AM: Enem da pandemia registra boicote histórico

Estudantes lutam em defesa do ensino público e e gratuito e contra o EaD. Foto: Reprodução ExNEPe

Nos dias 23 e 24 de fevereiro foram aplicadas as provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para os estudantes da região amazônica que não puderam fazer antes por conta da crise de enchentes e pico de óbitos de Covid-19 que atingiu a região em janeiro. As provas também foram aplicadas em mais 1.445 municípios em todo o país para estudantes com diagnóstico confirmado de covid - 19 que não realizaram as provas em janeiro, além da população carcerária.

De acordo com os dados do Ministério da Educação (MEC), a prova foi aplicada em 56 dos 62 municípios do Amazonas. Estiveram presentes no dia 23 53.132 mil estudantes, enquanto no dia 24 foram 52.085 mil de um total de 163.444 mil estudantes inscritos, ou seja, um boicote de 110.312 mil (67,5%) no dia 23 e 111.359 mil (68,1%) no dia 24, uma abstenção média de 110.835 (67,8%).

Os números apontam um boicote histórico no Amazonas, em comparação a outros Estados da Amazônia. Apenas no Pará o boicote foi maior. Neste estado, no primeiro domingo de provas foram 166.146 mil, no segundo dia foram 180.444 mil. Em comparação aos demais Estados, os números também são altos: a média nacional de boicote foi cerca de 51,5% nos dois dias, enquanto no Amazonas foi 67,8%.

O estudante Tiago Azulay Viana, de 18 anos, que realizou o ENEM pela primeira vez, em entrevista ao monopólio G1 relatou que poucos estudantes estavam presentes na Escola Estadual Professor José Bernardino Lindoso, localizada na Zona Norte de Manaus, uma das maiores escolas do Amazonas. “Em todas as salas que eu vi nessa escola, não houve um número grande de pessoas. Por exemplo, se tinham na faixa de 20 pessoas por listas, mas fisicamente, havia apenas entre cinco a dez pessoa.”

A estudante Suzyene Vitória Vieira da Silva, de 19 anos, relatou que foi fazer a prova apesar de sua mãe ainda estar doente. "Minha mãe pegou Covid-19 recentemente. Ela ainda está doente e eu fico muito ansiosa com isso. Fico com o coração na mão em deixar ela em casa, mas sei que minha mãe quer o melhor para mim, e eu quero um futuro para ela"

A estudante Eduarda Rodrigues, de 17 anos, relatou medo de ficar doente. "Apesar das medidas adotadas, ainda tem um resquício daquele medo de se infectar e passar para os nossos familiares também, né?".

Outros estudantes relataram desorganização na aplicação do ENEM por conta de mudanças, em cima da hora, dos endereços dos locais de provas. A estudante Safira da Silva Nogueira, de 18 anos, relatou dificuldades em chegar no local por conta da mudança de endereço. "Já foi bem difícil o fato de mudarem o endereço em cima. Vi que mudaram, pesquisei bastante pra chegar aqui, e agora notei que meu nome não está na lista, isso me deixa assustada"

Enquanto Bruna Guimarães Sontão, de 19 anos, relatou ausência de nomes, algo semelhante ao que outros estudantes em outros Estados relataram durante a aplicação em janeiro. “Teve uma leve confusão no início pois os candidatos, assim como eu, não encontraram os nomes nas listas. Eu por exemplo, estava para uma sala e meu nome não estava lá na lista e em nenhuma outra sala. A coordenadora mandou todo mundo ir para o refeitório, entrou em contato com alguém do [Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, Inep] e resolveu esse problema em cerca de uma hora".

As provas marcadas inicialmente para janeiro de 2021, em decisão contrária aos estudantes, foram adiadas para 23 e 24 de fevereiro por conta de mais um pico de óbitos e casos de Covid - 19 na Amazônia. Em janeiro os trabalhadores do Amazonas vivenciaram as consequências de uma histórica crise de abastecimento de oxigênio em Manaus, que provocou a morte de diversos trabalhadores nas unidades do SUS. Crise estabelecida pelo velho Estado, sob o tripé da morte: hospitais em precárias condições, trabalhadores recebendo baixos salários e a circulação de uma nova cepa do coronavírus.

Em meio ao alto número de óbitos, principalmente em Manaus, a Advocacia-Geral da União (AGU) recorreu em 14 de janeiro de uma decisão do Tribunal Regional Federal da Primeira Região (TRF-1) que proibia a realização do Enem no Amazonas em janeiro. De acordo com o recurso da AGU é necessário que todas as unidades federativas tenham os resultados finalizados. A aplicação simultânea das provas é garantia de isonomia entre os candidatos. Além disso, o adiamento das provas prejudicaria o cronograma do Enem 2020. Após grande repercussão nacional, o MEC voltou atrás e adiou o Enem para fevereiro.

MEC ignora estudantes do interior do Amazonas que não realizam provas do ENEM 2020.

