Vermelho e Dourado – a luta dos operários na exploração aurífera de Nova Lima e a direção do PCB

Mineiros de Nova Lima. Foto: Reprodução

A Terra *

Nova Lima, pano de fundo de nossa história, é um município de cerca de 90 mil habitantes que faz divisa com a capital estadual, Belo Horizonte, e compõe a sua Região Metropolitana. De elevada altitude, clima ameno e conservando ainda uma boa parcela de sua mata nativa,  ao mesmo tempo bastante próxima da Zona Sul (onde se localiza área nobre de Belo Horizonte) e com baixas alíquotas de IPTU, Nova Lima nas últimas décadas tem se tornado um recanto para os endinheirados da capital, que impulsionaram a criação de condomínios, loteamentos de mansões e serviços de luxo. Hoje dizer que mora em Nova Lima é, para muitos, dizer que se é rico, porém, aqui falaremos de outra Nova Lima, telúrica e vermelha.

Formação de Nova Lima

Como várias cidades mineiras, Nova Lima surgiu e se desenvolveu em consequência do Ciclo do Ouro, no caso da Mina de Morro Velho descoberta em 1724. “Congonhas de Sabará”, como conhecida à época não teve um crescimento explosivo como outras vilas e cidades do ciclo aurífero (Ouro Preto, Mariana, São João Del Rey, etc.) e permaneceu por todo século XVIII e início do século XIX como um pequeno arraial devido à baixa produtividade de suas minas, consequência da falta de capitais para exploração do ouro da família Freitas, latifundiária local, e da Coroa Portuguesa - à esta altura submetida ao Reino Unido por tratados comerciais lesivos ao seu próprio desenvolvimento capitalista.

A situação descrita acima só passa a se alterar com o processo iniciado com a Independência, em 7 de setembro de 1822, quando o Brasil passa de colônia portuguesa para semicolônia inglesa, assim permitindo os investimentos diretos dos britânicos na mineração. Em 1830, a família Freitas vende a mina de Morro Velho a um capitão britânico, que em 1834 a revende para a companhia, também britânica,Saint John d’el Rey Mining Company Limited, que irá dominar a região por mais de um século. Nas décadas seguintes, foram invertidas maiores parcelas de capital britânico nas minas locais, trazendo maquinaria e técnicas, ampliando túneis, galerias e uso de mão-de-obra que contribuíram a tornar o arraial de Congonhas de Sabará mais populoso e a Albion mais rica. Segundo Yone de Souza Grossi em Mina Morro Velho: A extração do homem em uma história de experiência operária, entre 1839-1860 a empresa lucrou “oito vezes o investimento inicial, amortizando o capital investido.”

Naturalmente, como a maior parte dos grandes “empreendimentos” nessa terra à época, a mineração em Nova Lima utilizou fartamente da mão-de-obra escravizada, segundo Nova Lima, a raça negra na formação de sua história de Walter G. Taveira. A despeito da escravidão nos domínios coloniais britânicos ter sido abolida em 1833, na semicolônia brasileira a Saint John d’el Rey utilizou sem constrangimentos seus escravos e alugados de outros proprietários até 1886, quando alforriou seus últimos escravos (provavelmente antevendo a inevitável Abolição dois anos mais tarde). Sujeitos às mais duras condições de trabalho, segundo o registro de óbitos de negros escravizados e livres entre 1850 e 1890 em Congonhas de Sabará realizado pelos padres locais de um total de 769 óbitos, 72 morreram por acidentes de minas, quase 1 a cada 10 óbitos ocorridos neste período, fora uma série de doenças como tuberculose/tísica, pneumonia e silicose/cirrose (como dizem os locais mais velhos) de uma forma ou outra relacionada ao trabalho duro nas minas. Após a alforria em 1886 e a Abolição de 1888 ainda tantos outros negros permaneceram em duras condições de trabalho “livre”: desabamentos de galerias subterrâneas, doenças respiratórias relacionadas à umidade e a ingestão de sílica e opressão patronal com requintes senhoriais.

