Pesquisas e boa cantoria

Nascida em uma família de músicos e pesquisadores, Kátya Teixeira, paulistana, filha de mineira com alagoano, não poderia seguir outro caminho que não o da música brasileira ligada às tradições mais populares. Com uma voz belíssima e certeza do que está fazendo, viaja pelo país inteiro, pesquisando, proseando e cantando a música da terra, e ao mesmo tempo a usando como linguagem de comunicação entre gerações.

— Quando criança, praticamente todos os meus parentes 'mexiam' com música, inclusive meu tio Eliezer Teixeira, que é pesquisador e folclorista, meu pai, minha mãe e outros da família se juntaram e formaram o grupo Bando Flor do Mato, o bando dos Teixeiras — conta.

— Mas para quem confunde, deixo claro que o Renato Teixeira não é meu parente, se bem que poderia ser, já que os Teixeiras em geral são todos parecidos, é só observar: descabelados, dentuços e têm olheiras (risos). Se não tiver essas três coisas é Teixeira emprestado — brinca.

O primeiro trabalho remunerado de Kátya foi por volta dos doze anos de idade, se apresentando com Vidal França.

— Minha primeira gravação também foi por essa época, em uma participação no LP Fazenda , ao lado de meu pai, e outros cantores e compositores que frequentavam as rodas de música na minha casa. Gente como: Vidal França, Dinho Nascimento e Sofia Mendonça, com quem bem mais tarde acabei indo visitar o Xingu, e tive o prazer de cantar para as índias — lembra com alegria.

A família costumava se reunir com amigos nos finais de semana para prosear e cantar.

— Ficávamos em volta da fogueira no sítio dos meus tios ou do fogão à lenha na casa da minha avó, aqui em São Paulo. E neste ambiente contávamos histórias, causos, cantávamos, tocávamos, algo fantástico para a cabeça de uma criança, engrossando o caldo da minha imaginação — revela.

— Minha avó gostava muito de cantar: 'encosta a sua cabecinha no meu ombro e chora', então encostava a cabeça e fazia aquele drama, chorava (risos). E tinha muito samba, seresta, caipira. E era engraçado porque a casa não era grande e a maioria ficava para dormir, então se esticavam um tapete grande na sala e dormiam todos enfileiradinhos, que nem empadinha (risos) — brinca.

— Entre as histórias que chamavam minha atenção, tinha a de que minha tataravó foi uma índia pega a laço, que minha avó contava, enquanto que minha outra avó falava dos vaqueiros aboiando e das vaquejadas. Tudo ajudou para que eu quisesse pesquisar cultura, conhecer mais a história do Brasil, e assim a minha própria história, registrando as nossas origens indígenas, o povo do sertão e tudo mais — acrescenta.

Música: instrumento de comunicação

Através das oficinas de comunicação que promove em todo o país, tendo como linguagem a música e a aprendizagem de instrumentos, Kátya tenta fazer com que pessoas vivam momentos como estes de sua infância.

— Me proponho a ajudar a fazer essa ponte entre as gerações e deixar no local também o que aprendi em outros lugares. Na Bahia, por exemplo, encontrei um senhor, tocador de chula baiana, que há anos havia perdido quatro dedos da mão esquerda e demonstrou grande tristeza, mas não por causa da mão e sim porque com o tempo foi perdendo seus companheiros de cantoria, que vieram para São Paulo trabalhar em canaviais e não voltaram — relata.

— Imagina que com o toquinho que sobrou, e as vezes a palma da mão e até o braço, tocava maravilhosamente sua viola. Ele deu oficina de instrumento para as crianças, contou as histórias da região, os causos. Já com uma idade avançada, veio a falecer depois disso, contudo ficou o que ele sabia em poder de muitos. Assim como esse senhor tem mais espalhados pelo Brasil, e se eles morrerem e não passarem o que sabem, a coisa acaba — avisa.

— E não é só nos interiores. Por exemplo, fiz uma oficina na Consolação, centro de São Paulo, e depois de apresentar um panorama sobre a música tradicional no Brasil, apareceram umas senhoras contando histórias do centro e do samba na cidade. Imagina que elas   atravessavam o rio Tietê a nado, porque não tinham dinheiro, e iam sambar e paquerar do outro lado (risos) — conta descontraidamente.

Instrumentista praticamente autodidata, Kátya toca violão, percussão, rabeca e viola de cocho, um instrumento típico do Mato Grosso, que também ensina nas oficinas.

— Ela é muito usada para o Cururu, o Siriri, que são manifestações populares do local. Parece um violão menor, com cinco cordas e sem o furo da parte superior. É toda escavada a mão, como se fosse um cocho de alimentar animais. Esse tipo de instrumento geralmente não tem métodos de ensino, só mesmo e juntando a alguém que sabe, e se encaixa totalmente dentro do estilo de música que faço, que é aquele primordial, de raiz — afirma.

O primeiro disco de Kátya foi todo fruto da sua vivência na infância, e além de composições próprias, tem obras de Vidal França, Luís Perequê, João Bastos, Irene Portela, e muitos outros. O segundo é resultado de uma pesquisa de cinco anos, quando partiu para conhecer a música acontecendo em seu lugar de origem.

— Fui conviver com as comunidades ribeirinhas, caiçaras, sertanejas, os quilombos, e outras, rodando bastante pelo interior do Brasil. Muitas gravações inclusive tem a participação do povo dessas comunidades, porque fiz questão de cantarmos juntos — comenta.

Neste momento Kátya está planejando e já começando a trabalhar dois discos: um só com obras de compositores que admira, e outro dando continuidade as suas pesquisas. Minuciosa, faz questão de uma embalagem para ser apreciada e guardada, como era o antigo vinil.

— Meu segundo disco, que exemplo, tem capa dura, em papel reciclado e todo artesanal. Ele é costurado a mão com palha, um a um. O gaúcho da gráfica que me ajudou está com os dedos cheios de calos até hoje (risos) — conta a sempre bem humorada Kátya Teixeira.

O endereço da página para aquisição de seus discos é: www.katyateixeira.com.br

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