Editorial - Os lobos sem disfarce


Guedes, General Mourão e Bolsonaro. Foto: Renato Costa.

A luta surda travada no ninho da serpente entre a dita “ala econômica”, ligada a Paulo Guedes, e a “ala militar”, capitaneada pelos generais do Planalto, ganhou na não-recondução do atual presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, e sua substituição por mais um milico, episódio inédito. A tragédia brasileira, que se aproxima dos 250 mil mortos no contexto da pandemia, ganha ares de comédia grotesca quando vemos sair, da boca de Bolsonaro, o slogan “O petróleo é nosso”, enquanto os democratas e humanistas de ocasião, através dos articulistas do monopólio de imprensa, fazem a indecente defesa do todo-poderoso “deus-mercado”, no altar do qual não importa que sejam sacrificados os interesses da imensa maioria da nação. No que se refere à política econômica, os senhores defensores da “democracia” estão, ora vejam, à direita do capitão-do-mato!

A atual política de preços praticada pela Petrobras merece um único adjetivo: criminosa. Esta política tem como responsável o próprio governo de Bolsonaro/Guedes, que deu continuidade à espúria política de Temer de dolarizar o preço do petróleo e derivados, atrelando automaticamente seus reajustes no mercado interno às oscilações ocorridas em âmbito mundial. Como qualquer colegial sabe, o preço da produção de energia impacta toda a cadeia produtiva, com efeitos imediatos e perversos sobre os trabalhadores. Para piorar, esta dolarização se dá num contexto de forte desvalorização da moeda brasileira, o que torna o combustível mais caro, reforça a inflação e a carestia, que golpeia por sua vez o poder de compra das famílias e constrange a economia, num círculo de ferro que estrangula o País, para benefício de um punhado de especuladores nacionais e estrangeiros e do setor exportador, sobretudo o “agronegócio”, que se torna mais competitivo à medida em que o real se barateia diante do dólar. A inflação, portanto – que atinge com particular violência os que vivem de salário -, é uma doença estrutural da economia brasileira, cuja base última repousa no latifúndio monocultor de um lado e na subjugação ao imperialismo de outro. E o problema é tão grave que o Brasil consegue, nestes dias, combinar alta inflacionária com recessão, numa espécie de casamento de desgraças que devora o nível de vida do povo. É falsa, portanto, sob todos os aspectos, a velha cantilena que vê no aumento do consumo popular o vilão da inflação. Esta disparou em 2020, simultaneamente à deterioração da renda média dos brasileiros, que recuou 20% no mesmo período.

Como se vê, estamos diante de um problema bem mais abrangente do que a questão dos caminhoneiros, e que constitui, de fato, como disse este AND no seu editorial, um material explosivo na situação nacional. Porque tampouco Bolsonaro - o bravateiro, poderá levar até o fim o seu aceno populista, sob pena de perder o apoio da Faria Lima e ver cair o governo. E é interessante perceber que para estes assassinos perfumados, nada valem as milhares de vidas sacrificadas na pandemia, o crime de lesa-humanidade de Manaus, a sabotagem à vacinação, a defesa escancarada do fascismo e da tortura, o fato de que alguns milhões de brasileiros passem fome ou tenham que recorrer à lenha e ao carvão para cozinhar (porque também preço do gás de cozinha disparou, o que tem a ver, ademais, com o desmonte das refinarias perpetrado pelo governo federal). Até aí, os yuppies estavam “fechados com Bolsonaro”, e comemoravam outro dia mesmo a aprovação pelo Congresso da “autonomia do Banco Central”, mecanismo que visa blindar a política econômica das “pressões”, leia-se, da situação concreta das massas, como se vê agora, por exemplo, ainda que em outra esfera, no que se refere à Petrobras. Mas, basta que se nomeie uma figura do seu desagrado (até o momento, apenas isso aconteceu) ameaçam roer a corda, derrubam o preço das ações e preveem toda sorte de instabilidades.  

De fato, o regime ideal destes parasitas, que vivem em enclaves de riqueza tão luxuosos quanto vigiados, é o de Pinochet. Bolsonaro sonha, também, com isso, e é o programa que aplicará caso seu golpe tenha êxito. O problema é que, para chegar até lá, é preciso angariar base de massas, coisa que não se consegue desse jeito.

O compromisso de Bolsonaro, nosso Bonaparte de boteco, é, em primeiro lugar, com ele mesmo e com sua gangue. Acossado pelas investigações sobre os crimes que cometeu antes e depois de assumir a presidência, tem no golpe de estado não só um projeto político como a única ficha de salvação pessoal. Pensem concretamente: saindo do Planalto, sem os recursos que o cargo lhe oferece, ele não terá forças para enfrentar a avalanche de denúncias que o espera, e a cadeia será seu destino certo. A permanência no cargo, portanto, incluída a reeleição (como mera etapa intermediária do golpe, ou mesmo como pretexto para realizá-lo) é para ele questão de vida ou morte. Para os generais, tão corruptos e genocidas quanto ele, o problema se apresenta sob outra ótica, já que, como casta, sua vida não depende deste ou daquele governo, senão que estará assegurada até que os derrube e enterre a revolução. Para estes, dizíamos, o problema é político: pretendem impôr uma política fiscal e orçamentária que sirva aos seus objetivos contrainsurgentes, cujo problema tático imediato é deter a explosão social iminente, ambiente em que podem perder o controle da situação para a extrema-direita bolsonarista, além de verem as autênticas forças democráticas e revolucionárias se robustecerem neste processo. Por isso, e também, como pano de fundo, pela ligação orgânica entre as Forças Armadas e a grande burguesia burocrática, que repousa em causas bastante objetivas (para eles é chave, inclusive a fim de manter a condição de principal força da América do Sul, evitar o desmanche completo do parque industrial nacional), os generais são pela abrangente intervenção econômica estatal, a qual corresponde, na superestrutura, uma centralização maior de poder no executivo. Só ver na sua atuação no governo a busca por dinheiro e benesses, ou a adesão aos valores de Bolsonaro, como faz o moralista pequeno-burguês, é de fato nada explicar. Os generais e o capitão convergem, hoje - ainda que persigam objetivos distintos - para a mesma defesa de maior centralização política/intervenção econômica. São uma espécie de inimigos inseparáveis.

Para os revolucionários, a única posição consequente é denunciar de modo implacável, imutável, tanto os reacionários de dentro como os de fora do governo. Nenhuma concessão aos humanistas de ocasião, democratas de salão, que em nome de defesa da “constituição” defendem, isto sim, a continuidade dos seus privilégios! Abaixo Bolsonaro e o governo militar, genocidas e entreguistas, culpados pelas centenas de milhares de mortos e pela fome! A única alternativa é a luta e mobilização independente das próprias massas populares. Fora isso, só há o caminho dos sucessivos massacres e das traições, nas mãos dos bandidos de farda ou de gravata.

NÃO SAIA AINDA… O jornal A Nova Democracia, nos seus mais de 18 anos de existência, manteve sua independência inalterada, denunciando e desmascarando o governo reacionário de FHC, oportunista do PT e agora, mais do que nunca, fazendo-o em meio à instauração do governo militar de fato surgido do golpe militar em curso, que através de uma análise científica prevíamos desde 2017.

Em todo esse tempo lutamos e trouxemos às claras as entranhas e maquinações do velho Estado brasileiro e das suas classes dominantes lacaias do imperialismo, em particular a atuação vil do latifúndio em nosso país.

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