Sobe em 60% o preço do arroz e do feijão

É difícil saber em qual região do Brasil não há a preferência pelo arroz e feijão. Os dois itens andam juntos no dia a dia nos pratos de trabalhadores de todo o país. Nem por isso deixaram de ser afetados pela grave crise econômica, agudizada em meio à pandemia da Covid-19, e tiveram um gigantesco aumento ao longo de 12 meses.

Aumentou no último ano os preço dos seguintes itens: feijão preto (aumento de 69%), arroz (61%), cebola (41%), carne bovina (27%), feijão carioca (20%), batata (19%), frango (14%), ovos (10%). Em média, os itens presentes no famoso “PF – prato feito” aumentaram 25%.

Índice ainda maiores

Em alguns estados, o aumento em 12 meses de certos produtos foi ainda maior do que a média nacional. Certas regiões registram um aumento menor das mesmas mercadorias que, em uma outra localidade, apresentaram um aumento maior. Isso não é mero detalhe, pelo contrário.

A título de exemplo, em Aracaju (capital de Sergipe) a carne apresentou alta de 46,5% no período de 12 meses. Variação muito maior que a encontrada em Porto Alegre, onde o mesmo produto apresentou variação de 27%. Quando, porém, se trata do feijão, a capital sergipana apresenta índices sensivelmente menores em relação a mesma capital do Rio Grande do Sul: 27,9% frente ao índice de 74,4%.

Essa disparidade de preços entre regiões é um elemento importante para revelar a estrutura latifundiário-burocrática, responsável por deixar a Nação sem uma garantia de abastecimento de víveres. Isso se explica por três fatores principais: a permanência do monopólio da terra e o latifúndio monocultor, a precariedade da integração entre regiões do país – ausência de um eficiente sistema ferroviário a nível nacional e a precariedade do sistema rodoviário existente – e, por fim, a permanência do sistema monopolista que favorece o desenvolvimento das forças produtivas de forma extremamente desigual entre os setores.

 

O que explica?

Em meio à pandemia, o aumento em um quarto do valor da refeição veio se juntar a outros fatores que golpearam profundamente os mais pobres. Aqueles que perderam a renda, os que já se encontravam desempregados e os desalentados, formaram um verdadeiro exército cuja sobrevivência ficou e ainda está largada à própria sorte.

Fruto da desvalorização da moeda nacional, o dólar está mais caro. A moeda estrangeira chegou no mês de abril próximo à casa dos R$ 6,00. Esse fator impulsiona o latifúndio exportador a aumentar a massa de produtos que reúne (entre sua produção e sua expropriação dos camponeses pobres) no objetivo único de destiná-los ao estrangeiro, cuja transação é em dólar. Fazendo isso, consegue lucrar enormemente em meio à ruína de toda Nação.

É inteiramente falsa a argumentação feita em torno de dados fabricados de que o agronegócio (latifúndio de nova roupagem) é o setor que cresce em meio à pandemia. Não representa outra coisa que não o embelezamento dessa classe de parasitas (à moda da “guerra de narrativas” de elementos reacionários presente nos monopólios de imprensa antipovo). Nesse sentido, falou, entre outros, a Folha de São Paulo, em 3 de março: “Apesar do recuo no final do ano, PIB do agro é o único a crescer”.

Se o agro fosse “pop”, o enriquecimento de uns poucos donos de terra seria um benefício para a Nação, coisa que, ao contrário, é impossível. A prosperidade do latifúndio significa, necessariamente, isso que aí está: o aumento de preços, por consequência o aumento da fome e a supressão do acesso à alimentação. Não há outra alternativa em nossa estrutura social e econômica marcada pela concentração de terra, em que permanece como prática sistêmica a retirada de terras dos pequenos e médios, assim como a repressão aos que buscam um pedaço de terra.

Nos falta arroz e feijão

Em 2021, importamos feijão devido a problemas climáticos que afetaram a safra, porém o câmbio (mercado externo) foi o principal fator. É o que reconhecem os responsáveis pela pesquisa em torno do Índice de Preço ao Consumidor (IPC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Também importamos parte do arroz que é consumido e que nos falta no mercado interno para alimentar toda a população. Essa importação vem de países como Argentina, Paraguai, Peru, Colômbia e até da China e da Tailândia.

Cerca de 70% da produção do arroz é feita no Rio Grande do Sul. Há também outras partes do país que o produzem, ligados às grandes redes varejistas estruturadas em torno dos latifúndios, que expropriam a pequena produção camponesa de arroz através do baixo preço permanentemente oferecido por ela – mais um benefício ad eternum de nossa estrutura semifeudal. Os pequenos produtores encontram-se submetidos a essa rede de dominação latifundiária. Sem insumo, sem estímulo ou qualquer fomento para abastecer a Nação com víveres.

 

A pandemia: antes e depois

O arroz e o feijão passaram por um aumento que representa dez vezes mais do que a inflação no período.

Em 1º de janeiro de 2021, o salário mínimo subiu de R$ 1.045 para R$ 1.100. Para dar conta da inflação acumulada no ano passado, ele deveria ser R$ 2 maior e ter chegado a R$ 1.102. Com essa medida, o governo de Bolsonaro/generais desrespeitou até mesmo a regra da Constituição de 1988 que determina um reajuste periódico para preservar o poder de compra. Por dois reais, o governo se livraria de um crime constitucional. Porém, seriam (como está agora) mantidos a defasagem do salário mínimo – questão, porém, que a Constituição de um país dominado, cujos beneficiários são os donos de terra, não trata.

Junto a tudo isso, a perda de renda do trabalhador representa mais um revés na vida do povo pobre. Seja porque foi demitido, por morte daquele que era o responsável pelo abastecimento financeiro do lar ou por impossibilidade de trabalhar durante a pandemia, a situação encontrada por todo lugar foi parecida: escolher comprar ovo para todo mês.

Mesmo o prato mais consumido no cotidiano do brasileiro, composto pelo arroz e feijão, teve uma queda no consumo. A outra coisa não se deve senão à atual crise econômica geral que condena, junto com o genocídio planificado, o povo pobre a uma vida sem qualquer dignidade.

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Avenida Rio Branco 257, SL 1308 
Centro - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: [email protected]

Comitê de Apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro

E-mail: [email protected]om
Reuniões semanais de apoiadores
todo sábado, às 9h30

Seja um apoiador você também:
https://www.catarse.me/apoieoand

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda (licenciado)
Victor Costa Bellizia (provisório)

Editor-chefe 
Victor Costa Bellizia

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas (In memoriam)
Fausto Arruda
José Maria Galhasi de Oliveira
José Ramos Tinhorão (In memoriam)
Henrique Júdice
Matheus Magioli Cossa
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação
Ana Lúcia Nunes
João Alves
Taís Souza
Gabriel Artur
Giovanna Maria
Victor Benjamin

Ilustração
Victor Benjamin