Luta pela Terra

"Abril vermelho" do MST acaba em negociações e reintegrações de posse

Os camponeses do Brasil querem terra

Nos três primeiros dias de abril, trinta latifúndios da Bahia foram ocupados por famílias camponesas dirigidas pelo MST. Quatro dias depois, outros dois latifúndios eram ocupados por duzentas famílias nos municípios de Alcobaça e Teixeira de Freitas, no extremo sul do estado. No dia 11, ocorreram outras oito ocupações de latifúndios também no sul do estado, envolvendo duas mil famílias camponesas.

Assim, seguiram-se ocupações em Camacã, Chapada Diamantina, Juazeiro, entre outras, totalizando mais de 40 ocupações no estado.

Essas ocupações fizeram parte do chamado "abril vermelho". O MST, que havia praticamente paralisado suas ações, seguindo o cronograma eleitoral de Roussef, retomou suas atividades para renegociar "espaços democráticos" no velho Estado burguês-latifundiário.

Muito por nada

Em Alagoas, ocorreram bloqueios de estradas e ocupações de prédios públicos e negociações com o gerenciamento estadual. No Ceará, ocupação de prédios do Incra e quatro ocupações de latifúndios. No Maranhão, ocupações de prédios públicos. Na Paraíba, ocupação de sede do Incra. Em Pernambuco, oito latifúndios ocupados em diversas cidades. Em Sergipe, ocupação da sede do Incra, assim como no Rio de Janeiro, onde o MST recebeu honrarias do governo do Estado, a ‘Medalha Tiradentes’.

São Paulo concentrou a maioria das ocupações de latifúndios, principalmente na região do Pontal do Paranapanema. Foram 53 áreas, segundo a coordenação do movimento. No Rio Grande do Sul, ocupação da sede do Incra e de uma fazenda no município de Coqueiros do Sul, rapidamente desocupada após negociações com o gerenciamento estadual. Em Santa Catarina, duas ocupações de latifúndios. Em Brasília, um latifúndio foi ocupado. Em Goiás, a sede do Incra também foi ocupada. No Mato Grosso, o tráfego nas BRs 364 e 163 foi interrompido.

No Pará, o MST promoveu uma "semana nacional de luta camponesa e reforma agrária" e atividades recordando os 15 anos de Eldorado dos Carajás. Em Rondônia, a sede da unidade avançada do Incra em Ji-Paraná foi ocupada.

De volta à estaca zero

Os números do chamado "abril vermelho" demonstram, nas mesmas proporções, por um lado, a inquestionável disposição das massas camponesas para se mobilizar e lutar e, por outro, o oportunismo sem limites da direção do MST, que segue enganando e cavalgando as massas ávidas por terra.

Baseando-nos apenas nos dados veiculados pelo monopólio da comunicação, mais de 40 mil famílias mobilizaram-se, algo próximo de 160 mil camponeses que fizeram marchas, ocuparam prédios públicos e mais de 90 latifúndios em 17 estados brasileiros. Toda essa energia e disposição de luta canalizados para os propósitos oportunistas de uma direção que buscava "negociações", "conversações" com os gerenciamentos de turno.

Passado mais um abril, feitas as conversações com os gerenciamentos estaduais e federal, sucederam-se as ações judiciais para reintegração de posse dos latifúndios que um a um foram sendo desocupados. Uma a uma as 40 mil famílias camponesas voltaram à estaca zero.


O sangue camponês cobra punição para os assassinos

O mote para o chamado "abril vermelho" foram os 15 anos do conhecido massacre de Eldorado dos Carajás: luta camponesa desencadeada em 17 de abril de 1996 no estado do Pará.

As famílias camponesas tomaram um latifúndio próximo do km 96 da rodovia PA-150. A polícia foi enviada pelo governo estadual para servir ao latifúndio e agiu com selvageria, assassinando 19 camponeses, mutilando outros 69 e ferindo centenas de trabalhadores, homens, mulheres e crianças. As cenas da ação policial criminosa foram registradas e amplamente difundidas por inúmeros veículos de comunicação em todo o mundo, tornando este episódio internacionalmente conhecido.

Devido à imensa repercussão do caso e das impactantes imagens divulgadas, tornou-se impossível ao governo federal e paraense manter silêncio sobre o caso. Em junho de 1996, deu-se início ao processo dos 155 policiais acusados neste que foi considerado o maior processo em número de réus da história criminal brasileira. O julgamento se arrastou ao longo dos anos e, em 14 de maio de 2002, houve um veredito: 142 policiais foram absolvidos e somente dois assassinos, o coronel Pantoja e o major Oliveira, foram condenados, respectivamente, a 228 e 154 anos de prisão, podendo recorrer da decisão em liberdade. Em 2005, o Supremo Tribunal Federal concedeu liberdade aos condenados Pantoja e Oliveira.

