Esse som da nossa terra

Pesquisador, cantador do Brasil e Violeiro, o mineiro Dércio Marques, viaja por todo o país coletando material sobre cultura popular e apresentando o resultado disso em músicas temáticas, e canções culturais. Conhecedor do assunto, considera o Brasil como um país onde se inserem vários outros países, no caso, os estados brasileiros, com suas diversas e riquíssimas manifestações, festejos e contrastes.

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— Sou envolvido com música desde a barriga da minha mãe, que sempre cantou fazendo seus afazeres, podendo dizer que já nasci afinado. Mais velho, descobri que meu pai é descendente de índios guaranis, que também dão muito valor ao som, denominando o ser humano como: 'o som em pé', ou 'som que caminha'. Então o som para mim é algo importante demais — explica Dércio.

Dércio foi progredindo em pesquisas sobre o som, e descobrindo que tinha talento para a música, mas não queria seguir a carreira de músico.

— Queria ser livre naquilo que criasse, e achava que poderia não conseguir isso no universo musical brasileiro daquele momento. Mas trabalhava pesquisando música para o Marcus Pereira, que fazia um mapeamento da música brasileira, e ele acabou me falando: 'sei que você tem uma obra, faça o seu disco', o que não tive como dizer não. Então posso dizer que tive um privilégio muito grande, porque desde que comecei a gravar, em 1977, tive liberdade de criação — conta.

— Quando terminei de trabalhar meu disco, o Marcus Pereira gravou sem ouvir, uma coisa inédita na música, e que me deu força para seguir continuar gravando. Depois fui ajudando outros artistas a gravar também. Consegui lutar para que o Elomar, fizesse um álbum duplo, no tempo do vinil. Enfim, não conhecia muita gente maravilhosa nesta época, mas quando aparecia um, estava junto, tudo por amor a música e os seus trabalhadores — acrescenta.

A partir daí Dércio Marques entrou em um processo grande de produção musical, gravando, as vezes, dois discos simultâneos, e sempre de arte livre.

— Não faz sentido alguém interferir no processo de criação de um artista. Para mim, essa liberdade é absolutamente fundamental e que faço questão de preservar. Assim a música foi ampliando em mim, e fui percebendo que a minha visão de música é muitomais ampla, do que as manifestações populares de um estado ou região — explica.

— Me vi em sintonia com as canções indígenas, e da mesma forma com as músicas de Luiz Gonzaga. Vi que tinha algo importante para mim no serrado, no nordeste, no pantanal, no sul, enfim, em toda parte do país. E fui correndo os cantos, procurando informações, tocando com as pessoas, encontrando em cada lugar, um artista porta-voz da cultura da terra — define.

Desta forma Dércio foi desenvolvendo um trabalho temático de música popular.

— Creio que a arte de um cantador ou trovador é uma obra teatral. Baseado nisso fui desenvolvendo a temática, e gravar discos específicos nesse sentido. Mas gosto de fazer isso sem 'sair do meu galho', quietinho, porque não tenho pretensão de realizar obras, simplesmente vão acontecendo: um amigo, uma idéia, e surge mais um trabalho — comenta.

O planeta Brasil

— Cada estado brasileiro pode ser considerado um país, tamanha sua riqueza cultural. Se pegarmos o Maranhão, por exemplo, vamos ver que ali existem tantas manifestações, que pode ser considerado um país cultural. Então são vários países dentro desse planeta chamado Brasil. É um negócio de doido (risos), mas facilmente detectado quando se estuda cultura brasileira de uma forma séria — declara Dércio.

— E se alguém vai 'mexer' com a música lá do amazonas, por exemplo, se deparará com pessoas cantando em um dialeto da floresta, que não dá para entender 'patavinas de nada'. Por sua vez, o Elomar canta, às vezes, em um dialeto 'caatingueiro', oriundo do sudeste da caatinga, que também é outro idioma — acrescenta.

— São vários dialetos e manifestações nesse país imenso, isso sem falar nas etnias que estavam aqui antes do 'extermínio', que chamaram de 'descoberta do Brasil'. Quando falo de Brasil é além do que eu mesmo posso saber, algo muito profundo, um caldeirão onde se mistura o índio-negro-europeu, e que ainda está acontecendo, tanto na raça quanto nas manifestações culturais, que foram o povo brasileiro. Posso dizer isso, porque viajei muito e constatei o que declaro — continua.

Ao longo desses anos de pesquisas e gravações, Dércio construiu um imenso acervo de obras.

— Nunca gostei de assinar sozinho meus trabalhos, por isso fica difícil de contar. Mas sei que é muito grande minha produção, e como diria o mestre Zé Coco do Riachão, é mais de 100 e menos de mim (risos). Perguntaram quantas obras ele tinha composto, e ele disse 'o meu é mais de dez e menos de 100'. Mas como viajei por esse Brasil afora e pesquiso por todo lado, e não sei contar tudo que participo, então arredondo mais acima — brinca.

— Agora mesmo tenho muita coisa que considero geniais, mas só gravarei se encontrar um grande lutador, porque são canções temáticas e precisa de alguém que esteja inserido nesse universo. São frutos de trabalhos de pesquisas, elaboração não unicamente minhas, por serem temas bem abrangentes, que pedem um compositor que viva no São Francisco, outro no Amazonas, outro no Pantanal, para que o trabalho fique realmente bom — declara.

— Vou deixando um registro aqui, outro ali, e aviso que as pessoas podem me piratear à vontade, ajudando assim a minha divulgação, e vamos vivendo assim, com essa mídia do povo. Até porque, para mim, está na grande mídia até atrapalha o artista, porque toda vez que se lança um produto que tem lucro, se está pagando o preço de ser reciclado (risos). Milton Nascimento, Caetano Veloso, e mais um monte de gente que está na mídia, são todos Recicláveis. Creio que para sobreviver não preciso disso — defende bem humorado.

No momento Dércio tem viajado pelo Brasil com um show que revive canções tradicionais da música caipiras, ao lado de Pena Branca, Irmãs Galvão, e muitos outros. E também com o projeto de espetáculos de trovadores, ao lado de Xangai, Elomar e João Omar.

— Certa vez alguém disse para o Geraldo Azevedo que não gostava de dividir palco com muita gente. O Geraldo respondeu que também não gosta de dividir e sim de somar palco (risos). Eu sou igual a ele, gosto de somar. Vejo no coletivo uma beleza muito grande, e uma satisfação imensa — fala.

Para o futuro, que não é distante, Dércio pretende trabalhar com cinema, e já tem, juntamente com Doroty Marques, cem horas gravadas de um documentário, que poderá se tornar um filme.

— Quero trabalhar em comunhão com outras artes, porque gravar músicas já fiz muito, agora quero outras formas de expressão para a arte que faço não ficar sem registro. Pegar então a minha música e ter um intercâmbio com outros canais. No momento estou aguardando, mas sei que vai acontecer isso — conclui.

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