Governo do USA monitora e espiona movimentos de massas em seu país

A- A A+

Com o vazamento de mais de 269 gigabytes de documentos e informações dos sistemas de mais de 250 delegacias em todo o USA, em informações equivalentes a 20 anos de investigações, o jornal revolucionário estadunidense Tribune of the People analisou uma série de documentos datados desde 2014, onde o temor do Estado reacionário ianque frente a ascensão do movimento revolucionário e popular, além das tentativas desesperadas de o criminalizar e frear, ficam expostos. 

Os documentos analisado pelo jornal revolucionário focam nas organizações no estado do Texas, de grande atividade revolucionária no país. Entre as organizações, estão os Guardas Vermelhos de Austin (organização hoje extinta), a Brigada Mike Ramos (BMR) e a Defender os Nossos Bairros (DNB).

O jornal revolucionário começa analisando os documentos acerca dos Guardas Vermelhos de Austin que, segundo o portal da própria organização, está extinta e inativa desde o final de 2018. Segundo o Centro de Inteligência Regional de Austin (Cira, projeto desenvolvido entre agências da repressão estaduais e federais especialmente para monitorar o local), os Guardas Vermelhos foram considerados uma “ameaça à segurança pública”. No documento “Consciência situacional e Segurança do Policial”, eles escrevem:

Guardas Vermelhos de Austin (Texas), organização hoje extinta. 

“Os Guardas Vermelhos de Austin são uma organização que promove atos antigovernamentais e antipolíticos. Pelo seu portal, a missão da organização é 'conscientizar nossa comunidade através do trabalho de massa (das massas para as massas) para a revolução com o objetivo do comunismo'. Os membros estiveram presentes em inúmeros protestos no centro da cidade durante o ano passado. Durante um protesto em 13 de novembro, o DPS prendeu seis membros da Guarda Vermelha no Capitólio por acusações incluindo resistência à prisão e agressão agravada”.

Em um esforço para classificar a organização como criminosa, logo justificando maior monitoramento e repressão, o documento se “esquece” em mencionar que os casos mencionados foram abandonados ou retirados sem processo judicial, com nenhuma sentença em relação ao caso de 13 de novembro tendo ocorrido. Além disso, o Departamento de Polícia de Austin possui um histórico em aumentar o número de acusações contra ativistas políticos, na esperança de que alguma entre em processo judicial, pontua o Tribune. Em verdade, o papel do Cira, segundo o jornal revolucionário, é em “pintar ativistas revolucionários e sua base de apoio como ameaças ao povo em geral, quando na realidade é a ideologia desses companheiros que as classes dominantes mais teme”.

O Cira prossegue, no documento, afirmando que deixou a investigação para o Força-Tarefa Conjunta de Terrorismo (FTCT, uma colaboração entre o Departamento de Polícia de Austin e o FBI).

Em outro documento, do Departamento de Segurança Pública (DPS) do Texas, o qual a Cira usa de base, discute também o evento ocorrido no dia 13 de novembro, desta vez mostrando temor à ideologia proletária defendida pela organização:

"Em novembro de 2016, seis membros da Guardas Vermelhos de Austin (GVA) e uma AE [“Anarquista Extremista”, um termo de praxe que o Estado reacionário ianque usa para qualquer militante de esquerda] baseada em Austin, foram presos por agressão a um apoiador do então presidente eleito [sic] Donald Trump em protesto contra os resultados da eleição presidencial americana de 2016 em Austin. Os policiais que interviram também foram agredidos posteriormente. De acordo com uma declaração de posição dos Guardas Vermelhos, o grupo ‘não procura chegar ao poder através de eleições. Acreditamos na luta armada com participação das massas’ para ‘construir um partido que tome o poder e forme um novo Estado". Segundo o DHS [Departamento de Segurança Nacional], “a organização dos Guardas Vermelhos de Austin parece ser um dos maiores e mais ativos seção dos Guardas Vermelhos nos Estados Unidos".

O apoiador do arquirreacionário Donald Trump que teria sido agredido se chama Carl Wideneck. De acordo com documentos dos próprios tribunais ianques, ele propagava posições a favor da escravidão, além de afirmar que gostaria de ter uma escrava sexual. Além disso, ele admitiu ter colocado uma forca no local de construção onde trabalhava para intimidar seus colegas de trabalho pretos; a forca faz menção aos crimes genocidas de racistas e organizações fascistas como a Ku Klux Klan. A agressão mencionada no relatório acima foi posteriormente reduzida a uma agressão simples (um crime de multa) e depois descartada completamente.

O Cira, no entanto, não menciona como o caso foi descartado em seu relatório à Força-Tarefa.

Em outro documento da Departamento de Segurança Pública (DSP) de Texas, a criminalização ao internacionalismo proletário fica visível,  sendo que uma manifestação realizada pelos Guardas Vermelhos em Austin, em dezembro de 2017,  em solidariedade à Musa Aşoğlu, um revolucionário turco, que estava detido na Alemanha, foi o suficiente para que a Força-tarefa declarasse: 

"No curto a médio prazo, avaliamos que os grupos AE [“anarquistas-extremistas”, comentário nosso] baseados no Texas com vínculos com militantes curdos alinhados com PKK na Síria, Iraque e Turquia representam uma ameaça viável à segurança pública, muito provavelmente fornecendo apoio material ou facilitando o recrutamento para grupos militantes curdos alinhados com PKK ou DHKP/C". 

