RJ: Moradores da CDD fecham Linha Amarela após PM assassinar trabalhador; veja comentário editorial

Moradores bloqueiam Linha Amarela após PM assassinar trabalhador. Foto: Reprodução.

Moradores da favela Cidade de Deus (CDD), na zona oeste do Rio, fecharam, no dia 4 de janeiro, os dois sentidos da Linha Amarela, importante via que liga a região ao centro da cidade. Eles protestavam contra o assassinato do trabalhador Marcelo Guimarães, de 38 anos.

Segundo familiares, o homem foi morto por policiais militares do 18º Batalhão de Polícia Militar (PM). Um vídeo mostra o blindado da PM fugindo do local do crime. Um novo protesto está marcado para o dia 5 de janeiro, às 17h, na CDD.

No protesto do dia 4 de janeiro, os moradores colocaram barricadas com pedaços de madeira, móveis e outros objetos e fecharam as duas pistas da Linha Amarela, deixando o trânsito totalmente interrompido. Um veículo blindado da PM tentou furar o bloqueio, porém foi repelido pelos manifestantes enfurecidos e deu marcha ré.

 Marcelo Guimarães foi morto quando iria trabalhar. Foto: Reprodução.

Segundo testemunhas, Marcelo foi alvejado por volta das 8h30m quando passava por uma via que fica embaixo da Linha Amarela e que dá acesso à CDD. O rapaz voltava para casa após ter deixado o filho na creche, antes de ir trabalhar. Segundo familiares, o homem iria buscar o celular que tinha esquecido e depois iria para o trabalho. Marcelo, que trabalhava em uma marmoraria, era casado e pai de dois filhos, foi atingido por um tiro de fuzil disparado por policiais de dentro de um veículo blindado da PM, o famigerado "caveirão".

Uma testemunha contou que viu o momento em que o bico do fuzil saiu para fora do “caveirão” e atirou à curta distância, acertando em cheio o peito de Marcelo.

"Dois policiais entraram no ‘caveirão’ segundos antes de Marcelo passar de motocicleta. Eu vi o momento em que o cano de uma arma saiu (de uma das portilhas do veículo) e o disparo foi feito. Acertou em cheio o peito do rapaz", contou a testemunha ao jornal Extra.

Durante depoimento um dos PMs confessou que disparou de dentro do “caveirão”. Segundo o militar, os tiros foram efetuados para dar "cobertura" a um colega de farda. Os blindados e fuzis utilizados na ação passaram por perícia, de acordo com nota divulgada pela PM. Um vídeo mostra o momento que os policiais fogem com o blindado sem prestar socorro à vítima. Segundo testemunhas eles só voltaram 40 minutos depois.

Revoltados, familiares de Marcelo denunciaram o sadismo dos militares e reiteraram que não havia confronto no momento da morte do rapaz: "E matam e ficam rindo. Porque tinham policiais aqui (no local do crime) rindo. Eu só quero uma coisa: que desta vez a justiça seja feita. Isso não pode continuar assim, eles assassinando vidas", disse, indignada, Angélica, mãe de Marcelo.

A esposa, Carla, acusou os PMs: “Foram os policiais que tiraram a vida do meu marido. Isso eu sei porque não houve confronto na CDD. Infelizmente eu cheguei lá e meu marido estava no chão”, disse a mulher, emocionada.

"Meu irmão estava indo trabalhar, está até com a bota do trabalho. Tá jogado igual a um marginal, um pai de dois filhos", disse a irmã, Carine Guimarães.

Homem morreu a poucos metros do caveirão da PM. Foto: Reprodução.

PM ameaça moradores que protestarem

No mesmo dia do assassinato de Marcelo, um PM usou as redes sociais para ameaçar quem protestasse contra o assassinato do trabalhador e denunciasse a violência policial.

O PM, que é lotado no mesmo batalhão responsável pela morte do trabalhador, disse que se os moradores saíssem para fazer "gracinha" iriam se machucar. Segundo a corporação, o militar foi convocado a prestar depoimento.

PM ameaça moradores que fizerem manifestação após policiais matarem trabalhador na Cidade de Deus. Foto: Reprodução.

Comentário editorial

Este caso está longe de ser acidental, e é resultado da velha ordem social. Buscando justificar essa e tantas outras mortes de trabalhadores, vitimados por um verdadeiro genocídio, o velho Estado, através da PM, afirma sempre ser uma fatalidade, “bala perdida” etc., como se a desgraça que ocorre nas favelas e a morte “acidental” (a grande maioria, não é acidental) de inocentes fossem “efeito colateral” para eliminar a delinquência. Porém, como podemos perceber, o banho de sangue das forças policiais não só não elimina a delinquência, como essas forças se unificam; para combatê-la mesmo, seria preciso, ademais de solucionar os principais problemas que lançam os jovens a essa vida, concentrar-se na repressão aos verdadeiros bandidos: latifundiários, grandes empresários e políticos envolvidos, desde o alto de seus montões de dinheiro, com o narcotráfico internacional, comandado por magnatas que nada sofrem com as operações policiais nas favelas. Por outro lado, essa delinquência que cresce nos bairros pobres, da qual Marcelo e tantos outros não eram parte, é fruto de um massacre econômico que, no Rio de Janeiro, de maio a outubro, fez aumentar em 48% o número de desempregados (sem contar a legião de milhares de camelôs e outros trabalhadores às bordas da miséria completa). Primeiro, a velha ordem descarta e leva à delinquência um enorme contingente de jovens revoltados e desiludidos para, em seguida, matá-lo e, de sobra, matar também aqueles que não têm nenhuma relação com a delinquência, mas que são pobres e pretos potencialmente revoltados com tamanha exploração e opressão, sendo esse o seu "crime". Trata-se, este e todos os demais casos, não de acidentes, mas sim de uma sinistra perversidade, com o objetivo de controlar a revolta dos pobres - revolta contra toda a podridão e sofrimento que enfrentam - impondo um regime de terror policial, de choque. E a prova maior disso é a ameaça de um reles policial, um pobre-diabo insignificante que se acha autoridade para decretar o fim do direito à manifestação, sempre efetivamente negado às massas do povo.

Desde aqui, o AND se solidariza com a família e amigos do Marcelo e de tantos outros que, na escuridão dos becos, são alvos da sanha assassina do velho Estado brasileiro.

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