Música a serviço do povo

Envolvida com as questões sociais que estão a sua volta, a cantora, compositora e instrumentista pernambucana Marília Parente usa sua música para contar a história de camponeses pobres da sua região, jurados de morte por lutar pelo direito à terra. Com 26 anos de idade, Marília é representante da nova geração da música brasileira regional, sempre procurando novas formas musicais, misturando gêneros, experimentando novos sons.

— Nasci em Recife, mas ainda criança fui morar com os meus avós em Exu, sertão de Pernambuco, cidade de Luiz Gonzaga, inclusive meu avô trabalhou com ele por muito tempo. A minha primeira relação com música vem desse âmbito, do forró, da música popular nordestina brasileira. Depois, já maiorzinha na infância, voltei  ao Recife para morar com a minha mãe, que é do Exu e veio para cá trabalhar, e então fui me interessando por outros tipos de música — conta Marília.

— Comecei a fazer rock progressivo, tive um projeto de coco, integrando como vocalista o grupo Coco Raízes do Capibaribe, depois me aproximei do folk, do rock rural, e fui construindo esse diálogo. Costumo dizer que faço música de fronteira por causa da minha vida ter sido, até agora, de idas e vindas do sertão para Recife, tenho até um verso que diz assim: “de tão sertaneja não nasci no sertão” — continua.

— A cultura na capital de Pernambuco é absolutamente diferente da cultura no sertão, e eu proponho esse diálogo, essa fronteira entre a música popular, da cultura popular de onde eu venho, do baião, da música popular brasileira, com a música mais pop da capital, com influência do que vem de fora. Acredito que temos muito a aprender com todas as culturas, penso no mundo como uma comunidade global, e sendo assim, a música de fronteira é uma tentativa de renovar e tornar sempre viva a cultura popular — expõe.

Atenta aos acontecimentos, Marília lançou recentemente o single autoral “Para la Tierra Volver”, música que conta a história de camponeses jurados de morte em Engenho Fervedouro, município de Jaqueira, Zona da Mata de Pernambuco.

— A música é um folk, compus depois que conheci a condição desses agricultores, algo que está acontecendo agora: existe uma lista de 10 camponeses jurados de morte, e isso me comoveu bastante. Conheci o avô de um rapaz chamado Edeilson, que foi vítima de uma emboscada, em 2020, levando 7 tiros. Na letra da música relato a situação da emboscada de Edeilson, contando a história dessa comunidade que sofre com um conflito fundiário. Os posseiros dizem que são de uma família poderosa — conta.

— Minha ideia é tentar divulgar essa situação em forma de música, trabalhadores que estão em extrema vulnerabilidade humana, sendo ameaçados o tempo todo, privados da sua liberdade, sofrendo com a vigilância coronelista, sendo filmados por drones, monitorados a todo o tempo. Lavouras estão sendo atacadas com chuva de agrotóxicos, que são despejados por pequenos aviões, e me impressiona que a sociedade não dê atenção a isso — relata.

 

Arte voltada à realidade

 — Quando as pessoas vão para o cinema e veem um filme como “Bacurau”, elas acham que aquilo é só uma história, mas na verdade é a história real do Brasil, dos conflitos fundiários e da opressão que as pessoas ainda sofrem até hoje por tentarem viver da terra, produzindo alimento saudável, de forma honesta, sem a destruir. Acredito que toda a arte está a serviço do povo, e nós devemos buscar a felicidade coletivamente, porque a real felicidade no mundo só se dá de forma coletiva — defende Marília.

— Tenho uma música que fala assim: “estou desocupado de outras coisas desimportantes”. Acredito que o artista não tem obrigação de fazer uma arte voltada para as questões sociais, para o político, mas que é muito interessante poder produzir arte desta forma. Para mim, tudo é carregado de ideologia, porém quando falamos de questões mais diretas, como essa do campo, acho importante cumprir o papel de divulgar causas sociais — continua. 

Marília carrega para o seu trabalho toda a sua ideologia e experiência de vida, misturando tudo em experimentos diversos, que incluem timbres.

— Gosto de incorporar o que vem de fora ao que sou e assim consegui uma estética musical única, muito bonita, e que torna a música brasileira, para mim, a mais interessante do mundo. Mas a minha própria maneira de cantar, o meu sotaque, declara quem eu sou, mesmo mudando sempre, sendo bem flexível, explorando novas formas. Gosto muito desses experimentos, por exemplo, no meu novo single estou com um registro mais para médio grave, já no meu próximo disco será mais agudo, porque vou trabalhar uma estética das cantadeiras, das rezadeiras do sertão, dos vaqueiros — relata.

— Aprecio muito também a ideia de buscar o universal no regional, e faço isso esteticamente, a partir de timbres, misturas, um diálogo entre as escalas nordestinas, a nossa forma de fazer música com a música oriental. Busco esse oriental que há no regional, porque acho que o Nordeste é um grande portal de conexão com o mundo, e ao invés de fechar a cultura popular, eu prefiro pensar essa cultura como uma coisa ampla, que pode ser sentida, interpretada, ressignificada por qualquer pessoa no mundo. Precisamos construir pontes para que ela não se congele, não se destrua — expõe.

Atualmente Marília trabalha a sua carreira solo e também participa de um coletivo de compositores chamado Avoada, um projeto itinerante que promove turnês para levar música autoral até o interior do estado.

— Somos três amigos compositores daqui do Recife que têm um trabalho bastante diversificado. O que fazemos basicamente é pegar um carro e sair viajando por aí tocando em espaços pequenos, em bares,  levando a nossa música até as pessoas, mesmo sem dinheiro e muitas vezes pagando para tocar, quase uma militância artística, mas que é bastante divertido e rende sempre boas histórias para contar. Nossa primeira turnê foi no agreste de Pernambuco — conta.

— A partir dessas viagens o Avoada se firmou como uma espécie de supergrupo.  Como somos todos compositores, fazemos músicas para o coletivo, falando sobre estrada, política, nossas experiências de vida, e em 2019 lançamos nosso primeiro EP, “Marília, Marcelo, Julião e Juvenil” — finaliza Marília Parente.

 

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Para la Tierra Volver

Era um homem comum

Na comuna cresceu

Um bom filho de Deus

Firme em seu jejum

 

Imagine você

Sete tiros no corpo

Quem dirá?

Que um pobre rapaz

 sonhador

Ave Maria, tomou

 

Era a falta de sorte

Em seus braços tão

 fortes

Todo o céu desabou

Quando a moto tombou

 

Não se pode conter

A sina de um camponês

Da terra ver tudo nascer

Y para la tierra volver

 

São seus olhos fechados

No primeiro disparo

Você fala, eu me calo

Escutar é querer

 

Em suas trevas

Relâmpagos mortos

Sufocam a dor

O dedo no gatilho

O grito no estribilho

Que o medo calou

 

Um rei feito de aço

Sua bota a um passo

De tomar o espaço

Sequestrar uma estrela

 

No chicote fazê-la

Aos poucos parar de

brilhar

Bom escravo do norte

Na foice da morte

Os campos arar

 

Pobre coitado

Na solidão

Do seu reinado

Sua prisão

 

Um fervedouro

Zé e Maria

Fé e Agonia

 

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