O fascismo e seu lado de classe: um paralelo histórico

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Há vários aspectos da história de uma dada sociedade que parecem se repetir de modos diversos em diferentes lugares, pois são sujeitas às mesmas leis gerais. Vejamos.

Um Führer para os capitalistas

Em fevereiro de 1933 um grupo de grandes capitalistas alemães se reuniu com o então chanceler do país, Adolf Hitler. A ordem do dia foi o financiamento do partido nazista para que quatro objetivos imediatos fossem atingidos: (i) acabar com um regime fraco (República de Weimar); (ii) afastar a ameaça comunista; (iii) suprimir os sindicatos; e (iv) permitir que cada patrão fosse um Führer em sua empresa1.

Foto: Banco de dados AND

Ao final da reunião os presentes declararam total apoio aos planos nazistas. Os resultados foram bons para a classe burguesa.

O grupo alemão Krupp (fabricante de aço e armas) usou mão de obra escrava dos prisioneiros de guerra e dos campos de concentração. Em 1999, ocorreu a fusão da Krupp com outra grande siderúrgica alemã formando a ThyssenKrupp (que fabrica muitos dos elevadores utilizados no Brasil). A Siemens, explorando os prisioneiros de Auschwitz e Ravensbruck, fabricou telefones, telégrafos e rádios utilizados durante a guerra, bem como componentes elétricos para motores de aviões, equipamentos para geração de energia, materiais para ferrovias e munições. Foi a empresa responsável pela construção das câmaras de gás onde judeus, ciganos e comunistas foram mortos. A BMW, que fabricava motores para a força aérea alemã, utilizou mais de 30 mil escravos em suas fábricas. A Mercedes-Benz utilizou prisioneiros e civis de países invadidos pela Alemanha para fabricação de caminhões militares para Hitler. A Dr. Oetker, fabricante de bolos, sobremesas e chás, também se beneficiou do nazismo.

Outra empresa do setor de alimentos, a suíça Nestlé, lucrou muito com Hitler, utilizando trabalho escravo para fabricar seus chocolates.

A verborragia antifascista do Estados Unidos (USA) de proibição de negócios com alemães caía por terra quando envolvia muito dinheiro. Uma das maiores petroleiras estadunidenses, a Standard Oil, forneceu o transporte de combustível para as hordas de Hitler durante a guerra. A Ford fabricava caminhões para o Exército nazista na França e, durante a 2ª Guerra Mundial, dobrou de tamanho na Alemanha. O fusca da Volkswagen (inspirado no modelo T inventado pelo antissemita Henry Ford, para quem Hitler dedicou a 1ª edição do seu livro “Minha luta”) deu grande contribuição para a propaganda e economia do regime nazista. O presidente da General Motors, Alfred Sloan, motivado por seu fascismo declarado, cooperou em todos os aspectos nazistas: fez doações para o partido de Hitler, demitiu trabalhadores judeus e fabricou motores para aviões, detonadores de minas terrestres e torpedos.

Em parceria com a multinacional ianque de tecnologia International Business Machines (IBM), o regime de Hitler automatizou o plano de extermínio do povo judeu: a partir dela, os nazistas conseguiam identificar quem eram os judeus, onde viviam e trabalhavam. A IBM coordenava toda a logística do transporte dos judeus até os campos de concentração, onde os nazistas utilizavam as informações reunidas pela empresa para gerenciar a mão de obra escrava e quem seria morto nas câmaras de gás. O número do cartão perfurado da IBM era tatuado no braço dos prisioneiros de Auschwitz. Os lucros obtidos pela empresa estadunidense em sua subsidiária alemã chegaram, em valores atualizados, a 200 milhões de dólares (R$ 1,09 bilhão).

No início da 2ª Guerra Mundial a filial alemã da Coca-Cola estava isolada da matriz e não tinha acesso à matéria-prima para fabricar o refrigerante. Nessa época, a Alemanha era o maior mercado da empresa fora do USA. A solução encontrada pela empresa foi utilizar os ingredientes disponíveis e inventar a Fanta, que era fabricada por escravos nos campos de concentração. Outra empresa ianque a se beneficiar do nazismo foi a multinacional química DuPont, que forneceu o conhecimento fundamental para que as fábricas alemãs fabricassem borracha e matéria-prima para a guerra.

