Ensino/aprendizagem da matemática nas Escolas Populares

A Escola Popular trabalha com a concepção de que as massas trabalhadoras fazem a história e que, a partir do conhecimento de sua realidade social, passam a intervir com maior qualidade e capacidade no processo de transformação da sociedade. O currículo das escolas — o português, a matemática, a literatura e a história — devem estar ligados diretamente à luta do povo.

http://anovademocracia.com.br/26/26-30.jpg
Apoiando as percepções de Karl Marx, conclui-se que "se as relações de produção geram uma alienação do trabalho, a forma da ‘educação’ produz uma outra alienação". O termo educação tem para os educadores das escolas populares um significado singular, uma vez que educação é muito mais que os anos que as crianças e adolescentes passam no "espaço escolar". A educação acontece permanentemente nas relações sociais e na luta pela transformação da realidade.

Anton Makarenko, pedagogo soviético, em uma de suas mais importantes obras, Poema Pedagógico, aponta que educar não é instruir e que educação é diferente de instrução pública. Essa argumentação não tira a função nem a importância da instrução pública na vida das pessoas, muito pelo contrário, toda instrução, qual ela seja, pode ser considerada progressista. A questão é a exclusividade depositada nessa mesma instrução escolar pública e as limitações de seus fins.

No dia-a-dia presenciamos a sobreposição de uma visão puramente técnica e aparentemente neutra que vincula a solução das questões educacionais exclusivamente a visões equivocadas, ou não, de especialistas e dirigentes educacionais, que deixam de lado o aspecto central que é o caráter ideológico e político da educação das massas. Isso não faz tabula rasa do que foi conquistado até agora pelo povo brasileiro. Pelo contrário, é a capilaridade da educação no país e suas limitações de avanço que geram a consciência da necessidade de uma mudança na sua concepção.

Uma escola verdadeiramente popular e democrática deve depositar atenção nos currículos e na sua aplicação prática. O ensino/aprendizagem das disciplinas deve caminhar lado a lado com os interesses das massas, dando governabilidade a suas lutas.

Tomemos como um breve exemplo o ensino e a aprendizagem da matemática, uma disciplina extremamente técnica, mas que se ministrada de forma justa e correta, representa um importante salto no desenvolvimento do conhecimento humano.

Matemática e prática social

A humanidade, na busca pelo conhecimento, deixou suas descobertas matemáticas registradas em suas principais obras. A arquitetura clássica, as pirâmides, a métrica da poesia e as técnicas militares são importantes exemplos da função da matemática na vida das massas.

Mas, na escola oficial, historicamente a disciplina é muitas vezes considerada um suplício na vida dos estudantes. Quando ministrada de forma desconectada da realidade, gera traumas e complexos, apesar dos esforços de alguns professores em tornar o ensino desta disciplina mais prazerosa. O problema encontrado por muitos professores é a forma como o currículo é introduzido na escola e a sua aplicação prática.

Fora do espaço escolar, o cotidiano dos trabalhadores faz saltar aos olhos a possibilidade de trabalhar a matemática de forma conectada à sua realidade. Exemplos práticos nos comprovam isso. Toda a vida, os camponeses não precisaram de avançados conhecimentos algébricos e geométricos para medir suas terras. E sabemos o quanto é satisfatório os resultados da produção das famílias camponesas, passando pela quantidade de sementes, o fertilizante, a colheita e a própria distribuição. Nas cidades, operários da indústria da construção são capazes de calcular a quantidade de azulejos a serem colocados em um determinado espaço sem ao menos dominar as quatro operações fundamentais. Imaginem a prática destas atividades se amparada pelo domínio da técnica e da ciência.

Essa prática social dos trabalhadores deve sempre ser levada em conta. A teoria deve servir à prática e a prática servir a teoria, em uma relação dialética. A matemática, como ciência que é, deve estar a serviço da potencialização da prática social dos homens, prestando contribuições para melhorar tanto a vida material das massas como para o desenvolvimento da humanidade.

Trabalhando a matemática

Dados do SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica) apontam para as enormes dificuldades encontradas pelos estudantes brasileiros no ensino da matemática. A culpa seria dos estudantes que "acham enfadonha a matemática" ou dos professores que pelejam mas não encontram uma forma atrativa de repassar os conteúdos? Ao se deparar com a matemática na escola oficial, o aluno aos poucos se convence de que o problema da matemática é que a matemática passa a ser um problema e, em muitos casos, se convence de que são incapazes de aprender.

