Camponeses completam retomada de Santa Elina 25 anos após a Batalha

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Na madrugada de 16 de agosto, dezenas de famílias camponesas dirigidas pela Liga dos Camponeses Pobres (LCP) de Rondônia e Amazônia Ocidental tomaram o latifúndio Nossa Senhora, última parte da antiga fazenda Santa Elina que ainda estava nas mãos de latifundiários. Terras essas onde há 25 anos ocorreu a Heroica Resistência Camponesa de Corumbiara.

Localizado no município de Chupinguaia, na linha MC01, há cerca de 675 quilômetros (Km) de Porto Velho, o latifúndio Nossa Senhora corresponde à terça parte da antiga Fazenda Santa Elina e conta com aproximadamente 6 mil hectares grilados por uma única família que tem enriquecido às custas do uso ilegal dessas terras públicas para pecuária extensiva. Segundo os camponeses, o título de propriedade e o Contrato de Alienação de Terras Públicas (CATP) são falsificados pelo latifundiário.

A tomada ocorreu exatamente uma semana após 09/08,  data em que completaram-se 25 anos do heroísmo dos camponeses que opuseram feroz resistência contra o ataque planejado pelo latifúndio e o velho Estado que ficou conhecido no mundo como “Massacre de Corumbiara”.

Com a ocupação, os camponeses exigem, na prática, a justiça para os crimes do latifúndio ladrão de terras, que tem suas mão sujas de sangue camponês. A conquista destas terras é a justiça que os camponeses exigem por direito pelo bárbaro crime de Estado em consórcio com o latifúndio cometido em 1995, que torturou e assassinou camponeses, dentre eles a pequena Vanessa, de apenas sete anos de idade.

Justiça esta que começou a ser feita em 2010, quando os camponeses tomaram e cortaram (dividiram) a maior parte das terras onde ocorreu a Heroica Resistência. Essas terras dão lugar, atualmente, às prósperas Áreas Revolucionárias Zé Bentão, Renato Nathan, Alzira Montenegro, Alberico Carvalho e Maranatã 1 e 2.

Após 25 anos, fazenda Santa Elina é totalmente tomada pelas massas camponesas.

Após 25 anos, fazenda Santa Elina é totalmente tomada pelas massas camponesas.
Foto: Resistência Camponesa 

Nasce o Acampamento Manoel Ribeiro

Fruto da retomada, o novo Acampamento Manoel Ribeiro foi assim nomeado em homenagem ao vereador assassinado por pistoleiros na porta de sua casa, em Corumbiara, pouco tempo após o chamado “Massacre de Corumbiara”. Conhecido como Nelinho, Manoel havia apoiado as famílias acampadas na fazenda Santa Elina durante toda a ocupação em 1995.

Na entrada do Acampamento, junto a uma grande faixa saudando os 25 anos da Heroica Resistência Camponesa, pode ser visto um estandarte com a foto do Nelinho, exibida junto às imagens dos demais lutadores que verteram seu sangue pela conquista da terra para quem nela trabalha.

Em 18/08, após uma assembleia no Acampamento, as famílias realizaram uma marcha pela área ocupada. A manifestação, realizada na principal entrada do Acampamento, foi marcada pela animação e combatividade.

Os camponeses entoaram várias palavras de ordem que apontam o caminho para solução da crise em todo o país: avançar na organização e luta por tomar todas as terras do latifúndio. Erguendo bem alto as bandeiras vermelhas, além de machados, foices, facões e enxadas – seus instrumentos de trabalho – os camponeses mostraram organização e disposição de luta.

Com esta nova tomada, as terras do latifúndio Nossa Senhora, antes exploradas para o benefício de alguns poucos e para atender aos interesses estrangeiros, agora serão cortadas para centenas de famílias produzirem alimentos e prosperarem, gerando renda e movimentando a economia das cidades de Chupinguaia, Corumbiara, Cerejeiras e região.

 

A chegada dos camponeses e o apoio de pequenos comerciantes

A entrada das famílias no latifúndio Nossa Senhora foi recebida com grande entusiasmo e animação pelas massas camponesas das áreas vizinhas, além dos pequenos e médios comerciantes da região; todos manifestaram seu apoio ativo através de doações de alimentos. Já no primeiro dia da tomada,  pequenos comerciantes da região doaram mais de 20 litros de leite para auxiliar as muitas mães com seus filhos pequenos.

A chegada de famílias às terras vem ocorrendo em clima pacífico e de entusiasmo, diante da possibilidade de produzir. Com a retomada das terras antes exploradas para o benefício de alguns poucos, famílias camponesas se comprometem agora a colher suas safras para vendê-las e criar emprego no campo, beneficiando diretamente os municípios vizinhos. 

Segundo avaliação da LCP, a mobilização das famílias em seus lotes levou ânimo a outros acampados vizinhos. A situação, de acordo com o movimento, possibilita que mais famílias vejam a tomada das terras do latifúndio como saída para a crise. Famílias que conseguiram seus lotes estão chamando outras, e até parentes, “para conquistarem seu pedaço de terra e o direito de trabalhar”.