Nova Lima e a República

Em 1893, o arraial de Congonhas de Minas torna-se a Vila Nova de Lima, nome que remetia ao jurista Augusto de Lima. No Brasil vigorava a república dos senhores de terras e compradores dos britânicos, pouco havia sido feito pelo povo pobre, os camponeses e operários, entre eles os mineiros, principal setor do operariado da vila. Como antes, vigoravam nos campos a servidão e semisservidão e nas cidades o trabalho fabril surgia, contaminado pelos miasmas da velha sociedade. A vida pública era uma orgia de escândalos eleitorais e o sistema político viciado em coligações das oligarquias mineiras e paulistas.

É neste contexto nacional e, inspirado pelas vitórias da Revolução Socialista de Outubro que inauguraram uma Nova Era na Humanidade, a das Revoluções Proletárias, na qual a classe operária brasileira pode constituir-se como partido contrário e oposto aos demais e à ordem estabelecida. Em 25 de março de 1922 é fundado o Partido Comunista do Brasil - Seção Brasileira da Internacional Comunista em Niterói/RJ. A partir daí as lutas nacionais adquirem uma nova qualidade e potência.

Pouco depois, em 1923, a Vila Nova de Lima (juntamente com as vilas de Rio Acima e Raposos, que mais tarde seriam emancipadas também) é emancipada de Sabará e o novo município no atual nome de Nova Lima, nome que até hoje carrega. A mineração prossegue e entre 1915 e 1928, a mina de Morro Velho, localizada em Nova Lima, foi a mina mais profunda do mundo, onde os operários espanhóis, os descendentes dos escravizados e demais mineiros percorriam quilômetros de cócoras ou a cavalos, tal como os personagens do aclamado romance realista Germinal do parisiense Émile Zola. Para se ter uma noção mais exata da influência da mineração naquele município, de um total de 40 mil habitantes em Nova Lima, 8 mil eram mineiros em 1930 e do ouro extraído de Minas Gerais em 1940, 90% vinha de apenas da mina de Morro Velho.

Comunistas e Nova Lima

Em 1932, entre tantas outras mudanças de grande dimensão ocorridas no Brasil e no mundo, a chamada “Revolução de 32” com a tentativa dos cafeicultores e industriais paulistas recuperarem a autonomia pré-1930 do regime Vargas, os efeitos do “crack” de 1929 ainda sendo sentidos em meio mundo e a ascensão do nazismo na Alemanha, ocorre uma pequena mudança. Sim, uma mudança no sentido literal: se mudaram para Nova Lima dois mineiros e um artesão, fundindo seu destino às massas naquela crescente cidade, estabelecendo assim a sua primeira célula. 

Em de 13 de maio em 1934 é fundado o Sindicato dos Mineiros, sob sua primeira denominaçãoUnião dos Trabalhadores da Morro Velho e Classes Conexas, com 447 afiliados. Em resposta à organização operária independente e a atuação dos comunistas, os proprietários da Morro Velho fomentaram a criação de um sindicato pelego, financiado por um desconto automático do salário dos funcionários, que se utilizou de pequenos benefícios materiais para tentar seduzir os mineiros. Devido à sua atuação, restrita aos 10% dos funcionários, que trabalhavam acima do nível do solo, este foi chamado de “sindicato de cima”, enquanto nos subterrâneos, do solo e da liberdade, resistiu e lutou o “sindicato de baixo”. Fracassando em sua tarefa de enganar a categoria, após o “curto período de pluralidade sindical de 1934 a 1937” o aborto sindical dos ingleses é desarticulado.

Devido às duras condições de perseguição e peleguismo oficial naquele momento do movimento sindical, sob a direção comunista, o sindicato procedeu pela adoção de uma direção rotativa, estimulando a formação de novos quadros sindicais que permitisse a rápida substituição dos quadros sindicais presos. Os dirigentes sindicais permaneciam nas minas para manter o contato com a categoria e “sentir na carne os problemas da classe: para ficar com a classe e viver suas necessidades". Para evitar a carestia durante as greves, foram organizados fundos de greve, não apenas financiados pela categoria, como utilizando o Livro Ouro entre os apoiadores da sociedade em geral. 