A matemática estudada na infância da grande maioria de operários e camponeses demonstra o mesmo dilema. João Gualberto da Silva, pedreiro e educando da Escola Popular Orocílio Martins Gonçalves (EPOMG), critica a forma como lhe era ensinada a matemática em sua cidade natal, no interior do Maranhão. Ele diz que os enunciados nunca tratavam de assuntos referentes à sua realidade rural, o que agravava o desinteresse e o levava a cabular as aulas de matemática para ficar na roça. Abandonou a escola aos 10 anos e voltou a estudar somente no ano 2000, aos 58 anos. Pedreiro de mão cheia, João encontra nas atividades matemáticas da EPOMG uma conexão com o seu dia-a-dia:

— A matemática me facilitou a resolver os meus problemas, tanto nas contas de casa, como nas tarefas do meu serviço — afirma João.

Para melhor servir aos trabalhadores, o ensino e a aprendizagem da matemática tem de se esforçar para se aproximar da vida prática dos educandos, gerando interesse e reafirmando entre eles a sua importante função. Nas escolas populares do campo, a matemática tem de estar intimamente ligada à produção da terra. Devem ser trabalhadas noções de quantidade, medidas geométricas e o desenvolvimento do raciocínio lógico face aos problemas enfrentados pelo camponês, a fim de valorizar o seu trabalho. Nas escolas da cidade, o ensino da matemática, voltada para o proletariado, também deve estar ligada às implicações da vida urbana da massa proletária urbana. Outro aspecto é a matemática estar associada à qualificação profissional dos trabalhadores, chegando ao ponto dos operários construírem suas próprias residências, inclusive por intermédio de mutirões.

Dessa forma, a matemática tem uma importância social capilar. Ela é um dos vários instrumentos a ser utilizado pelos trabalhadores para mudarem a realidade de suas vidas e de seu povo. Especificamente ela pode auxiliar os trabalhadores a não sofrerem situações como aquelas vividas pelo personagem Fabiano, no romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, que é passado para trás pelo seu patrão por não "saber contar". Portanto, cabe às escolas populares e democráticas do nosso país fazerem dos operários e camponeses homens e mulheres cultos e "bons de conta".


* Rômulo Radicchi é coordenador da Escola Popular Orocílio Martins Gonçalves, onde leciona matemática para operários da construção civil.

NÃO SAIA AINDA… O jornal A Nova Democracia, nos seus mais de 18 anos de existência, manteve sua independência inalterada, denunciando e desmascarando o governo reacionário de FHC, oportunista do PT e agora, mais do que nunca, fazendo-o em meio à instauração do governo militar de fato surgido do golpe militar em curso, que através de uma análise científica prevíamos desde 2017.

Em todo esse tempo lutamos e trouxemos às claras as entranhas e maquinações do velho Estado brasileiro e das suas classes dominantes lacaias do imperialismo, em particular a atuação vil do latifúndio em nosso país.

Nunca recebemos um centavo de bancos ou partidos eleitoreiros. Todo nosso financiamento sempre partiu do apoio de nossos leitores, colaboradores e entusiastas da imprensa popular e democrática. Nesse contexto em que as lutas populares tendem a tomar novas proporções é mais do que nunca necessário e decisivo o seu apoio.

Se você acredita na Revolução Brasileira, apoie a imprensa que a ela serve - Clique Aqui

LEIA TAMBÉM

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Avenida Rio Branco 257, SL 1308 
Centro - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: [email protected]

Comitê de Apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro

E-mail: [email protected]om
Reuniões semanais de apoiadores
todo sábado, às 9h30

Seja um apoiador você também:
https://www.catarse.me/apoieoand

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda (licenciado)
Victor Costa Bellizia (provisório)

Editor-chefe 
Victor Costa Bellizia

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas (In memoriam)
Fausto Arruda
José Maria Galhasi de Oliveira
José Ramos Tinhorão (In memoriam)
Henrique Júdice
Matheus Magioli Cossa
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação
Ana Lúcia Nunes
João Alves
Taís Souza
Gabriel Artur
Giovanna Maria
Victor Benjamin

Ilustração
Victor Benjamin