Editorial - Bolsonaro, o Fraco

Reprodução/CML

Presidente fraco, Executivo forte. Este aparente paradoxo resume a essência do cenário político brasileiro na atualidade.

Há poucos dias, Jair Bolsonaro disse que “isso de ficar em casa [em virtude da Covid-19] é para os fracos”. Antes, já declarara ser “imbrochável em política”, autoafirmação cuja necessidade talvez Freud explique. De fato, apesar das bravatas, ele, Bolsonaro, é um impotente e não governa.

Um exemplo é o próprio distanciamento social, sabotado, é verdade, mas ainda assim aplicado em algum nível apesar do achincalhe de Bolsonaro. Outro é o auxílio emergencial. Enquanto o Congresso Nacional, sob pressão dos generais, aprovou-o a toque de caixa, temendo a desordem e o “caos social”, o Messias distópico fazia dia sim outro dia também pregação contra o que ele chamava de “fechamento” da economia. A proposta inicial do governo previa três parcelas de R$ 200 aos informais e a suspensão do contrato de trabalho e salário dos empregados. Carlos Bolsonaro chegou a usar as redes sociais para chamar de “socialista” o auxílio. Hoje, quem diria, este é arrimo da passageira elevação da popularidade do capitão-do-mato.

Não foi para salvar Bolsonaro que o Alto Comando das Forças Armadas impôs ao Congresso pusilânime este programa que, na prática, sepulta o teto de gastos tão louvado pela ortodoxia “neoliberal”. É notório seu efeito de curto prazo, não apenas pelo tempo pré-fixado de vigência dos pagamentos, como pela inflação que vai corroendo o tal auxílio ainda em vida. Trata-se de política contrainsurgente desesperada, que atua sobre o País como uma superdosagem de analgésico aplicado direto na veia, a maquiar os efeitos agudos da paralisia econômica e do desemprego. Suspendida a dopagem, os sintomas se farão sentir com força inaudita. Mas estes meses de trégua aparente foram fundamentais para o núcleo político da reação, afinal, esvaziaram, ao mesmo tempo, o potencial dos protestos contra o governo e a ação golpista de Bolsonaro. Na verdade, apenas adiaram tanto um como outro, para futuro incerto, mas inequívoco.

Outro exemplo da fraqueza de Bolsonaro e da centralização cada vez maior do poder real nas mãos do gabinete militar é a relação com Paulo Guedes. O que resta hoje em dia do “Posto Ipiranga”, “deus da raça”, o superministro do início do governo? Na verdade, o programa econômico de Paulo Guedes, de guerra declarada ao proletariado e ao povo, é impraticável sem a sua correspondente política, qual seja, um regime do tipo de Pinochet. Porque o governante que aplicasse a ferro e fogo as teses apresentadas pelo chicago boy não conseguiria se eleger nem para síndico no pleito seguinte, mesmo segundo os padrões farsescos vigentes. Este ultraliberalismo atroz sempre foi o programa da extrema-direita tupiniquim, desde os tempos do general Silvio Frota, que saiu do governo Geisel acusando-o de “estatizante” e “socializante”. Neste terreno, a disputa ainda está em aberto. Aos trancos e barrancos, Bolsonaro mantém Guedes, embora faça em público com este um joguete de "policial bom" e "policial mau". Pelos militares do Planalto, este já teria sido defenestrado há tempos. Na verdade, embora a fração burocrática da grande burguesia tenha recobrado força desde o início da gestão Braga Netto, seu plano de obras públicas não saiu do papel, e dada a condição fiscal desoladora não será tarefa fácil fazê-lo alçar voo. Mesmo entre o oficialato repercute a “traição” às promessas de reequipar as Forças Armadas, cada vez mais sucateadas e dependentes de importações, dado o desmanche do parque industrial brasileiro[1]. A queda de braço entre as frações seguirá, portanto, refletindo o impasse econômico real que a situação apresenta, do ponto de vista da manutenção da velha ordem.

Há, ainda, o cerco jurídico a Bolsonaro e sua família, uma espécie de bala de prata contra os arroubos do “mito”. Não é coincidência a “decisão” de intervir no Supremo Tribunal Federal, bravateada pelo presidente em 22 de maio, e a prisão de Fabrício Queiroz, em 18 de junho. Aqui há, evidentemente, uma ação e uma reação, que obrigou a extrema-direita a recuar do seu ensaio de passar ao assalto final. Na verdade, o volume de dinheiro vivo movimentado pela facção Bolsonaro não se justifica apenas pelo expediente de funcionários fantasmas. Só poderia se acumular tal volume com dinheiro de sangue, oriundo dos grupos paramilitares e seus esquemas sinistros de assassinatos, extorsões, grilagem de terras e outros crimes gravíssimos. Bolsonaro, por ora, abriu mão da pregação golpista para ganhar tempo. Sua cautela, no entanto, é menos um cálculo do que pura e simplesmente o efeito das algemas que lhe impuseram, das quais buscará se desvencilhar na primeira oportunidade.

A que isso tudo aponta? A uma estabilização econômica e política ou, pelo contrário, a fortes instabilidades em ambos terrenos nos próximos meses?

A conclusão lógica de nosso raciocínio é o agravamento da crise econômica e das disputas de vida e de morte que se erigem ao nível da superestrutura. Dizíamos, em junho, quando Bolsonaro radicalizava o discurso e descia aos seus piores índices de aprovação, que seria um tremendo erro para os setores democráticos e populares embarcar com toda a direita num frenesi de impeachment que serviria apenas para eludir as contradições reais de nossa sociedade, dando-lhes uma saída institucional; dizemos, hoje, quando o governo ensaia uma recuperação, que as causas desta recuperação são circunstanciais, resultado de um precário acordo tecido nas cúpulas do velho Estado reacionário, cujo equilíbrio voltará a se romper tão logo o analgésico econômico cesse seus efeitos. Para onde penderão as massas populares – para a esquerda, mobilizadas ativamente em defesa das suas reivindicações genuínas; ou para a extrema-direita, insufladas pela pregação “antissistema” bolsonarista – é o cerne da disputa e o que decidirá no fim das contas a questão. Nesta hora, de nada servirão os conchavos e os acordos de cúpula, ou mesmo as “sacrossantas” leis e a constituição, violadas sem pudor sempre que se precisa atentar contra os interesses populares. Já nossos antifascistas da “esquerda” oportunista, acovardada em seu imobilismo, depositam todas as esperanças na “democracia” das eleições de 2022. Mas tudo se decidirá e sem data marcada, como diz a canção, “pelo brilho cego de paixão e fé, faca amolada”. (Cego, aqui, significando o que não se desata facilmente). São estas as mais arraigadas convicções deste veículo.

Nota:

[1] Ver o interessante Editorial do portal Defesanet, “7 de setembro - Nada para comemorar”. Disponível na web em https://www.defesanet.com.br/pr/noticia/37972/Editorial-DefesaNet---7-de-Setembro-de-2020-%E2%80%93-Nada-para-se-comemorar/

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