Fã de Mickey Mouse, Adolf Hitler assistia a filmes estadunidenses todas as noites e encontrou no cinema uma ferramenta para sua máquina de propaganda. Estúdios de Hollywood como Paramount, Columbia, Fox, Warner e MGM colaboraram de forma efetiva com o Terceiro Reich. Hitler prometeu não mexer nas propriedades dos grandes empresários estadunidenses se vencesse a guerra.

Coco Chanel, fundadora da multinacional de artigos de luxo, foi agente nazista na França como intermediária de conversas entre os nazistas e o anticomunista Churchill. Outra corporação do mundo da moda, Hugo Boss, fabricou os uniformes do Exército nazista e quintuplicou seus lucros, a partir da exploração de escravos. Essas grandes corporações sobreviveram a Hitler e continuam financiando ao redor do mundo outros regimes que oprimem e esmagam as classes trabalhadoras.

Ademais, é conhecido que, embora Hitler se pronunciasse fanaticamente contra a corrupção, ele impôs seu reino de terror com a compra dos altos comandantes militares alemães por meio de “presentinhos” com dinheiro desviado do Estado.

 

Um mito e uma junta militar para os monopólios

No Brasil, a junta militar e Bolsonaro, alçados à gerência do carcomido Estado brasileiro com a tarefa de liquidar os direitos dos trabalhadores e do povo, embora disputem entre si, contam com o total apoio dos capitalistas internacionais e daqueles capitalistas ditos brasileiros, que se alimentam das migalhas caídas das mesas das corporações multinacionais.

Com discurso “patriota” e defendendo um “país livre” e com “economia liberal”, grandes empresas como Madero (de Júnior Durski, que tem Luciano Huck como sócio), Polishop, Centauro, Coco Bambu, Riachuelo, Gazin, Smart Fit, e as pertencentes a Paulo Skaf (presidente da Fiesp), entre outras, crescem à sombra do Poder político. Os lucros desses bolsonaristas, em 2019, ultrapassaram os R$ 40 bilhões, num país em que 21 milhões de pessoas têm apenas R$ 3,73 por dia para suas necessidades básicas2.

É digno de nota o grande apoio que Bolsonaro recebeu de grandes empresários na primeira eleição presidencial em que o financiamento de campanha por empresas foi proibido. Será que esse financiamento deixou mesmo de existir?

 

O maior entusiasta

Dentre os apoiadores de Bolsonaro, um se destaca: Luciano Hang, o dono da rede varejista Havan. Admirador do USA (suas lojas têm arquitetura inspirada na Casa Branca e réplicas da Estátua da Liberdade) e do “capitalismo”, como gosta de dizer, se enquadra no estereótipo do self made man que o sistema não cansa de vomitar aos quatro ventos. De uma lojinha de tecidos na cidade de Brusque, em Santa Catarina, “construiu” um patrimônio de R$ 19 bilhões. Hang é a 7ª pessoa mais rica do Brasil e o bilionário de número 1.057 do mundo3. Possui 147 lojas em 18 estados do país e estufa o peito para dizer que sua empresa “não depende” de governo ou de empréstimos. Mas não é isso o que dizem os fatos.

De acordo com levantamento realizado via Lei de Acesso à Informação, o “Véio da Havan”,(5 como também é conhecido, contratou, desde 1993,  uma média de 1,6 empréstimos por ano (55 no total) junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)4. Atualizados os valores dos empréstimos, ultrapassam os R$ 72 milhões. Diz-se que Bolsonaro não abriu a “caixa-preta do BNDES” por causa desse seu apoiador.

Além disso, Hang possui várias condenações na justiça. Em 1999 sofreu uma ação de busca e apreensão determinada pela Procuradoria da República de Blumenau (SC): o empresário foi autuado em R$ 117 milhões pela Receita Federal e R$ 10 milhões pelo INSS. Após recurso, o judiciário deu um prazo de 115 anos para que ele pagasse sua dívida. Em 2003, a 7ª Turma do Tribunal Regional Federal (TRF) da 4ª Região condenou-o por unanimidade pela sonegação de R$ 10,4 milhões em contribuições previdenciárias de funcionários. Em 2004, o Ministério Público Federal propôs uma ação penal contra Hang por facilitação de descaminho, falsificação, crime contra o sistema financeiro e a ordem tributária, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Na ocasião foi condenado a 13 anos, nove meses e 12 dias de reclusão, além de ter que pagar multa de R$ 1,2 milhão, mas teve a pena extinta em 2008 pela 1ª Vara da Justiça Federal em Itajaí (SC), que julgou inepta a denúncia. Em 2007, foi acusado pelo Ministério Público Federal de Santa Catarina de usar contas de laranjas para enviar R$ 500 mil para o exterior. Condenado em segunda instância no TRF-4, a sentença prescreveu e Hang não sofreu punição. Em 2018, voltou a ser condenado e em definitivo por constranger funcionários a votar em seu candidato a presidente. Sofreu várias condenações por espalhar notícias falsas na internet, e teve suas contas em redes sociais bloqueadas, em julho de 2020, por decisão do Supremo Tribunal Federal. Como se pode ver, Hang, uma figura que expressa bem o que é a grande burguesia monopolista brasileira (importador-comprador que só alçou “grandes voos” graças ao impulsionamento proporcionado pela maquinaria burocrático-estatal através de mil falcatruas) é mais um sepulcro caiado de Bolsonaro.

