À Palestina, o inevitável caminho da Resistência

A falência dos ‘acordos de paz’ e do pacifismo 

A carnificina praticada pelas forças armadas israelenses na Faixa de Gaza, entre os dias 10 e 21 de maio, além de escancarar a verdadeira face do sionismo para o mundo ver, deixou evidente a falência do discurso dos “acordos de paz” e da “diplomacia internacional” que há decadas vem sendo forçado goela abaixo do povo palestino, servindo como uma mordaça para a sua resistência contra a ocupação israelense. 

Além dos bombardeios genocidas contra Gaza, o recente desenvolvimento de eventos envolveu os protestos contra a expulsão de palestinos de Jerusalém Oriental, nos bairros de Silwan e Sheikh Jarrah; os ataques israelenses à Mesquita de Al-Aqsa; os foguetes disparados pela Resistência na Faixa de Gaza, e os grandes levantamentos populares na Cisjordânia e territórios ocupados. Ele serviu também para destacar a bancarrota dos grupos capitulacionistas palestinos frente às massas do seu próprio povo. 

Dentre eles, a Autoridade Palestina (AP) foi a principal desmascarada. O órgão de governo da Cisjordânia, encabeçado pelo partido Fatah, é um dos grandes apologistas da “solução dos dois Estados”, projeto defendido pelo imperialismo ianque (Estados Unidos, USA) e amplamente rejeitado pelas massas palestinas como solução para a questão palestina. Ele prevê a criação dos Estados independentes, de Israel e da Palestina, vivendo em “coexistência pacífica”, e consolida o roubo das terras palestinas pelo sionismo. 

 

Palestinos protestam contra intervenção 

No dia 25/05, dezenas de palestinos em Ramallah protestaram contra a visita do secretário de Estado ianque, Antony Blinken, à cidade na Cisjordânia ocupada. Blinken se reuniu com o presidente da AP, Mahmoud Abbas, para uma coletiva de imprensa conjunta, em que advogou pela solução de dois Estados e prometeu o envio de 5,5 milhões de dólares em “assistência imediata a desastres” para a Faixa de Gaza, e cerca de 32 milhões de dólares para a Agência das Nações Unidas para os Refugiados Palestinos (UNRWA). 

Completamente obtuso à insurreição que vem ocorrendo por toda a Palestina desde abril, Abbas agradeceu a visita do agente ianque, defendeu um retorno ao “status quo” em Jerusalém e o fim da “violência e terrorismo”, e apelou à “resistência popular pacífica”. 

Enquanto isso, os manifestantes no protesto entoavam “A América [USA] é a cabeça da cobra!”, e erguiam cartazes com os dizeres “Blinken, você não é bem-vindo!”. Eles também denunciavam o conluio entre a AP e as forças israelenses para “coordenar a segurança” na Cisjordânia, gritando: “A coordenação da segurança é vergonhosa!” e “Os acordos de Oslo acabaram!”. 

Um comunicado da organização do protesto declarou que “a visita de Blinken é a máscara da política e da diplomacia de má vontade em uma tentativa de fragmentar nossa luta unificada e fortalecer ainda mais uma agenda colonial e capitalista dos colonos que ataca as trincheiras do movimento de libertação”. Nele, afirmava-se também: “Rejeitamos a imposição do USA de intermediar negociações falsas entre nossos colonizadores e a liderança extinta e corrupta em Ramallah”, referindo-se à AP. O monopólio de imprensa israelense Jerusalem Post noticiou que as pessoas presentes no protesto se recusavam a “receber os inimigos do povo palestino em nossa terra”. 

O protesto serviu para expressar a rejeição dos palestinos não apenas à AP e a Abbas, mas ao discurso das instituições palestinas apegadas à sua legitimidade frente à “comunidade internacional”, viciadas na solução de dois Estados e nas chamadas “negociações de paz” mediadas pela “Organização das Nações Unidas”. 

Serviu, também, para rechaçar o cinismo do imperialismo, principalmente ianque, que passou os 11 dias da ofensiva israelense à Gaza defendendo um suposto “direito de autodefesa” da potência ocupante, enquanto negava o direito do povo colonizado e oprimido à resistência, armada ou não, além de criminalizar os homens e mulheres palestinos que ousam desafiar a ocupação, tachando-os de terroristas. 