O documento do DSP continua: "A adição de um combatente estrangeiro retornando ao AE Usper [Usper refere-se a cidadãos estadunidenses] a um grupo AE existente baseado no Texas - especialmente um que envolva AE Terroristas Conhecidos ou Suspeitos de Terrorismo - provavelmente aumentará as capacidades operacionais desse grupo para potencialmente se envolver em violência criminal e terrorismo".

O Tribune of the people explica que, em essência, o DSP considera qualquer pessoa simpática a causas anti-imperialistas e prisioneiros políticos como um provável terrorista.

Defender os Nossos Bairros em um protesto. Fonte: Tribune of the People

Combate a organizações de resistência econômica

Entretanto, o monitoramento por parte do Estado reacionário ianque vai além dos militantes revolucionários de organizações extintas ao monitorar os ativistas comunitários na luta pela moradia para as massas trabalhadoras e contra a gentrificação. Cira declarou o seguinte em um documento de setembro de 2019:

“Defend our Hoodz-Defiende El Barrio-Austin [Defender os Nossos Bairros, do inglês e espanhol] é uma organização ativista estabelecida com sede em Austin, com ideologia antilei, antigentrificação e anticapitalista. O DNB é baseado na iniciativa ativista de Los Angeles, Califórnia, conhecida como Defend Boyle Heights [Defender Boyle Heights]. Sabe-se que o DNB atrai apoiadores com afinidade antifa e anarquistas que estão dispostos a se envolver em atos de violência e conduta ilegal para promover seus objetivos políticos e ideológicos, incluindo, entre outros, transgressão criminal, travessia criminal, agressão, vandalismo, grafite, roubo, assédio, intimidação e incêndio criminoso”.

As atividades criminais acima citadas, mais uma vez, são afirmadas sem providenciar prova alguma contra a organização. As acusações mais comuns nos processos do DNB é a de "interromper uma reunião pública".

A divulgação deliberada de falsidades continuam em Austin pela Cira que, em conluio com outras agências reacionárias, lançou uma campanha contra a organização Brigada Mike Ramos (BMR), levando ao monopólio da imprensa, tanto local quanto nacional, a insinuar atividades de terrorismo pela organização:

“A Brigada Mike Ramos é conhecida por ter uma participação cruzada e apoio ao DNB e pode servir como afiliada ou organização de franquias do DNB. A Brigada Mike Ramos participou ativamente como base, organização e incitação de algumas das atividades disruptivas de demonstração antipolícia que ocorreram no centro de Austin no fim de semana de 29 a 31 de maio de 2020”.

Revolucionários carregam faixa onde consta: Apoie a família de Ramos, resista à violência policial!. Fonte: Tribune of the People

De acordo com o Tribune of the people, tais afirmações são falsas, já que ambas as organizações são distintas, com a BMR sendo formada na noite que o trabalhador preto Mike Ramos foi executado de maneira covarde por policiais do Departamento de Polícia de Austin, sob “suspeita” infundada de estar armado, quando não estava. Mike Ramos foi assassinado próximo ao bairro Riverside, no sudeste de Austin, tornando-se para a agência reacionária algo suficiente para formar uma conexão entre ambas as organizações.

A coisa mais “criminosa” relatada foi a alegação do grupo de que era um "grupo militante" que acreditava na "rebelião", da qual o BMR não nega, tornando claro o esforço dos grupos de inteligência reacionários em criminalizar os movimentos de massas e fazer os policiais perseguir os ativistas dessas organizações.

Repetidas vezes nos documentos, o Cira afirma sobre “membros conhecidos” das organizações, sem qualquer qualificação sobre como sabem sobre esses membros ou quem são esses membros. Ser do mesmo bairro e atuar em lutas populares é novamente suficiente para receber afiliação “antifa”, logo no momento em que o arquirreacionário Donald Trump ameaça rotular a “antifa” de organização terrorista, mostrando que o Estado reacionário ianque considera qualquer dissidência e protesto como “terrorismo”. 

Porém, segundo o jornal revolucionário Tribune of the People,os esforços do Estado em monitorar e prender indivíduos não diminuiu a militância no Centro de Texas, ao contrário, explodiu tanto em qualidade quanto em quantidade”. O Tribune of the people também afirma que acessou apenas uma pequena fração dos documentos, considerados não classificados.

NÃO SAIA AINDA… O jornal A Nova Democracia, nos seus mais de 18 anos de existência, manteve sua independência inalterada, denunciando e desmascarando o governo reacionário de FHC, oportunista do PT e agora, mais do que nunca, fazendo-o em meio à instauração do governo militar de fato surgido do golpe militar em curso, que através de uma análise científica prevíamos desde 2017.

Em todo esse tempo lutamos e trouxemos às claras as entranhas e maquinações do velho Estado brasileiro e das suas classes dominantes lacaias do imperialismo, em particular a atuação vil do latifúndio em nosso país.

Nunca recebemos um centavo de bancos ou partidos eleitoreiros. Todo nosso financiamento sempre partiu do apoio de nossos leitores, colaboradores e entusiastas da imprensa popular e democrática. Nesse contexto em que as lutas populares tendem a tomar novas proporções é mais do que nunca necessário e decisivo o seu apoio.

Se você acredita na Revolução Brasileira, apoie a imprensa que a ela serve - Clique Aqui

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Avenida Rio Branco 257, SL 1308 
Centro - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: [email protected]

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também:
https://www.catarse.me/apoieoand

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Fausto Arruda

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas (In memoriam)
Fausto Arruda
José Maria Galhasi de Oliveira
José Ramos Tinhorão 
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Matheus Magioli Cossa
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação 
Ana Lúcia Nunes
Rodrigo Duarte Baptista
Vinícios Oliveira

Ilustração
Taís Souza