Editorial - Contra a ordem racista: revolução!

O assassinato brutal de João Alberto, nas dependências do supermercado Carrefour, no último dia 19, em Porto Alegre, escancara a que níveis pode chegar a degradação social de uma ordem fundada no colonialismo, na escravidão e feudalidade. Séculos de tráfico negreiro, latifúndio e contrarrevolução permanente erigiram este Estado latifundiário-burocrático, mil vezes racista, gendarme de seu próprio povo. Enquanto este aparato genocida fique de pé, este país não conhecerá a liberdade.

Repercutindo o episódio, Hamilton Mourão e Bolsonaro proferiram, ipsis litteris, o mesmo argumento. Segundo eles, “não há racismo no Brasil”, e sim, uma tentativa de “importar” tal problema. Este é o velho discurso do regime militar, que tinha por esteio a famigerada tese da “democracia racial”, já devidamente desmoralizada. A “miscigenação” apontada por estes senhores é o puro fruto do estupro e da barbárie; da coisificação dos corpos escravizados (tão presente, ainda hoje, na sexualização da “mulata”); da integração subalterna do povo preto à ordem “republicana”, como reserva mais barata de força de trabalho, quadro que se mantém até hoje inalterado. Não por acaso, Gilberto Freyre (que se não defendeu com todas as letras aquela tese, jamais desautorizou que o fizessem em seu nome) era udenista, ferrenho anticomunista e, mais tarde, apoiador do golpe de 64.

Assim, quando estes impostores dizem o que dizem, apenas repetem o revisionismo histórico que aprenderam na caserna. Pegue-se o Alto Comando das Forças Armadas e ver-se-á que sua composição desmente as teses que estas mesmas instituições pretendem propagar. Pretos, pobres e indígenas são as praças. O oficialato é, desde sempre, recrutado entre os filhos dos senhores e das “classes médias”, exceto raros casos diversos que em nada afetam a regra. Não poderia ser diferente: esta é a única composição confiável para se fazer a guerra contra o próprio povo, missão precípua dos exércitos de um país semicolonial. O mesmo se passa a nível estadual, com as polícias, agentes imediatos da caça aos escravos rebelados, hoje como ontem. O racismo aí é o pão de cada dia: é a ideologia que justifica as atrocidades cotidianas nos becos ocultos ou no alto dos morros. Afinal, é típico do Homem precisar de justificativas para agir – ainda que seja o homem mais miserável, e o ato mais desumano.

O racismo, portanto, tem suas raízes assentadas em cinco séculos de latifúndio e escravidão. Racismo e latifúndio formam um binômio inseparável em nossa história, são o nosso pecado original. Após a Abolição, os que não ficaram presos à lavoura – a maioria dos antigos escravos, agora em condição servil – ou vieram formar as camadas mais exploradas do proletariado e semiproletariado urbano ou evadiram a zonas profundas do território nacional conformando comunidades isoladas e reminiscências quilombolas. Data daí a ocupação dos cortiços e das favelas, periodicamente assaltados por ordens de despejo e chacinas, ademais das expedições punitivas das tropas a serviço dos senhores de terras nas zonas rurais. É esta população que hoje ganha os piores salários, faz os serviços mais pesados e insalubres, engrossa as fileiras dos desempregados, mais padece com o sucateamento dos serviços públicos, é assassinada e encarcerada em massa. Falar em luta contra o “racismo estrutural” sem falar na luta contra a ordem econômica que dele se alimenta, reproduz e serve-lhe de alicerce; sem falar na luta contra o aparato militar que o mantém, é, de fato, não atacar a estrutura. Piores do que a contradição lógica, são as suas consequências políticas.

Pois sim, não há capitalismo sem racismo. Ao contrário do que uma certa historiografia vulgar nos ensina, a marcha “progressista” do sistema capitalista teve no aumento da escravidão a sua premissa: em 1700 a população escrava no continente americano contava-se em 330.000 pessoas; cem anos depois, atingia a cifra de 3 milhões; e chegava ao seu ápice em meados do século XIX, com 6 milhões de escravizados. Destes, grande parte estava no Brasil. É claro que a mesma burguesia que se alimentava dos lucros do tráfico de escravos e do que eles produziam não poderia ser consequentemente antiescravista. Montesquieu, em seu célebre tratado O espírito das leis, documento fundamental do liberalismo, justificava a escravidão no novo mundo recorrendo à velha arenga do determinismo climático: “Não há porque se surpreender se a debilidade dos povos de climas quentes os tornou quase sempre escravos e que a coragem dos povos dos climas frios os tenha preservados livres. Trata-se de um efeito que deriva da sua causa natural”. No próprio Estados Unidos, após a Guerra de Secessão, vigorou por um século a segregação racial institucionalizada. O marxismo, ao contrário, representando o ponto de vista e os interesses do proletariado, a moderna classe despossuída, pode compreender o ponto de vista e os interesses dos despossuídos em geral, desnudando o nexo entre a opressão de classe e a opressão colonial:

“Enquanto introduzia a escravidão infantil na Inglaterra, a indústria do algodão dava, ao mesmo tempo, o impulso para transformar a economia escravista do Estados Unidos, que antes era mais ou menos patriarcal, num sistema de exploração comercial. De maneira geral, a escravidão encoberta dos trabalhadores assalariados na Europa precisava, como pedestal, da escravidão ‘sans phrase’ do Novo Mundo. (...) Se o dinheiro, segundo Augier, ‘vem ao mundo com manchas naturais de sangue sobre uma de suas faces’, então o capital nasce escorrendo por todos os poros sangue e lodo da cabeça aos pés”. (K. Marx, O Capital, Livro 1, cap. XXIV).

Somente a impostura, ou a ignorância, como se vê, pode atribuir ao marxismo um “eurocentrismo” ou fazê-lo caudatário da visão de mundo da burguesia. Ao contrário, o marxismo já nasce fundado na crítica mais radical e mais revolucionária de todo este pseudo-progressismo liberal, atacando-o não no terreno abstrato das ideias e da moral (onde pode mentir à vontade), e sim, na mundanidade dos seus interesses materiais. Esta crítica filosófico-política se converteu no século XX em crítica das armas, e, por meio das revoluções proletárias e das guerras de libertação na Ásia, África e América Latina, alcançou para seus povos em décadas conquistas que superam tudo o que a burguesia foi capaz de conceder em séculos inteiros. O mesmo vale para a questão feminina, opressão milenar conservada pela burguesia. O liberalismo burguês, e o reformismo pseudo-marxista, nada têm a oferecer ao povo preto e aos pobres em geral, a não ser ilusões e migalhas, acompanhadas de frustrações e humilhações. A libertação não se obterá por reforma, e sim, por revolução, digam o que disserem os fura-greves e encenadores de greves “pra inglês ver” da luta de classes, politiqueiros moderados, influencers passageiros ou estúpidos bem-intencionados, que se escandalizam menos com a violência silenciosa e sistemática dos de cima do que com a justa rebelião dos de baixo. Nossa divisa não deve ser um “retorno à África”, e sim a conquista, pelos oprimidos, da Humanidade toda.


Foto: Mauro Schaefer

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