Ensinando ‘Sobre a Prática’ através da música Oricuri de João do Vale

Oricuri madurou é sinal 

Que arapuá já fez mel 

Catingueira 

fulorou lá no sertão 

Vai cair chuva granel 

Arapuá esperando 

Oricuri maduricer 

Catingueira fulorando 

sertanejo 

Esperando chover 

Lá no sertão, quase 

ninguém tem estudo 

Um ou outro que lá 

aprendeu ler 

Mas tem homem capaz de 

fazer tudo doutor 

E antecipa o que  ai 

acontecer 

Catingueirafulora vai chover 

Andorinha voou vai ter verão 

Gavião se cantar é estiada 

Vai haver boa safra no sertão 

Se o galo cantar fora de hora 

É mulher dando fora pode crer 

A cauã se cantar perto de casa 

É agouro é alguém que vai 

morrer 

São segredos que o sertanejo 

sabe 

E não teve o prazer de 

aprender ler 

 

A canção de João do Vale é, como outras de seu catálogo, uma celebração da sabedoria camponesa e de sua ciência. Oricuri, contudo, nos dá alguns elementos importantes para entender o processo do conhecimento como um todo. Faremos uma leitura associativa deste processo, partindo do célebre texto de Mao Tsetung: “Sobre a Prática”. 

 

Os “segredos” do camponês, seu conhecimento sobre as leis da natureza e da produção, seguem um processo lógico de descobrimento do mundo. Mao demonstra que o eixo que guia o conhecimento humano, do início ao fim, é a prática social; o ato de transformação consciente que só pode ser realizado pelo homem como um ser social1. Nesse sentido, ele elucida que há três tipos principais de prática social: a luta pela produção, a luta de classes e a experimentação científica. Respectivamente, relativos à contradição entre a sociedade humana e a natureza2, a contradição interna à sociedade humana e as contradições internas da natureza. 

Todavia, elas não estão dispostas de maneira horizontal; dessas três formas principais, Mao coloca que a luta pela produção é central, porque é dela que parte a necessidade objetiva de conhecimento do mundo para sua transformação. A partir do processo de produção, surgem relações de produção específicas que agrupam os seres humanos em classes sociais com interesses contraditórios. Isso influencia a experiência de cada homem com o mundo pois diferentes interesses geram diferentes interpretações do real, ou como Mao afirma: “cada forma de pensamento está invariavelmente marcada com um selo de classe”. A classe cujos interesses correspondem à superação do sistema atual, ao qual ela pertence, tende a querer desmistificar a realidade para poder compreender suas leis e transformá-la. Também a partir do processo de produção, desenvolve-se a compreensão do mundo e de suas leis internas, a base para a experimentação científica. 

A luta pela produção aparece na canção Oricuri na figura do sertanejo “esperando chover” e da promessa de “boa safra no sertão”. É uma dinâmica de produção tão imediata que João associa diretamente com a arapuá (abelha) esperando o Oricuri amadurecer para fazer seu mel. Portanto, a necessidade do conhecimento das leis da natureza não advém principalmente da contemplação ou da observação curiosa, mas da necessidade. É a partir dela que o camponês precisa fazer as inferências quanto às relações internas entre os fenômenos naturais. O gavião que anuncia a estiada, a andorinha que anuncia o verão, o Oricuri que anuncia o mel. 

 

Esse conhecimento parte da prática social e é validado pela prática social. Vejamos como se dá esse processo de conhecimento de um modo geral. Mao afirma que o conhecimento humano se desenvolve em duas etapas e em dois saltos de qualidade. Primeiramente precisamos partir do ponto de vista materialista, de que o mundo é real, logo possui leis de desenvolvimento interno possíveis de serem compreendidas e de que ele existe fora da consciência humana. A primeira etapa, portanto, se trata do conhecimento sensorial imediato, a aproximação dos fenômenos através dos sentidos. Segundo Mao, aqui está o materialismo da teoria do conhecimento (a primazia da realidade sobre a consciência, a consciência como reflexo). 

A acumulação quantitativa de dados gera o primeiro salto de qualidade, onde há uma transformação do conhecimento sensível ao conhecimento conceitual. Essa é a segunda etapa. Enquanto na primeira etapa conhecemos as coisas em sua forma, seu aspecto isolado, a ligação externa (aproximativa) entre os fenômenos; na segunda etapa os conhecemos através de sua essência, sua totalidade e suas ligações internas (contradições internas, leis próprias do desenvolvimento)3. Somente aqui é possível a dedução, julgamentos e inferências lógicas; o processo teórico. Como Mao esclarece: “a percepção resolve o problema do fenômeno, somente a teoria pode resolver o problema da essência”. Para ele, aqui está a dialética da teoria do conhecimento (a transformação de um estágio em outro, de um aspecto da contradição em seu contrário). 

Mas aí que está o “pulo do gato”. Apesar de Mao afirmar que a segunda etapa do conhecimento é a mais importante no “conhecimento de determinada coisa”; o mais importante na filosofia em geral é o segundo salto de qualidade: o acúmulo quantitativo de teoria e seu salto de qualidade de volta à prática social4. Somente na transformação do mundo que uma teoria pode ser validada. Segundo Mao,e as duas particularidades do materialismo dialético são sua natureza de classe explícita e sua epistemologia (i.e. sua filosofia do conhecimento) identificada com a prática social. 

