BA: Camponeses das comunidades do Cerrado sofrem novas ameaças do latifúndio

Foi na sua própria casa, durante a madrugada do dia 6 de maio, na Comunidade Capão do Modesto, localizada no município de Correntina, Bahia (BA), que o camponês Antônio dos Santos Silva sofreu mais uma ameaça do latifúndio. 

Enquanto a família de Silva dormia, um condutor dirigindo um veículo não identificado parou em frente à sua casa à meia-noite, efetuou dois disparos de arma de fogo e permaneceu em sua porta em uma clara tentativa de coação. “Deram os dois tiros e ficaram aqui na porta até duas horas da manhã. Aí vieram duas motos, com três pessoas, no mesmo lugar onde o carro fez a ronda, e foram embora”, conta o camponês. A essa nova ameaça, somam-se outras dezoito intimidações já denunciadas por Silva. 

O camponês e atual presidente da Associação de Moradores de Capão do Modesto passou seus 46 anos de vida nas terras da Comunidade, onde seus bisavôs também viveram e onde famílias de outras comunidades se associaram ao plantio de roças e criação de animais, além de serem responsáveis por cuidar das nascentes da região da bacia do rio Corrente. 

Tais comunidades são conhecidas como “fundo e fecho de pasto”. Tratam-se de povos tradicionais do Cerrado que trabalham em seu pedaço de terra e usufruem coletivamente de tudo o que produzem. 

Apesar do recrudescimento dos conflitos datar a década de 80, com a apropriação de terras públicas por grileiros, foi no ano de 2013 que a relativa tranquilidade dos Fechos Capão do Modesto, Cupim, Guaraipongas e Vereda da Felicidade cessou. Latifundiários grileiros começaram a cobrar R$ 20 de aluguel por cada cabeça de gado criada nas terras dos camponeses. 

“Como a gente ia alugar, dessas empresas, o terreno do nosso próprio fecho? Eles estão querendo ganhar dinheiro em cima do território da gente!”, denuncia Silva ao portal Combate Racismo Ambiental. 

Um dos principais responsáveis pelas ameaças e autor da ação de despejo contra os camponeses é o latifundiário e grileiro Luiz Carlos Bergamaschi, junto à empresa Agropecuária Sementes Talisma Ltda. Ele é titular de 14 fazendas nos arredores dos Fechos Capão do Modesto e Porcos, Guará, Pombas. Apenas uma de suas supostas fazendas – a Vale do Correntina – soma 1.142 hectares de terra. Além disso, no início deste ano, Bergamaschi assumiu a presidência da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa). A ação de despejo movida pelo latifundiário corre no judiciário desde 2017 e conta com a autoria de mais cinco grileiros também responsáveis por confiscar as terras dos camponeses. 

Foi no ano de 2008 que o grupo de latifundiários grileiros encabeçado por Bergamaschi foi se apropriando de documentos relacionados a uma suposta fazenda denominada Riacho do Capão. A primeira matrícula é de 2006, sem comprovação de registro anterior. Após quatro anos sem demonstrar nenhum exercício de posse, eles começaram a aparecer na área. 

De acordo com relatos dos camponeses, em 2013, os latifundiários contrataram uma “empresa de segurança” do ex-policial militar Carlos Erlani, famoso na região por ordenar grupos de pistolagem. A partir de então, os camponeses começaram a sofrer ameaças e agressões constantemente. Mesmo diante de tal situação, jamais arredaram os pés de suas terras. 

Já em 2018 a violência agravou-se ainda mais quando o latifúndio trouxe para a região a empresa de segurança privada Estrela Guia. Em 2019, um dos pistoleiros da empresa baleou um camponês em Formosa do Rio Preto, BA. Os relatos dos camponeses na região denunciam todos os tipos de torturas realizadas pelos criminosos do bando que vão desde sequestros-relâmpagos para promover terror físico e psicológico; a agressões físicas e verbais; ameaças e intimidações; remoção de cercas e estacas dos Fechos para que os animais fujam, e sumiço e execução de animais. 

 

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