A prefeitura de Barreirinha (AM), distante cerca de 330 Km em linha reta de Manaus, emitiu decreto restringindo a circulação de pessoas e consequentemente proibindo a realização das provas do Enem no município, por conta do alto número de infectados por Covid-19 e falta de leitos de UTI em Manaus.

Contudo, o Ministério da Educação realizou uma reunião às pressas onde a prefeitura foi informada que não haveria outra data para aplicação da prova e os estudantes só poderiam disputar as vagas nas universidades em 2022, diante disso o decreto foi alterado permitindo a realização do Enem apesar do risco de aumento na transmissão.

Em Boca do Acre (AM) das 3 escolas disponíveis para realização das provas, 2 ficaram alagadas e a outra foi utilizada como abrigo para os trabalhadores que perderam tudo nas enchentes. A cidade distante cerca de 1.560 Km em linha reta de Manaus e localizada na calha do Rio Purus também foi atingida por uma das maiores cheias da história dos rios Acre e Purus, conforme noticiado pelo AND.

Em nota ao monopólio de imprensa o INEP, órgão responsável pelo Enem afirmou que os estudantes não irão fazer o exame em 2020, por conta dos eventos naturais, mas podem realizar a prova em 2021 para concorrer a uma vaga nas universidades apenas em 2022. Com isso os 753 estudantes que estavam inscritos na prova, foram impedidos de realizá-la.

Após boicote histórico, outro militar assume a coordenação do Enem.

No dia 5 de março, Alexandre Gomes da Silva foi nomeado como diretor de avaliação da educação básica do INEP, diretoria responsável pela coordenação do Enem.

Alexandre é Coronel da Força Aérea Brasileira (FAB) e assume o lugar de outro militar, o general do Exército, Carlos Roberto Pinto de Souza, 59, que morreu no dia 11 de janeiro por complicações da Covid-19.

O general Carlos não trabalhava na educação, pois sempre atuou na área de defesa cibernética do Exército. De acordo com seu Lattes, ele concluiu  doutorado em Altos Estudos Militares pela Escola de Comando e Estado Maior do Exército, além de ter um mestrado na Escola do Exército dos Estados Unidos. O general também coordenou a área de Segurança e Defesa Cibernética durante os jogos Olímpicos e Paraolímpicos do Rio de Janeiro, em 2016.

O novo coordenador do Enem também nunca atuou na área da educação. Possui formação em Ciências Aeronáuticas pela Academia da Força Aérea, pós-graduação em Segurança da Aviação e Aeronavegabilidade Continuada pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) e especialização em Gestão Estratégica de Pessoas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

Alexandre atuou como piloto, investigador de acidentes aéreos, na área de comunicação, e no setor de relações institucionais da Presidência da República. Além disso, foi assessor parlamentar no Ministério da Defesa. Seu último cargo foi de assessor parlamentar no gabinete do atual ministro da educação, pastor Milton Ribeiro.

Há outros militares em cargos de alto escalão do MEC. Como por exemplo Ricardo Augusto Ribeiro de Souza, que atuou na  gestão caótica do ex-ministro Ricardo Vélez Rodriguez, foi demitido e agora retorna ao MEC na Subsecretaria de Assuntos Administrativos.

Os demais militares são Paulo Mauricio Jaborandy de Mattos Dourado, coordenador-geral de Recursos Logísticos; Carlos Minelli de Sá, assessor especial do ministro; Marcelo Mendonça, chefe da assessoria de assuntos parlamentares; e José de Castro Barreto Júnior, secretário-executivo adjunto.

Contra o imobilismo, estudantes de pedagogia convocam demais estudantes para a luta.

Na semana de realização do Enem, em janeiro, a Executiva Nacional de Estudantes de Pedagogia (ExNEPe) lançou uma nota denominada  A realização deste Enem é absurda e criminosa! A nota denunciava a realização do Enem nestas condições também realizava uma convocatória aos estudantes para organização de atos em todo o país, sempre respeitando os cuidados com a Covid - 19. Na Amazônia foram realizados atos em Rondônia e no Pará.

De acordo com a entidade, a aplicação do Enem nas datas nas quais foram impostas configuram um absurdo completo e um crime contra os estudantes. Primeiro porque depois de um ano letivo inteiro sem aulas presenciais com conteúdos sendo mandado aos alunos via Whatsapp, os alunos, principalmente os pobres, não tiveram a mínima preparação necessária para fazer a prova.

Em segundo lugar, reunir dezenas de pessoas em salas, corredores e filas, em um momento de pico no número de óbitos e casos de covid -19, configura um crime contra a saúde do povo.

Estudantes em todo o Brasil saíram às ruas e foram até os locais de aplicação das provas para conscientizar os alunos da mediocridade do governo federal que em meio ao caos sanitário impôs tal prova.

Segundo a ExNEPe, o que resta para os estudantes, professores, pedagogos, e demais trabalhadores da educação é se organizar para dar um caminho para essa justa revolta, condição necessária para barrar os ataques à educação.

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