Mandantes e os executores de um dos episódios mais infames da história de nosso país permanecem impunes.


A terra é para quem vive e trabalha nela!

Escrito por Zé Neto e publicado em resistenciacamponesa.com

Capela, interior de Alagoas, como muitas deste estado, é uma pequena cidade que possui sua economia centrada principalmente nas movimentações comerciais das usinas de moagem de cana-de-açúcar. Essa economia sofre enorme influência dos já consagrados membros do grupo dos mais ricos, a classe dominante.

Muitos desses, além de latifundiários, fazem parte da gerência do velho e carcomido Estado, como o Deputado Federal João Lyra, o deputado estadual Sérgio Toledo e como o próprio João de Paula Gomes, prefeito de Capela e detentor de um vasto latifúndio, como os da maioria, para monocultura de cana-de-açúcar.

Nessas circunstâncias, o povo fica à mercê da época de moagem, do principal meio empregatício da cidade, o corte de cana, como era de se esperar de uma cidade essencialmente agrícola, onde a maioria das terras produtivas está nas mãos do putrefato latifúndio.

Em decorrência dessa concentração do latifúndio, preocupado apenas com o plantio de cana, nas feiras da cidade de Capela e das cidades vizinhas encontramos o absurdo preço dos alimentos. E é por isso que os camponeses, em sua maioria, estão sem terra para trabalhar e, dessa forma, o povo paga alto preço na hora de comprar o feijão, a batata, a farinha, a macaxeira, etc.

Sem esperar por falsas promessas de politiqueiros, camponeses capelenses se organizaram e foram à luta. Mesmo depois de resistirem firmemente a dois despejos, das áreas em que estavam há cerca de cinco anos, continua alta a bandeira vermelha da luta combativa.

No final do ano passado, esses camponeses receberam a arbitrária reintegração de pose das Fazendas Reunidas e da Fazenda Pitombeira, junto à onda fascista de reintegrações de posse feita pelo do velho Estado com a direção dos reeleitos gerentes do governo de Alagoas.

Na fazenda Pitombeira, nem sequer existiu documentação para alegar propriedade do latifúndio João Lyra. O único documento apresentado foi as armas nas mãos do "centro de gerenciamento de crise" (BOPE). Não mais que três meses se passaram, desde o primeiro despejo no final de 2010, para que os camponeses, junto com as chuvas do início do ano, retomassem a fazenda Pitombeira, pela terceira vez ocupada.

Retomaram para trabalhar e viver na fazenda que, como consta na documentação em cartório da cidade de Capela, além das dívidas com o estado, não corresponde ao total alegado pelo latifundiário. Ou seja, dos mais de 250 hectares reivindicados pelo deputado João Lyra, apenas 90 ha realmente pertencem à fazenda Pitombeira. E os outros 160 ha, a quem pertencem? Como os próprios camponeses relatam no seu panfleto reproduzido abaixo: "a terra tem que ser destinada para quem vive e trabalha nela".


O povo quer terra, não repressão!

LCP - Liga dos Camponeses Pobres

Dia de feira e o preço do feijão aumentou, a qualidade da macaxeira é duvidosa e o dinheiro no bolso diminui a cada semana que passa. Fim da moagem e a usina manda dezenas de trabalhadores para rua, sem contrato os trabalhadores ficam com as contas para pagar. Quantas vezes nos deparamos nesta situação? Nós, trabalhadores rurais de Capela organizados na Liga dos Camponeses Pobres, acreditamos que, para solucionar esses problemas, a terra tem que ser destinada para quem vive e trabalha nela. Queremos plantar! E, por isso, lutamos.

A "Fazenda Pitombeira", há anos, não possui produção. Hoje, boa parte da cana existente nela trata-se de cana velha remanescente do antigo arrendamento da falida Usina João de Deus. A verdadeira produção nesta fazenda ocorreu em 2007. Nesta data, a fazenda estava nas mãos dos camponeses, que garantiram, para população de Capela, alimentos frescos, sem agrotóxicos e baratos.

A época de chuva está aí. E nós vamos trabalhar na terra. Essa é a saída que temos para não deixar nossos filhos crescerem em um ambiente de violência e drogas. Com trabalho, podemos dar o melhor para as nossas famílias. Já organizamos os roçados para as famílias que chegaram e iniciamos a produção.

Convidamos todos que procuram uma saída digna para a falta de trabalho e moradia, chamamos todos para plantar e produzir conosco.

Terra para quem nela vive e trabalha!


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Em todo esse tempo lutamos e trouxemos às claras as entranhas e maquinações do velho Estado brasileiro e das suas classes dominantes lacaias do imperialismo, em particular a atuação vil do latifúndio em nosso país.

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