Kosovo: encenação de independência, ofensiva neocolonial

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Bondsteel, base militar ianque no Kosovo

São muitos os movimentos separatistas mundo afora, com razões mais ou menos justas para reivindicarem autonomia política e soberania territorial, em iniciativas ora de teor reacionário, lideradas pelas elites corruptas, ora comprometidas com as lutas autênticas de diferentes povos.

São regiões desde a Abkhazia e a Ossétia do Sul, que buscam sua independência da Geórgia, até Zanzibar, ilhas semi-autônomas da Tanzânia; do potencial separatista da Escócia e do País de Gales em relação ao Reino Unido às forças que exigem a independência da Transnístria frente à Moldávia. Na Espanha, existem os casos notórios da Galícia, da Catalunha e do País Basco. A Irlanda tem uma longa história de lutas do seu povo contra o domínio inglês.

A Organização das Nações e Povos Não Representados reúne 30 membros e 150 milhões de pessoas em todo o mundo. Lá estão desde povos indígenas, como os Mapuche, no Chile e na Argentina, e os Sioux, no USA, às chamadas "minorias étnicas", como os curdos.

A UNPO (da sigla em inglês) é uma organização de legitimidade duvidosa, seja por sua proximidade com a ONU — lugar por excelência dos arranjos neocolonialistas — seja por abarcar uma gama de reivindicações tão variada quanto desprovida de um sentido comum. Mas sua extensa lista de filiados pode dar a noção da magnitude que a questão separatista alcança hoje em todo o mundo.

Sendo assim, resta saber o seguinte: Por que o USA e a União Européia esmeram-se tanto para levar a cabo a independência de alguns poucos novos países, como o Kosovo, enquanto não tomam conhecimento ou mesmo boicotam ferozmente reivindicações muito mais legítimas pela liberdade e dignidade de muitos outros povos, como os palestinos?

A verdadeira resposta é uma afronta: hoje, o direito de um povo ser ou não formalmente soberano é determinado pela sua adesão ou não às imposições de "segurança multilateral" oriundas do USA e da Organização do Tratado do Atlântico Norte, a Otan. Especialmente na Europa, a soberania depende menos da legitimidade da reivindicação por autonomia do que do grau de adesão às orientações políticas e econômicas da União Européia.

Em fevereiro, o oligopólio internacional dos meios de comunicação produziu uma grande festa mediática em torno da dita "independência" declarada unilateralmente pelas lideranças albanesas do Kosovo mancomunadas com os generais da Otan e do USA e com as empresas multinacionais ianques.

Nos telejornais burgueses, não se disse uma palavra sequer acerca de quem esteve por trás de todo o processo, ou seja, o USA e a Otan — atuando segundo seus interesses geoestratégicos.

A fim de ludibriar a audiência, forjou-se na TV uma saga heróica de libertação nacional dos kosovares, quando a independência da ex-província Sérvia teve pouco ou nada da grandeza que se alardeou. Ao contrário. Na verdade, todo o processo de independência do Kosovo coroa uma estratégia imperialista há muito posta em prática nos Bálcãs a fim de integrar toda a região aos interesses do militarismo e do capitalismo.

Dividindo para dominar

A máquina de propaganda do USA e da União Européia escondeu ainda do distinto público um importante detalhe: é no Kosovo que está instalada a maior base militar ianque em um país estrangeiro desde a Guerra do Vietnã. O chamado "Campo Bondsteel" fica lado a lado com oleodutos estratégicos que passam pela antiga Iugoslávia e bem perto de campos de petróleo que ficam na Albânia.

Bondsteel foi construído em terras roubadas pelo USA logo após o início dos bombardeios sobre o que havia sobrado da Iugoslávia, em 1999. A base tem 25 quilômetros de estradas e mais de 300 construções. É cercada por 14 quilômetros de muros e 84 de arame farpado. Tem 11 torres de vigia. É auto-suficiente, abriga sete mil soldados ianques e 55 aviões e helicópteros prontos para entrar em ação.

Um mega investimento do governo ianque em aparatos físicos destinados ao imperialismo, cuja construção foi generosamente entregue a uma filial da empresa Halliburton Corporation, do hoje vice-presidente do USA, Dick Cheney.

Há setores da esquerda combativa européia segundo os quais os bombardeios sobre a Iugoslávia serviram mesmo para abrir caminho à construção de Bondsteel. E o papel exercido pelas potências capitalistas na recente declaração de "independência" do Kosovo foi um esforço para livrar a área estratégica da influência russa — historicamente aliada da Sérvia.

Com tudo isto, a intenção imperialista era compensar a contínua e inexorável perda de influência no Oriente Médio — graças à bravura e à resistência heróica dos povos de lá — com o controle dos campos de petróleo da região do Mar Cáspio.

Por outro lado, o apoio europeu a toda esta trama tem como pano de fundo a chamada "Política Européia de Segurança e Defesa", que significa a militarização da União Européia em largas proporções, e que está prevista no projeto constitucional europeu, aprovado como o "tratado de Lisboa" mediante a traição das gerências nacionais aos povos do continente — como A Nova Democracia destacou na edição 41.

A transformação da província em protetorado do trio USA/Otan/ UE é o ápice de um processo que já resultou na adesão da Eslovênia à União Européia, e em parcerias entre a Otan e a Croácia e a Macedônia, que devem se tornar membros da aliança militar transatlântica em abril, quando acontece o encontro de cúpula da organização, em Buscarest, capital da Romênia — exatamente um dos países do Leste Europeu onde o USA pretende instalar novas bases militares em troca da "modernização" das forças armadas locais.

Além disso, na mesma reunião de cúpula, a Otan planeja oficializar compromissos com a Bósnia-Herzegovina e com Montenegro, que também fizeram parte da antiga Iugoslávia. Com a instrumentalização das rivalidades no Kosovo, o USA e as potências capitalistas européias tentam consolidar na região dos Balcãs as condições para a realização de suas estratégias imperialistas — e fazem isto exatamente no momento em que a presidência rotativa da União Européia vem sendo exercida pela Eslovênia.

A própria Sérvia ainda está, por ser oficialmente arregimentada, o que não deve tardar a acontecer, uma vez que as pressões da burguesia interna pela submissão à União Européia acabam de causar uma profunda crise política no país, o que levou à convocação de eleições legislativas antecipadas e o ministro das relações Exteriores da Eslovênia a botar as cartas na mesa, dizendo com todas as letras: "Espero que vençam as forças pró-européias".

É assim que os cúmplices transatlânticos esperam comemorar os 60 anos da Otan, a serem completados em 2009. Que a obstinação dos trabalhadores do Oriente Médio sirva de exemplo para os povos dos Balcãs, tão castigados menos pelas circunstâncias de sua história milenar e mais pela atuação divisionista das potências capitalistas, com suas bombas, suas mentiras, bases militares e o processo de retalhamento da Federação Iugoslava, empreendido com a facilitação da burguesia local e à revelia do povo.

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