Nem Sobral, nem Singapura

Uma declaração importante passou um tanto despercebida por quase todas as entidades envolvidas com a defesa da educação pública, gratuita, democrática e a serviço do povo: “É possível que o Brasil nunca vire uma Singapura, mas já seria ótimo virar uma grande Sobral”. Essa frase foi proferida em uma entrevista concedida ao monopólio de imprensa O Globo pelo empresário e um dos homens mais ricos do Brasil, Jorge Paulo Lemann, no dia 16 de dezembro de 2019.

Os professores democráticos e militantes populares comprometidos com a defesa da educação pública, científica, democrática e genuinamente nacional, já denunciam há bastante tempo toda a ofensiva geral das classes dominantes locais contra os direitos do povo, particularmente contra os direitos de ensinar, estudar e aprender. Longe de representar um grande modelo que realmente possa ser generalizado em todo o território brasileiro, a educação sobralense segue rigorosamente os ditames do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional – FMI.

É preciso recordar que o Banco Mundial é uma instituição que possui vínculos políticos e econômicos com vários países, mas que é dominada principalmente pelo imperialismo ianque, ou seja, pelos Estados Unidos. O Sr. Lemann, como exímio representante das classes dominantes em nosso país, ao dizer que já seria de bom tamanho o Brasil se tornar “uma grande Sobral”, está fazendo uma apologia direta à condição semicolonial de nosso país, não apenas na área da educação.

Os tão alardeados índices de educação do município de Sobral, localizado no interior do Estado do Ceará, já foram repercutidos em relatórios do Banco Mundial e divulgados nos monopólios midiáticos como expressão de um suposto sucesso das administrações municipais. Não podemos deixar de notar avanços e conquistas quando são realmente possíveis de serem verificadas, mas é importante ressaltar que esses índices só são possíveis porque existem professores e demais trabalhadores em educação na frente de todas essas conquistas, bem como o grande esforço dos estudantes.

Não se trata de uma declaração ingênua, muito menos uma frase solta que não precisa ser levada tão à sério, a fala desse “grande-burguês” expressa o que poucos querem aceitar: só teremos uma educação de fato pública, gratuita, popular, científica e nacional, quando avançarmos a Revolução Democrática pendente em nosso país.

Só poderemos criar e desenvolver um sistema educacional de qualidade quando conseguirmos nos livrar das amarras coloniais e semicoloniais, elevando nossa nação a outro patamar que não este em que nos encontramos, onde não vamos mais necessitar das “orientações” de instituições a serviço do imperialismo, como o Banco Mundial, o FMI, dentre outras.

Em março de 2018, o então presidente do Banco Mundial e ex-ministro da Educação do Peru, Jaime Saavedra, fez uma declaração que vai na mesma linha de pensamento de Jorge Paulo Lemann: “sem dúvidas, o Ceará é uma inspiração para todos no Brasil”. Ao estudarmos o sistema educacional sobralense, é possível notar que existe um forte esforço por partes de professores e alunos para a realização de testes e avaliações externas, reduzindo a educação a uma instrução formativa para testes, chegando ao ponto de os alunos lerem frases motivacionais nos corredores das escolas e entoarem “gritos de guerra”, estimulando um intenso clima de competitividade e de busca incessante por melhores resultados. Ao terem suas bonificações vinculadas aos resultados, os docentes acabam encurralados, mesmo sabendo dos problemas de uma educação meritocrática para os estudantes.

Em 2015, durante uma entrevista à Folha de São Paulo, o ex-prefeito de Sobral, Veveu Arruda (PT), que também é marido da atual vice-governadora do Ceará, Izolda Cela, fez a seguinte afirmação: “nossa preocupação é o arroz com feijão bem feito, sem pedagogês que não dá resultado”. Olhando para essa declaração com mais atenção, chegaremos à conclusão de que os políticos locais utilizam os resultados das avaliações externas para promoverem uma falsa relação entre as políticas públicas educacionais implementadas nesse município e uma consequente melhoria na qualidade da educação. Podemos verificar aqui um grave erro de relação entre causa e efeito. Para atestar a eficiência de uma política educacional são necessários estudos e pesquisas controladas, com metodologias específicas de longa duração.

A estratégia de anunciar o “estrondoso sucesso” de Sobral nada mais é que uma forma de tentar disseminar o modelo ali implementado, como se mudanças na educação pudessem ser generalizadas rapidamente sem que houvessem problemas nesse processo e sem levar em consideração que Sobral é uma cidade com pouco mais de 200 mil habitantes e que possui o 2º maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Ceará.

Uma velha e inteligente expressão popular resume todo esse cenário: “não confunda alhos com bugalhos”. Estes senhores, como políticos e representantes das classes dominantes locais, precisam demonstrar resultados e arregimentar um certo prestígio perante as massas e os trabalhadores em educação. Se utilizam dessas estatísticas educacionais para promover um certo modelo educacional e por fim, iniciar um intenso processo de sucateamento e privatização do sistema público de ensino.

O que ocorre em Sobral pode ser comparado ao que aconteceu no Texas (USA), no que ficou conhecido como o milagre do “Texas”, na gestão estadual de George W. Bush: “As pontuações no teste do Texas subiram, mas no SAT para estudantes universitários potenciais caíram. Os pesquisadores descobriram que os testes do Texas projetados pela Pearson mediam principalmente a habilidade de fazer testes. Apologistas escolheram a dedo as pontuações do National Assessment of Educational Progress para mostrar o progresso, mas no geral o Texas perdeu terreno para o resto do país, como mostrou o Dr. Julian V. Heilig, um pesquisador em educação da Universidade do Texas. Mas aí já era tarde demais. O Milagre do Texas, miragem ou não, era a lei da terra”[1].

Em fevereiro de 2020, uma comitiva do Banco Mundial fez uma visita ao Ceará para divulgar um relatório sobre a experiência desse estado na educação básica e a possibilidade de replicar o modelo em outros estados do Brasil e também em outros países. O imperialismo ianque busca manter sua dominação nos países de terceiro mundo também por meio da educação, interferindo direta e indiretamente nesse setor, extremamente importante para a formação democrática e científica de um povo. Nem Sobral, nem Singapura! Por uma educação que sirva ao povo!

Notas:

[1] http://www.msnbc.com/msnbc/bushs-texas-miracle-debunked-lone-star-st

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