Editorial - A vanguarda do atraso

Um dos espetáculos mais tragicômicos do Brasil atual é o papel desempenhado pela velha esquerda reformista. Os mesmos que, quando Dilma foi impedida, espernearam um “golpe”, e que passaram os últimos meses empenhados na construção de um grande “frentão antifascista” (que incluía vastos setores da reação), são os primeiros a se apresentar como defensores incondicionais da ordem estabelecida a cada eleição. Buscam amealhar o voto popular usando o mesmo expediente ordinário das promessas baratas e das chantagens do dito “voto útil”, com resultados cada vez mais pífios, senão, constrangedores. O fracasso da sua defesa da “ética na política” e de um social-democratismo tupiniquim – num país em que mais de 50 mil pessoas são assassinadas anualmente – é parte da crise geral do próprio Estado burguês-latifundiário, do qual são uma espécie de vanguarda do atraso.

Por enquanto, os reformistas são aceitos no circo pseudo-democrático como sócios minoritários, cuja função é emprestar alguma legitimidade à inalternância real do poder estatal, mascarada como alternância periódica de governantes. De toda sorte, há situações em que seu papel de força auxiliar passa a primeiro plano: quando as classes dominantes se veem ameaçadas por crises severas e protestos populares. Não raro, nestes momentos, os diferentes partidos reformistas são guindados ao Executivo, como uma espécie de reserva moral destas classes. Isso ocorreu na América Latina no início dos anos 2000, e também em alguns países europeus, após a crise de 2008. Qual o resultado, sem exceções? Traição às aspirações populares e governos de “coalizão” que aprofundaram a exploração dos trabalhadores e ampliaram, com razão, o seu repúdio à hipocrisia demoliberal. O fato de este repúdio à ordem ter sido capturado, numa série de países – inclusive no Brasil – pelas forças da extrema-direita não se deve a uma “guinada fascista” das amplas massas, mas, sim, à capitulação mais desavergonhada dos que se apresentavam como seus “mais fiéis representantes” aos interesses reacionários.

Na verdade, na fase atual de crise geral do imperialismo, até concessões secundárias aos operários, camponeses, intelectuais e demais massas populares são impossibilidades de fato. Mesmo nos países mais avançados do ponto de vista capitalista, onde houve o chamado “Estado de bem-estar social”, às custas de golpes militares e da pilhagem desapiedada do Terceiro Mundo, assistimos à sua dilapidação contínua pelos sucessivos governos de turno, sejam quais sejam suas filiações ideológicas declaradas. A velha Europa arde, atualmente, convulsionada por crises econômicas e políticas severas, que se retroalimentam, e o Estados Unidos se vê às portas de uma guerra civil. Pretender, agora, quando a reacionarização política é a regra mesmo nas repúblicas burguesas mais democráticas, atingir via eleições a garantia de direitos efetivos aos milhões de explorados nas semicolônias não é apenas um erro teórico e político, mas uma descarada enganação, quase um puro misticismo.

No caso brasileiro, quais as maiores máquinas eleitorais em operação? O latifúndio, em primeiro lugar, que sempre teve nas prefeituras o seu mais seguro bastião, fosse qual fosse o governo central. Nos grandes centros urbanos, temos os pistoleiros clericais, as diferentes “associações de moradores” (vinculadas, quase sempre, aos criminosos locais), as famílias tradicionais cujos tentáculos abraçam os chamados três poderes da república, os magnatas do comércio e da indústria, banqueiros, os monopólios de comunicação etc. São estas as verdadeiras forças que movem os candidatos como ventríloquos. Uma diminuta fração do eleitorado, em geral ligada à pequena burguesia, vota apenas segundo os desígnios da sua consciência, que é via de regra tão medíocre e filistina quanto a sua existência. Estes moralistas, que aceitam o que é essencial na ordem, mas querem depurá-la de suas perversões, embarcam em qualquer canoa que garanta a paz social e seus salários em dia; do fundo do seu coração gostariam que os ricos pagassem mais impostos e que a política burguesa se parecesse mais com uma repartição honesta do que com um prostíbulo. Via de regra, é este o máximo horizonte dos nossos reformistas, embora haja os que prometem realizar o socialismo, devidamente adaptado à lei eleitoral e financiado pelo fundo partidário. Estes últimos, no entanto, raramente ultrapassam 1% dos votos. O bom senso do público costuma fazê-lo optar por mentiras um pouco mais realistas.

Por tudo isso, a única política consequente, do ponto de vista dos interesses populares, é rechaçar com firmeza a farsa eleitoral. Ano após ano os índices de votos brancos, nulos e abstenções têm crescido, o que demonstra não uma despolitização das massas – como querem os ideólogos reacionários – mas seu repúdio à ausência de mudanças efetivas na sua vida a cada pleito. Ainda que lhes falte uma sistematização científica e o entendimento das leis que regem a sociedade em que vivem, as massas, por sua experiência acumulada, vão tateando o caminho e chegando a conclusões, diariamente mais consistentes, de que há que romper radicalmente com o sistema político. Esta insatisfação generalizada, a aspiração de ruptura violenta contra tudo o que existe, seguirá sendo um elemento decisivo da política brasileira (e mundial) nos tempos que correm. O papel dos revolucionários é estender essa insatisfação política à insatisfação com a própria ordem econômica vigente, e não fazê-la retroceder no rumo de ilusões requentadas com um capitalismo “humanizado” e “democratizado” - uma impossibilidade teórica, histórica e política. Enfim, unir a estratégia revolucionária a essas massas revoltas, dando-lhes os fundamentos científicos para solução da tarefa já secularmente pendente e atrasada que a Nação reclama: a Revolução de Nova Democracia.


Foto: Ellan Lustosa

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Em todo esse tempo lutamos e trouxemos às claras as entranhas e maquinações do velho Estado brasileiro e das suas classes dominantes lacaias do imperialismo, em particular a atuação vil do latifúndio em nosso país.

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