Abandonado, Amapá é sacudido por 22 dias de escuridão e de protestos

No dia 3 de novembro, o Amapá foi transportado para uma situação similar à da Idade Média. Um incêndio, resultado da sucata que se transformou a infraestrutura elétrica do estado, destruiu o transformador que fornecia energia para a maioria dos seus municípios. Sem eletricidade integral por 22 dias e enfrentando dois blecautes totais, as massas populares não deram trégua e puseram em alerta a reação.

A compra e armazenamento de alimentos, abastecimento de água, o funcionamento de todos os serviços fundamentais e de toda atividade produtiva foram paralisados ou seriamente prejudicados para 90% da população do estado, em 13 das 16 cidades.

As promessas não foram suficientes para acalmar o povo. No dia 06/11, três dias após início do blecaute, o ministro de Minas e Energia do governo de generais e Bolsonaro, Bento Albuquerque, disse que dez dias seriam necessários para resolver o problema.

Protestos ocorreram em várias partes do estado do Amapá, contra apagão geral. Foto: Dayane Oliveira.


Após quase uma semana sem luz e sem respostas concretas dos governos, as massas foram às ruas protestar, erguendo e incendiando barricadas durante as madrugadas dos dias 7 e 8 de novembro. Policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e da Ronda Ostensiva Tática Motorizada (Rotam) da Polícia Militar (PM) do Amapá foram enviados para reprimir os manifestantes que exigiam seu direito básico. Os militares dispararam balas de borracha, bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral contra os cidadãos que protestavam nas cidades em total escuridão.

Foi na periferia de Macapá, capital do estado, onde ocorreram os principais protestos e a maior repressão da PM, que recebeu aval do governo estadual para agir com truculência contra os atos; houve manifestações nos bairros Congós, Habitacional Jardim Açucena, Pedrinhas, Muca e outros, todos localizados na região Sul de Macapá, que é onde há concentração da população de baixa renda. Nas cidades de Santana e Mazagão, aconteceram pelo menos 22 manifestações, a maior parte delas com interrupção de vias e rodovias e queima de pneus.

Estamos reivindicando porque não aguentamos mais. Não sabemos mais o que fazer. Estamos sem luz, sem internet, sem comunicação. Isso não é justo. Para uns tem, para outros não tem”, disse a dona de casa Marta Lúcia Moraes ao monopólio de imprensa Estadão.

Outro dia de protesto muito significativo foi 10/11, quando moradores do conjunto Macapaba, local que abriga 4 mil moradias populares na zona norte de Macapá, revoltados após nove dias de apagão, se reuniram e atacaram uma base da PM. Eles reagiram à brutal repressão da PM, praticada durante os atos contra o descaso e abandono dos governos de turno na ocasião do apagão. Quatro dias antes, em 6/11, um exemplo da bestial repressão veio à tona com um adolescente tendo sido atingido no olho por um tiro de bala de borracha disparado por um policial.

Os centenas de moradores bloquearam um trecho da BR-210 por cerca de oito horas e, depois, se reuniram em frente ao conjunto habitacional Macapaba, perto da rodovia interditada.Para chamar atenção para a situação caótica a que estavam submetidos, os trabalhadores queimaram pneus e pedaços de madeiras, e até crianças e idosos participaram do ato. No prédio do conjunto habitacional funcionava uma Unidade de Polícia Comunitária (UPC), que foi invadida pelo povo. As massas revoltadas quebraram vidros, levaram botijões, geladeira e extintores de incêndio.

Conforme ressaltou o AND em Editorial intitulado Amapá-múndi, “como não poderia deixar de ser, as tropas chegaram logo”, referindo-se ao instante seguinte ao blecaute, “e antes dos geradores já estava instalado na capital amapaense o Corpo de Fuzileiros Navais. No sábado, dia 07/11, dezenas de protestos espontâneos ocorreram em diversas cidades e foram reprimidos com selvageria pela Polícia Militar. Houve relatos de tiros, balas de borracha e feridos. Diante das denúncias, o comandante da corporação declarou: ‘Vamos estar atuando nos levantamentos dos principais pontos onde terá manifestação e tentar debelar antes que a coisa ocorra’. (Grifo nosso). No Amapá, terceiro mundo do terceiro mundo, o direito constitucional de manifestação foi simplesmente suprimido pelo ato discricionário de um policial!”.

Outra situação que causou revolta foi o “rodízio” de fornecimento de energia promovido pelo governo reacionário do Amapá e que, segundo denunciam moradores, tem beneficiado somente os ricos e deixado as populações pobres à mercê.

É o caso de condomínios da Zona Sul, como o Condomínio Mônaco e San Marino, que são condomínios fechados, onde mora a elite local. Nesses locais tem energia 24 horas. São lugares onde moram desembargadores, juízes”, denunciou Marta Silva, moradora de Macapá, ao jornal Brasil de Fato. Outras denúncias dão conta de que, para os bairros pobres e periféricos, nem o sistema de rodízio de 6h foi cumprido. Os relatos foram de somente 2h ou 3h de energia para as comunidades pobres.

Trabalhadores enfrentam policiais no Amapá. Foto: Dayane Oliveira.


Transformador operava no limite

Segundo documentos divulgados pelo Ministério de Minas e Energia (MME), do Operador Nacional do Sistema (ONS) e da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), os responsáveis por planejar, dar os comandos de operação e fiscalizar o sistema de abastecimento do país já sabiam dos riscos e das péssimas condições de funcionamento da subestação que entrou em colapso.

O risco já havia sido sinalizado ao ONS há cerca de 11 meses. O documento apontou que, além de operar no limite, a subestação não tinha condições de religar rapidamente se dependesse de um transformador sobressalente, emergencial.

A concessionária responsável pela subestação que sofreu o incêndio é a Linhas de Macapá Transmissora de Energia (LMTE), subsidiária da multinacional espanhola Isolux, que entrou em recuperação judicial e hoje se chama Gemini Energy. A Gemini Energy detém 85,04% de participação na linha, enquanto 14,96% são da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), autarquia do governo federal vinculada ao Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR). A empresa espanhola, por sua vez, tem como sócios os fundos de investimento estrangeiro Starboard, com 80%, e a Perfin, com 20%. A participação da Starboard se dá pelo fundo Power Fip, e a da Perfin, pelo fundo Apollo 14 Fip. Já a participação da Sudam se dá pela conversão de seis parcelas de títulos de crédito. Buscando diminuir os custos e maximizar os lucros, tais monopólios estrangeiros do ramo energético degradam a qualidade do serviço e da infraestrutura, deixando as massas do Amapá sem o básico. Tal é o retrato da dominação imperialista.

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