Poemas

Provocações

Luis Fernando Veríssimo

A primeira provocação ele aguentou calado. Na verdade, gritou e esperneou. Mas todos os bebês fazem assim, mesmo os que nascem em maternidade, ajudados por especialistas. E não como ele, numa toca, aparado só pelo chão.

A segunda provocação foi a alimentação que lhe deram, depois do leite da mãe. Uma porcaria. Não reclamou porque não era disso.

Outra provocação foi perder a metade dos seus dez irmãos, por doença e falta de atendimento. Não gostou nada daquilo. Mas ficou firme. Era de boa paz.

Foram lhe provocando por toda a vida.

Não pôde ir à escola porque tinha que ajudar na roça. Tudo bem, gostava da roça. Mas aí lhe tiraram a roça.

Na cidade, para aonde teve que ir com a família, era provocação de tudo que era lado. Resistiu a todas. Morar em barraco. Depois perder o barraco, que estava onde não podia estar. Ir para um barraco pior. Ficou firme.

Queria um emprego, só conseguiu um subemprego. Queria casar, conseguiu uma submulher. Tiveram subfilhos. Subnutridos. Para conseguir ajuda, só entrando em fila. E a ajuda não ajudava.

Estavam lhe provocando.

Gostava da roça. O negócio dele era a roça. Queria voltar pra roça.

Ouvira falar de uma tal reforma agrária. Não sabia bem o que era. Parece que a ideia era lhe dar uma terrinha. Se não era outra provocação, era uma boa.

Terra era o que não faltava.

Passou anos ouvindo falar em reforma agrária. Em voltar à terra. Em ter a terra que nunca tivera. Amanhã. No próximo ano. No próximo governo. Concluiu que era provocação. Mais uma.

Finalmente ouviu dizer que desta vez a reforma agrária vinha mesmo. Para valer. Garantida. Se animou. Se mobilizou. Pegou a enxada e foi brigar pelo que pudesse conseguir.

Estava disposto a aceitar qualquer coisa. Só não estava mais disposto a aceitar provocação.

Aí ouviu que a reforma agrária não era bem assim. Talvez amanhã. Talvez no próximo ano… Então protestou.

Na décima milésima provocação, reagiu. E ouviu espantado, as pessoas dizerem, horrorizadas com ele:

Violência, não!


Um pouco de Corumbiara

Andrey Vitor

Última faixa de terras da fazenda Santa Helena foi retomada

Onde antes as cercas e o chumbo quiseram sufocar o exercício da enxada

25 anos depois, ergue-se a bandeira

Da resistência Corumbiara

Pela incansável luta dos que reivindicam terra pra quem nela vive e trabalha

Prova concreta de que a história é viva

E nunca para

E que a vitória é questão de tempo

Para os que permanecem na batalha

Viva a Liga dos Camponeses Pobres

e sua incansável peleja

Luta consequente que ao velho Brasil sacoleja

construindo um outro, um novo Brasil, que tanto se deseja

Um poder para o povo

e que dele seja

Um Brasil sem latifúndios

e que assim seja

Que toda foice seja libertada!

Que toda terra seja retomada!

E que toda resistência tenha um pouco de Corumbiara


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