalho e pagamento estável, instrução etc.

Depois de entregar sua terra ao criminoso latifundiário, o camponês médio e sua família entram no plano inclinado da ruína e o temor de tornar-se um miserável transforma-os em aliados dos camponeses pobres na luta contra o latifúndio.

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