Abaixo, um trecho do discurso de um militante comunista na fundação do sindicato em 1934, deixa bem claro os princípios de atuação que nortearam o sindicato dos mineiros em suas primeiras décadas:

"O sindicato é a casa do operário, é o organismo que defende seus interesses mais imediatos, é a sua escola de luta.  O primeiro dever, portanto, de todo trabalhador, é ingressar em seu sindicato. O segundo é fazer com que a direção desses sindicatos lute pelas suas reivindicações econômicas e políticas e o defenda realmente contra a ganância dos patrões e a falsa neutralidade do governo desses mesmos patrões.  O terceiro é fazer com que seus sindicatos não se isolem dos demais setores do proletariado, mas pelo contrário, por meio de ações comuns de atos, frente única, etc., se esforcem para que se tornem uma realidade.”

Assim, coube ao sindicato tornar-se um pólo progressista, contrapondo-se à reação encabeçada pelos britânicos e da sacrossanta Igreja Católica, patrimônio tombado do colonialismo português. Em 1935 se celebra pela primeira vez o 1º de Maio na cidade colonial de Nova Lima. São organizados atos de solidariedade às lutas operárias em Belo Horizonte e demais cidades do Brasil, também manifestações contrárias ao integralismo na cidade e pela nacionalização da mineradora britânica.  É incentivada a participação feminina, no sindicato e na sociedade em geral. Para além das questões propriamente políticas, o sindicato foi ativo promovendo associações esportivas, de ajuda mútua, clube de truco e a organização feminina dentro e fora da mineração. Àquela época as assembleias do sindicato, devido à ampla adesão da categoria, se davam muitas vezes em cinemas e teatros.

Com o recrudescimento do governo Getúlio Vargas, o estado brasileiro assume uma feição abertamente fascista, e proíbe os partidos políticos e a propaganda comunista e progressistas. A despeito do exílio de seu líder em Portugal, muitos integralistas e também nazi-fascistas como Goés Monteiro e Filinto Müller assumem altos cargos no estado e esboça-se uma aproximação com o Eixo. Segundo as palavras de Graciliano Ramos à época: 

“[...] tínhamos a impressão de viver numa bárbara colônia alemã. Pior: numa colônia italiana. [...] Uma beatice exagerada queimava incenso defumando letras e artes corrompidas, e a crítica policial farejava quadros e poemas, entrava nas escolas e denunciava extremismos”

Em Nova Lima, bárbara colônia bretã, à soldo dos proprietários da Morro Velho, convergiam os incensos clericais e a crítica policial sobre os comunistas, os mineiros e a sua “escola de luta”. Em 1936, foram demitidos da empresa 17 fundadores do sindicato sob a alegação de “extremismo” e em 1937 o sindicato é colocado sob intervenção do Ministério do Trabalho.

Novamente os intentos da reação nacional, mesmo nos períodos mais duros do regime Vargas (Estados Novo) foram insuficiente para sufocar o prestígio do sindicato e dos comunistas naquele município. Em 1944, mais de sete mil operários cruzaram os braços e declararam greve por aumento de salário, demonstrando a força daquela massa e sua direção clandestina naqueles duros tempos.

Apogeu

Em 1945, após a vitória soviética sobre o nazifascismo na Europa, o prestígio dos comunistas nunca esteve tão elevado no Brasil como em Nova Lima, onde se tornaram a principal força política organizada da cidade, dirigindo não apenas o sindicato dos mineiros. Sua participação eleitoral, conforme a linha do Partido à época, havia sido um sucesso: elegeu o vice-prefeito, juiz de paz e vários vereadores.