A influência de Hang sobre o governo federal ficou evidenciada na famigerada “reunião ministerial”, de 22 de abril de 2020, quando o fascista Bolsonaro citou o problema que o empresário estava enfrentando com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para construir uma de suas lojas no Rio Grande do Sul. É como diz o dito popular: quem paga a banda, escolhe a música.

 

A verdadeira face do imperialismo

O que há de comum em ambos os cenários do paralelo histórico? Primeiro: a ascensão do fascismo em meio ao crescimento da situação revolucionária e desmoralização da democracia burguesa perante o povo. Segundo: o evidente – embora querendo-se mascarado – caráter de classe do fascismo, seu funcionamento em função da grande burguesia, latifúndio e imperialismo, e sua súbita bondade com aqueles que construíram seu império através do roubo, da falcatrua e do desvio do dinheiro público, enquanto gritam hipocritamente contra a corrupção. Terceiro: a hipocrisia dos antifascistas de ocasião, grandes capitalistas “progressistas”, facilmente “convencidos” com tostões de dinheiro. 

O poeta alemão Bertolt Brecht definiu o fascismo como a forma de capitalismo mais nua, sem vergonha, opressiva e traiçoeira5; cabe adicionar, baseando-nos no grande Georgi Dimitrov: trata-se, o fascismo, do acerto de contas dos elementos mais terroristas do capital financeiro contra o proletariado revolucionário, acerto de contas surgido de uma situação revolucionária em desenvolvimento que assusta a burguesia; regime cujo centro é a negação da velha democracia burguesa, fim do sistema parlamentar já desgastado e – por isso mesmo – insuficiente para conter a revolução, substituído pelo sistema corporativo potencializada ao máximo a violência contrarrevolucionária.

Num momento em que nosso povo é massacrado por uma pandemia e pela máquina de morte fascista pilotada pelas bestas de coturno e pelo mito beldroegas, não podemos tergiversar. Ainda lembrando Brecht, não é possível ser consequentemente contra o fascismo sem ser contra a base objetiva que o gera, a saber, o imperialismo.

Quem lamenta a barbárie que sai da barbárie, são como pessoas que desejam comer carne de vitela sem matar o bezerro. Estão dispostos a comer o bezerro, mas não gostam de ver sangue. Pedem que o açougueiro lave as mãos antes de pesar a carne. Não são contra as relações de propriedade que geram a barbárie, apenas são – no máximo – contra a barbárie em si ou, quando menos, são apenas contra a manifestação evidente da mesma, preferindo-a escondida.

Referências:

(1) VUILLARD, E. 2019. A ordem do dia. 1. Ed. Tusquets. p. 144.

(2) RIOS, R., SENA, J. R. 2020. Desigualdade social no Brasil cai, mas continua vergonhosa. Correio Braziliense. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/economia/2020/05/07/internas_economia,852168/desigualdade-social-cai-no-brasil-mas-continua-vergonhosa.shtml. Consultado em: Ago/2020.

(3) SPAUTZ, D. 2020. Luciano Hang sobe 14 posições na lista dos bilionários da Forbes. Disponível em:  https://www.nsctotal.com.br/colunistas/dagmara-spautz/luciano-hang-sobe-14-posicoes-na-lista-dos-bilionarios-da-forbes. Consultado em: Ago/2020.

(4) WALTENNERG, G., VINHAL, G. 2020. Luciano Hang obteve 55 empréstimos do BNDES para transformar Lojas Havan em império. Disponível em: https://www.metropoles.com/brasil/luciano-hang-obteve-55-emprestimos-do-bndes-para-transformar-lojas-havan-em-imperio. Consultado em: Ago/2020.

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