AM: Em meio a colapso na saúde, povos indígenas em contexto urbano se unem e montam hospital de campanha em Manaus

Unidade de Apoio Indígena (UAPI) construído na zona norte da cidade de Manaus. Foto: Tadeu Rocha.

Em meio ao novo colapso do Sistema Único de Saúde (SUS) no Amazonas, ocasionado por uma associação cruel de fatores: negligência do Velho Estado, precarização do SUS e trabalhadores em precárias condições com baixos salários; os povos indígenas em contexto urbano de Manaus, se organizaram e montaram no Parque das Tribos, Zona Norte de Manaus, a Unidade de Apoio Indígena (UAPI) que possui funcionamento semelhante a um hospital de campanha.

A UAPI é coordenada por enfermeiros e médicos indígenas oriundos das universidades do Amazonas, além disso conta com apoio de outros trabalhadores da saúde não indígenas, os demais trabalhadores são indígenas residentes no bairro. Os medicamentos, alimentos, materiais de limpeza, EPIs e cilindros de oxigênio são arrecadados por meio de doações e vaquinhas na internet. (https://www.vakinha.com.br/vaquinha/cacique-miqueias-indios-vitimas-do-covid19)

UAPI, construído no bairro Parque das Tribos, é mais uma das iniciativas populares que compôe o histórico do bairro. Foto: Matheus Castro.

Foram montadas tendas na região externa do galpão, há também um posto de enfermagem. Os leitos seguem as tradições dos povos indígenas, ou seja, não há camas, apenas redes. Outro aspecto importante é a utilização de chás e ervas de acordo com a medicina indígena e em conjunto com demais medicamentos não indígenas.

A demanda por atendimentos contra a Covid-19 que respeitem as tradições dos povos indígenas, é exigida desde a primeira notificação na cidade. Em abril de 2020, o Ministério da Saúde chegou a anunciar a construção de um hospital de campanha indígena em Manaus, contudo em maio foram inaugurados apenas 53 leitos no Hospital de campanha da Secretaria Estadual de Saúde. A unidade foi desativada ainda em 2020, apesar da redução tímida nos casos e óbitos no estado.

A unidade, que não possui vínculo com o SUS, funciona em uma quadra aberta, com um telhado com goteiras coberto por lona, além disso não recebe apoio das Secretarias Municipal e Estadual de Saúde e muito menos das universidades. Sem apoio e com poucas doações a unidade consegue atender apenas casos leves dos residentes do Parque das Tribos, indígenas em estado grave são direcionados para outras unidades do SUS.

O Cacique Miqueias, liderança do Parque das Tribos, denuncia em entrevista à revista Cenarium as precárias condições dos povos indígenas em contexto urbano em Manaus. “A nossa população vem sofrendo muito o amparo que nós estamos tendo é quase nada e o povo está vindo a óbito. Não temos um hospital, uma casa de saúde para atender a nossa comunidade Parque das Tribos”. 

Vanda Ortega, pertencente ao povo Witoto, técnica de enfermagem do Hospital Alfredo da Matta - umas das referências em Dermatologia do SUS em Manaus - oriunda da comunidade ribeirinha de Amaturá, interior do estado, relata em entrevista ao monopólio G1, o esforço para manutenção da UAPI e a importância do seu funcionamento como apoio a outras unidades do SUS.

Nós iniciamos uma campanha nas redes sociais para que as pessoas pudessem nos ajudar a construir esse espaço, com um pouco de estrutura para cuidar dos nossos parentes aqui. Nas duas primeiras semanas de janeiro, nós tivemos 56 pessoas com sintomas de Covid, e dessas, 32 fizeram o teste e tiveram o resultado positivo”. Ela segue dizendo: “Graças a essa campanha a gente conseguiu oxigênio, redes, medicamentos, proteção e EPIs, para que a gente pudesse cuidar dos nossos parentes aqui dentro da nossa comunidade mesmo”.

Profissionais da saúde se voluntariam para solucionar demanda da saúde dos povos indígenas, em meio a pandemia, na cidade de Manaus. Foto: Tadeu Rocha.

Vanda afirma também: “Com a campanha, alguns médicos vieram na comunidade dar orientação e estão vindo fazer a avaliação dos nossos parentes, assim como fisioterapeutas, que vieram dar esse apoio, porque só estava a gente mesmo. Temos aqui técnicos de enfermagem formados, enfermeiros, que atuam fora da comunidade. E a gente captou todos esses parentes que também estão estudando medicina, enfermagem, para somar esforços. Uma vez que um indígena se forma, certamente ele vai voltar para cuidar dos seus parentes. E é isso que a gente tem feito aqui. E prossegue relatando: “Aqui, além dos remédios indicados para tratamento da doença, temos feito uso das nossas ervas medicinais, extremamente importante durante esse cuidado, porque muitos indígenas não gostam de tomar remédios de farmácia. A gente entra com orientação sobre a importância de fazerem uso dos remédios 'da farmácia', aliado com a nossa medicina tradicional"

A pesquisadora Fabiene Vinente, da Fiocruz Amazônia, denuncia em entrevista ao monopólio Folha de São Paulo: "Na cidade, indígenas não têm estrutura, seja de saúde, saneamento básico, educação ou segurança. O impacto da pandemia sobre eles foi muito brutal, afinal, eles estão no meio da cidade e não isolados. [...] Mesmo assim, há uma vulnerabilidade em relação ao vírus. A pandemia não respeita essas fronteiras [entre cidade e aldeia]."

Um dos indígenas internados na UAPI, Anselmo Kokama, em entrevista ao mesmo portal, afirma: “Está morrendo muita gente dessa doença lá. Aqui, estou melhorando”.

A luta histórica do bairro Parque das Tribos

Iniciado em 2014 com a liderança do Cacique Messias Kokama, após tomada de terra, o bairro Parque das Tribos se expandiu rapidamente. Atualmente residem nele cerca de 700 famílias, sendo 80% formado por 35 povos indígenas, oriundos principalmente do Amazonas. 

O Cacique, uma das vítimas da Covid-19, faleceu no dia 13 de maio de 2020. De acordo com o IBGE, a comunidade é o primeiro bairro indígena em uma capital brasileira, apesar disso há diversas ações de despejo no judiciário para transformar o bairro em mais um condomínio da especulação imobiliária.

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