O movimento afirmou também que, ao mesmo tempo, a retomada animou pequenos e médios comerciantes da região.

 

Resistência ao ataque da PM

Três dias após a tomada, de acordo com denúncias, policiais atacaram os camponeses do Acampamento Manoel Ribeiro. Por volta das 9h30 da manhã, pelo menos três camburões da Polícia Militar (PM) chegaram lá exigindo, de forma ilegal e arbitrária, a saída dos camponeses e ameaçando as famílias: “Se não saírem hoje mesmo por conta própria serão expulsos à força”, disse um dos policiais.

Relatos de moradores da Área Revolucionária Zé Bentão e entorno, localizada próxima ao antigo latifúndio Nossa Senhora, também relatam terem escutado estampidos como disparos de armas de fogo.

Organizados, os camponeses se mostraram dispostos a resistir. Desde a chegada da polícia foram ouvidos fogos e relatos de que as viaturas da repressão recuaram frente à resistência das famílias logo após a primeira investida contra o Acampamento.

Poucas horas depois da chegada da polícia, camponeses e apoiadores que vivem no entorno se reuniram e, em grupo, se dirigiram até o Acampamento para demonstrar solidariedade e se opor ao covarde ataque policial que visava expulsar as famílias das terras ocupadas em plena pandemia.

 

Imprensa do latifúndio espalha mentiras

Menos de uma semana após os camponeses tomarem as terras, o latifúndio e sua imprensa reacionária e vendida começaram a espalhar falsas notícias com o objetivo de criminalizar a luta das famílias camponesas.

Pseudojornalistas passaram a difundir que os camponeses incendiaram parte da reserva ambiental do latifúndio na região do Acampamento, baseados em uma falsa denúncia feita por latifundiários da região rural de Chupinguaia  registrada na Polícia Civil.

A mentira foi difundida como fato por tais veículos, sem averiguação da veracidade da denúncia, função mínima da imprensa. Para dar impressão de verdade, os veículos usaram uma foto genérica de queimadas para ilustração de matérias policialescas. Os jornalecos do latifúndio local tentaram de forma tacanha induzir o leitor a acreditar se tratar de registro fotográfico do evento em si, que nunca ocorreu. Não existe qualquer registro de incêndio na área ocupada.

Segundo a LCP, outra acusação caluniosa é a de que os camponeses estariam interessados em uma área de reserva ambiental da fazenda, quando, na verdade, as famílias ali acampadas lutam pela conquista de todo o restante das terras da antiga fazenda Santa Elina, griladas pelo latifúndio Nossa Senhora e por outros que se apossaram irregularmente dessas terras públicas.

Essas notícias policialescas não passam de tentativas de criminalização da luta pela terra por parte do latifúndio, que usa sua imprensa marrom a fim de preparar terreno para ataques e despejos contra os camponeses, sob o pretexto de “combate aos incêndios” e “defesa do meio ambiente”.

 

A ‘proteção do ambiente’ do latifúndio

Enquanto os latifundiários falsificam documentos, enriquecem os países imperialistas, destroem florestas, exploram os peões, assassinam camponeses e indígenas, os milhares de camponeses pequenos e médios são responsáveis por mais de 70% da produção de alimentos que abastece a mesa dos brasileiros, segundo último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O discurso de preocupação com a proteção do “meio ambiente” por parte do latifúndio não passa de demagogia. Onde vemos as matas queimarem, sim, são em ações promovidas pelo latifúndio.

Prova flagrante disso foi o “Dia do fogo” dos latifundiários, ocorrido em agosto de 2019, quando grupos do latifúndio organizaram em diversas partes do país uma série de incêndios criminosos intensificando os já frequentes desmatamentos e queimadas em larga escala, cometidos por estes mesmos, para dar lugar a suas monoculturas e pecuária extensiva para exportação.

Todas essas grandes queimadas não são sequer verificadas pela Secretaria de Estado do Desenvolvimento Ambiental (Sedam) e pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que estão mais ocupados perseguindo e multando pequenos e médios proprietários, trabalhadores estes que colocam o alimento na mesa do brasileiro.

Os camponeses, na verdade, são os mais interessados na preservação das matas e recursos naturais, pois vivem com suas famílias nas terras em que trabalham. Eles dependem diretamente dos recursos do solo para produzir e viver. É da mata que o camponês retira cabo para foice. É a mata que preserva as nascentes de água. É na mata que ele complementa sua fonte proteica com sua pesca e caça não predatória.

Importante também lembrar que até hoje o crime hediondo cometido pelo velho Estado e o latifúndio em Santa Elina, crime que chocou o Brasil e mundo, segue impune, tendo inclusive alguns de seus executores, como o policial militar Mauro Ronaldo Flores Correia, sido promovido a coronel. Até poucos dias antes, ele era comandante geral da corporação em Rondônia. Há também o coronel José Hélio Cysneiro Pachá, que atualmente é secretário de segurança do governo estadual.

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