Entre eles o jovem operário William Dias Gomes. Direção da histórica Greve de 1944, ingressou no Partido em 1945, onde intensificou seu compromisso com a classe e aprofundou seu conhecimento acerca de sua ciência como também de outras áreas, que estudava com grande afinco: 

“[William]Procurava sempre estudar, não apenas literatura marxista, mas tudo quanto pudesse contribuir para desenvolver lhe o espírito. Conta-se que, certa vez, um bacharel amigo se escandalizou porque William trazia debaixo do braço uns manuais de geografia e português:

— Ora — respondeu-lhe o mineiro —, vocês puderam frequentar escolas. Eu tenho de aprender por mim mesmo. Não posso é ficar sem saber das coisas.” (Revista Problemas)”

Leia também: “A vida de Willian Dias Gomes”

Órfão de pai, trabalhou desde muito cedo para o sustento de sua família. Gaioleiro (uma das funções exercidas pelos mineiros no subterrâneo), profissão que não abandonou nem mesmo para assumir o cargo legislativo, craque do Vila Nova Futebol Clube e pai de família, Willian era conhecido por todos sua conduta exemplar sendo o vereador com mais votos no pleito municipal do ano em que foi eleito. Membro do comitê municipal e estadual do Partido, era tido como o principal agitador comunista da cidade e o mais perigoso, de acordo o depoimento do capitão da polícia militar Mário Norberto Lindenberg – responsável pela repressão aos mineiros – segundo o artigo O ardil anticomunista – estudo de caso (1948-1949) de Victor de Oliveira Pinto Coelho. Preocupado não somente com as questões da mineração ou com a realidade de seu município, defendeu a distribuição das terras dos latifúndios da “Saint John d’El Rey Co.” para o povo pobre e organizou o Centro Municipal de Defesa do Petróleo – parte da Campanha pela Nacionalização do Petróleo assumida nacionalmente pelo Partido – sendo conhecido por ser o mais bem informado sobre o tema em Nova Lima.

Profundamente ligado ao povo novalimense também, José dos Santos, conhecido por Lambari, membro do Comitê Municipal do Partido destacou-se como líder popular em Nova Lima e pela incomum responsabilidade de “ativar as associações femininas, união feminina, comitê democrático de mulheres, liga das noivas, etc”., que compunham o movimento feminino dirigido pelo Partido àquela época. Conhecido pela retidão moral, pelo prestígio entre os mineiros e pelo especial trato com as mulheres, Lambari não foi alvo de desconfianças típicas do pensamento provinciano e pudico que restringia o contato de homens com mulheres fora das relações familiares, em vigor naquele tempo e lugar. Dedicado à organização das mulheres a que foi incumbido, diz-se que aprendeu com perfeição todos os serviços tidos como femininos à época: “olhar criança, cozinha, preparar varal de roupas, remendar e etc. Diziam dele: ‘Só não sabe dar à luz’”. De seu trabalho nas associações femininas emergiram comissões de rua ou bairro com base nas reivindicações locais.

Juntamente com Raposos, emancipada de 1948, até então distrito de Nova Lima onde também vigorava a exploração mineral pela Saint John d’El Rey, Nova Lima foi alvo de ira e pavor das classes dominantes expresso em seus veículos de imprensa. Em suas páginas marrons, Nova Lima se tornou a “Cidade Vermelha” e Raposos, “Moscou”, importante reconhecimento da dimensão do trabalho revolucionário nas duas cidades.

Se o inimigo nos ataca...

Não menos que dura repressão poderia esperar os comunistas e os mineiros da Morro Velho diante do sucesso em sua luta sindical e política em Nova Lima. Relembrando Mao-Tsetung no texto Ser atacado pelo inimigo não é uma coisa má, mas sim uma coisa boa que: “[...] se este [o inimigo] nos ataca furiosamente, se nos pinta com as cores mais sombrias e sem a menor virtude, na medida em que isso não só demonstra que traçamos uma clara linha de demarcação entre o inimigo e nós próprios, mas ainda que alcançamos um grande êxito no nosso trabalho.” Fruto de uma intensa campanha democrática, com participação ativa do Partido, o Brasil declara guerra ao Eixo em 1942 e três anos mais tarde o regime fascista de Vargas é derrubado pelos mesmos militares que participaram de sua instauração, antevendo a intensificação da luta democrática no Brasil embalada pela vitória soviética contra o nazismo.