Em Oricuri, João do Vale declara que, mesmo sem leitura, o sertanejo é capaz de “antecipar o que vai acontecer”. Não se trata de misticismo, mas da compreensão, através da prática, das leis de desenvolvimento internas da natureza em seu devir, que o sertanejo usa para preparar sua produção e sobrevivência. Ou seja, a teoria de que o canto do gavião anuncia a estiada é referendado quando, na prática, a preparação da colheita baseada nisso gera resultados. 

 

Além disso, Oricuri ressalta o fato de que o conhecimento do  camponês é adquirido sem o estudo nos livros. Mao chama o conteúdo contido em livros de “prática indireta”. Portanto, por mais que a alfabetização e o estudo do mundo pelos livros seja indispensável, o principal é a prática direta. Se o mundo está em constante transformação, o conceito registrado sempre é parcial e precisa ser referendado pela prática para compreendermos se há correspondência com o estado atual das coisas. Assim como Mao expõe: “Quer na natureza, quer na sociedade, todos os processos, em consequência de suas contradições e lutas internas, progridem e desenvolvem-se. E o processo do conhecimento humano deve igualmente progredir e desenvolver-se com eles – as ideias frequentemente se atrasam com relação à realidade”. 

Portanto, existe a possibilidade do erro, da falta de correspondência com a realidade. O erro se dá tanto pelo limite das ferramentas de compreensão teórica e prática, quanto da sistematização ou aplicação incorreta da teoria, quanto do próprio estágio do desenvolvimento do processo. Lembremos que, se somos materialistas, devemos entender que o concreto existe, e não é dado pela revelação divina ou pelo debate discursivo, mas pela correspondência com a realidade através da prática social. Segundo Mao, a verdade possui duas características: uma universal (absoluta) e outra particular (relativa)5. Essas duas características formam uma unidade de contrários, pois uma gera a outra mutuamente – não posso compreender o mundo sem a verdade (universal) que me é disposta, ao mesmo tempo, a verdade particular de meu conhecimento soma-se à verdade como um todo. Focar só num aspecto da verdade é perigoso e leva ao idealismo e à mistificação. 

É interessante que, em Oricuri, o músico coloque paralelamente conhecimentos objetivos, referendados pela prática social e conhecimentos especulativos, sem correlação imediata, como o canto do galo prevendo a “mulher dando fora” e o canto da cauã prevendo a morte de alguém. Os dados de nossa experiência podem gerar teorias que façam correlações e inferências que não correspondem com as leis de desenvolvimento das coisas. A esse erro chamamos subjetivismo. Longe de negá-lo, simplesmente chamando de supersticioso, o trabalho de investigação deve verificá-lo pela prática social e compreender a que leis de fato os fenômenos correspondem, se são coincidências ou se há uma verdade que ali desponta. Como Mao diz, “o universal se esconde no particular”. Para o materialismo dialético, o erro é natural do processo de conhecimento humano e etapa necessária de seu desenvolvimento. O mais importante é a prática social, pois só ela é capaz de dar critério para avaliação da teoria6. 

Mao utiliza como exemplo o início do movimento operário. Seja pelo estágio de desenvolvimento do capitalismo, seja pela imaturidade das ferramentas de compreensão do mundo dos trabalhadores, a primeira forma organizada de compreensão dos trabalhadores da sua exploração responsabilizava as máquinas; o movimento ludista. Como no processo de conhecimento exposto, confundia a forma pelo conteúdo, a consequência pela causa. Com o passar do tempo, muitas teorias foram surgindo e intervindo na prática social do movimento operário, gerando um grande acúmulo quantitativo. O salto de qualidade para o conceito se dá com Karl Marx e Friedrich Engels, sintetizando toda a história do movimento operário até então e gerando uma ferramenta compreensiva das relações internas do capitalismo para sua transformação (7); com o propósito de retornar à prática, à revolução social (8) e gerarmais acúmulo para novos saltos de qualidade. Com essa ferramenta de conhecimento, podemos compreender melhor no que implica a revolução social: “uma vez que as ideias corretas, características da classe avançada são apreendidas pelas massas, essas ideias se transformam em força material que mudam a sociedade e o mundo”9. 

 

Notas: 

  1. Em Teses sobreFeuerbach, Marx afirma que “a vida social é essencialmente prática” e que “a essência humana não é uma abstração inerente a cada indivíduo (...) ela é o conjunto das relações sociais”.
  2. Marx chama a produção de “dialética entre o homem e a natureza”e de sua “transformação consciente”. 
  3. Marx afirma no volume 1 d’O Capital “que na aparência as coisas muitas vezes se representam em forma invertida é algo bem conhecido em toda ciência (...)” e no volume 3 ele diz que “toda ciência seria supérflua sea aparência externa e a essência das coisas coincidissem diretamente.” 
  4. Em Teses sobreFeuerbach, Marx afirma que “Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo”.
  5. Lenin afirma, emMaterialismo e Empiriocriticismo que “devemos aprender a colocar, e responder, a questão da relação entre a verdade absoluta e relativa dialeticamente”.
  6. Em Teses sobreFeuerbach, Marx afirma que “É na práxis que o ser humano tem de comprovar a verdade,isto é, a realidade e o poder, o caráter terreno de seu pensamento”. 
  7. Da “classe em si” à “classe para si”.
  8. Segundo Lenin, “sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário”.
  9. MaoTsetung, “De onde vêm as ideias corretas?”.

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