 

O esgotamento da ‘Autoridade Palestina’ 

A revolta da juventude palestina tem posto abaixo a falsificada realidade de “paz” que se instaurou com os acordos de Oslo em 1993 e 1995, assinados entre Israel e a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), então encabeçada pelo conciliador Yasser Arafat. Paralelamente, o apoio aos grupos da Resistência vem crescendo exponencialmente desde a Faixa de Gaza até a Cisjordânia. 

Isto se dá porque, apesar dos bombardeios genocidas que perduraram por mais de uma semana contra Gaza, os habitantes do território não sucumbiram, e os grupos da Resistência se recusaram a levantar a bandeira branca e continuaram a atirar foguetes de volta, até Israel demandar um cessar-fogo. De forma inédita, os palestinos em Jerusalém e na Cisjordânia comemoraram o cessar-fogo levando bandeiras do Hamas para os protestos de rua. 

Enquanto isso, desde o início de maio as forças da AP prenderam pelo menos 14 palestinos por sua participação em manifestações ou por suas publicações nas redes sociais, e convocaram muitos outros para serem interrogados, de acordo com o grupo palestino Lawyers for Justice (“Advogados pela Justiça”). Esses jovens, em sua maioria estudantes, são acusados de  “incitar conflitos sectários e raciais” – lutar contra Israel – e insultar a AP. 

Tareq Khudairi, de 23 anos, foi detido em 22/05 por protestar em Ramallah, e declarou:  “Eles não gostaram do fato de eu ser franco contra a Autoridade Palestina e me acusaram de ser membro do Hamas. Respondi que não, mas mesmo que fosse, não seria um problema, pois representa a resistência contra a ocupação israelense”. 

Outros jovens detidos pela AP são Mahdi Abu Awwad, Mustafa Al-Khawaja, Akram Salamah, Anas Qazzaz e Hussam Amareen, um estudante de medicina na Universidade al-Quds que apenas prestou solidariedade a Khudairi em seu perfil na internet. 

Sobre a perseguição política encabeçada pela AP, o analista político Khalil Hasheen, em entrevista à Al Jazeera, disse que a organização enxerga “qualquer outra política, mesmo que enraizada em protestos populares, como uma ameaça a ela. Qualquer desvio à estratégia da AP resulta na repressão do governo aos ativistas, já que não é do interesse da AP que os protestos se transformem em uma Intifada”. 

Em meio aos ataques israelenses em maio, um grupo de intelectuais, escritores e figuras públicas palestinas lançou uma campanha exigindo a renúncia ou demissão de Abbas. Em sua declaração, eles convocam “o povo palestino a aderir a este chamado e iniciar uma nova página baseada na unidade da luta, na unidade do povo e na unidade da terra”. 

Na declaração, Abbas é acusado de não ter demonstrado “solidariedade moral com o sofrimento do povo palestino” enquanto a Resistência em Gaza lutava contra os ataques sionistas. Diz que: “A recente intifada de Jerusalém revelou a retumbante incompetência do presidente [Abbas], suas políticas e sua autoridade, e o povo palestino está farto”. 

O texto também denuncia o conluio entre a AP e o imperialismo ianque para tentar “restaurar a legitimidade de Abbas”, mantendo reuniões com ele e trabalhando para reviver o processo de “paz” entre os palestinos e Israel, o que representa a submissão. 

A AP cancelou as eleições parlamentares e presidenciais previstas para ocorrerem em 22 de maio e 31 de julho, por temor do resultado previsível de derrota para o Fatah. A última eleição parlamentar foi realizada em 2006, quando o Hamas derrotou o Fatah e conquistou a maioria dos assentos no Conselho Legislativo Palestino (PLC). Agora, afrontado, Abbas tem apelado para um “governo de unidade nacional” que aglutinaria vários grupos, incluindo o Hamas. No entanto, seu apelo tem sido amplamente rejeitado pelas massas e pelo Hamas e outras organizações, como a Jihad Islâmica Palestina. 

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