Seu sucessor, contudo, o general Eurico Gaspar Dutra, não tardou a se ajoelhar ao imperialismo ianque e seguir sua cartilha anticomunista em tons macartistas. Em 1947 o registro do Partido Comunista do Brasil é cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral. Em todo país se desatou uma dura perseguição contra os comunistas, democratas e patriotas. Além da cassação do PCB, ainda houveram a cassação dos mandatos de comunistas abrigados em outras siglas como Pedro Pomar e Diógenes Arruda, massacres de comunistas em São Paulo, Rio Grande do Sul e Ceará. Até a associação de ex-combatentes da FEB de Belém-PA foi fechada por razões políticas durante o Regime Dutra.

Em Nova Lima, não poderia ser diferente. No auge da atividade comunista nas cidades os operários haviam participado de grandes lutas e colocado na defensiva os ingleses e a reação municipal, despertando a ira mesmo da reação estadual para difamar o trabalho sindical e popular dos comunistas. Entre 1946 e 1949 ocorreram grandes greves operárias contra a Saint John d’El Rey, que resultaram na conquista de consideráveis aumentos salariais e melhores condições de trabalho, como no aumento do prestígio dos comunistas.

Um dos principais golpes contra a direção comunista em Nova Lima ocorreu no dia 7 de novembro de 1948, quando em meio à uma dura luta salarial com a Saint John d’El Rey, pouco antes de uma semana para o prazo final estabelecido pelo sindicato à companhia britânica, o Partido decide organizar uma grande solenidade em ocasião do aniversário da Grande Revolução Socialista de Outubro. Como era de se esperar foi realizada uma grande propaganda com faixas, cartazes e inscrições pelos muros da cidade e até dos carros de minério e mesmo um serviço de alto-falante foi contratado para convocar às massas à solenidade. Uma afronta para a companhia inglesa e a reação local. Neste dia, pistoleiros a soldo da Saint John d’elRey, tentaram invadir armados de carabinas, revólveres, facões e paus o evento, que ocorria no gabinete dos vereadores comunistas, sendo repelidos pelos trabalhadores. No confronto tombaram o dirigente comunista e vereador William Dias Gomes, baleado com dois tiros, e o mineiro Ornélio, a pau e pedra. Minutos após a saída dos pistoleiros, cinicamente, a polícia apareceu no local e prendeu o mineiro Raimundo Barreto que lutou ao lado de seus companheiros.

O cortejo fúnebre de William Dias Gomes e Ornélio, o maior já visto na cidade até então, reuniu mais de dois mil operários de Nova Lima e Raposos que não se intimidaram diante das ameaças da mineradora inglesa e da polícia que trouxe caminhões cheios de soldados para acompanhar o evento. Em Raposos, a polícia tentou, em vão, impedir que as massas pegassem o bonde rumo a Nova Lima para se somar a homenagem a seu “camarada, amigo e chefe” (Classe Operária).

No final deste mesmo mês, como parte da campanha anticomunista, foi instalado pelo Ministério do Trabalho um inquérito federal de investigação na mina de Morro Velho, cuja comissão produziu um relatório em março de 1949 orientando a demissão de 51 operários. Assim, a Saint John d’el Rey Mining procedeu e demitiu ilegalmente (visto que pelas leis da época garantiam estabilidade após 10 anos de trabalho numa mesma empresa) os operários sem qualquer pagamento ou direito, sob a alegação de serem indisciplinados, desidiosos e autores de grave sabotagem nos serviços da Companhia”. Diante de tal escalada fascista contra o sindicato, a classe respondeu com luta e em 1950 ocorreu uma marcha de mineiros e suas famílias de Nova Lima, cruzando a serra do Curral, até o palácio do governador em Belo Horizonte – na Praça das Liberdade – exigindo a reintegração dos 51 operários, mobilizando ampla opinião pública à seu favor. A disputa judicial se prolongou até 1952, quando o Supremo Tribunal do Trabalho, de acordo com sua natureza de classe, favoreceu a empresa.

Em janeiro de 1949 foi criada a UNAS - União Novalimense de Assistência Social (UNAS), com o apoio da Igreja Católica, no intuito de combater a influência comunistas entre os operários, promovendo o assistencialismo barato. Em 17 de junho de 1949, de madrugada, enquanto retornava de uma reunião de uma célula feminina do Partido no distrito de Honório Bicalho, José dos Santos, o Lambari, foi vítima de uma emboscada, sendo alvejado por sete tiros. Acredita-se que tenha participação da UNAS em seu assassinato. Em 1952, Anélio Marques Guimarães, membro do Partido e presidente do sindicato dos mineiros, é vítima de um sequestro pela polícia em um carro de propriedade da Saint John d’El Reysendo ameaçado e posteriormente solto em Rio Acima (à época também distrito de Nova Lima).

Por fim, o trabalho comunista em Nova Lima passa a decair a partir da década de 1950, devido à confluência da intensa repressão, demissões e assassinatos seletivos dos quadros comunistas no sindicato e na cidade e das próprias contradições existentes no seio do PCB e do Movimento Comunista Internacional. 

Com a morte de Stalin em 1953 e a ascensão do revisionismo moderno na URSS sob Kruschov, houve na maioria dos partidos comunistas, o fortalecimento de posições conciliadores e legalistas que, no caso do Brasil, empurraram o Partido para a defesa de posições conciliadoras, legalistas e a reboque da burguesia burocrática – erroneamente tida como nacional. Já em 1953 José Gomes Pimenta, o Dazinho, da Juventude Operária Católica – JOC, sem relação com a UNAS ou o vigário reacionário de Nova Lima, assumiu a presidência do sindicato.

Ainda nas décadas de 1950 e 1960, o sindicato participou de importantes lutas como à pela delimitação da jornada de trabalho nas minas de seis horas (fora o tempo de transporte dos mineiros), participou da campanha pelas Reformas de Base de João Goulart e protagonizou uma greve em reação a deflagração do Regime Militar de 1964. Na ocasião, os mineiros mantiveram-se em greve por dois dias até que a polícia militar “restaurasse a ordem.” Tamanho era o temor das classes dominantes que, nos próximos dias, a cidade e mesmo a câmara dos vereadores permaneceu ocupada, inúmeros mineiros foram presos e interrogados e suas casas revistadas

Epílogo

A Saint John d’el Rey Mining Company, outrora jóia da Coroa em Minas Gerais, como reflexo da decadência do imperialismo britânico, foi adquirida pela ianque Hannah Mining Company entre 1956-1957. Em 1960, o controle acionário da empresa é passado para um grupo de empresários brasileiros, que assume o nome de “Mineração Morro Velho S.A”. Em 1975, o controle acionário da Morro Velho é assumido a Anglo American Corporation, atual Anglo Gold Ashanti. Esta, hoje junto a Minerações Brasileiras Reunidas, sob controle acionário da famigerada Vale, são as maiores proprietárias fundiárias de Nova Lima, detendo, juntas, 50% da área total do município, segundo o plano diretor do município datado de 2005. Mais recentemente, essas mesmas empresas partiram para especulação imobiliária associando-se ao ascendente setor de condomínios fechados.

Como fruto da perseguição fascista e da desorganização do movimento comunista e revolucionário a partir da segunda década de 1970, Nova Lima não aparenta ser a Cidade Vermelha. Como no ímpeto de apagar a memórias desses bravos combatentes da classe, não há nomes de ruas, de escolas ou memoriais para William Dias Gomes ou para José dos Santos – Lambari, enquanto multiplicam homenagens a George Chalmers, gerente inglês da Saint John d’El Rey, o oligarca Augusto de Lima e o varejista associado aos britânicos, Coronel Aristides. Reflexo da decadência da mineração na cidade a partir da década de 1990, com o fechamento das minas Grande (1995) e Velha (2003), não há tantos mineiros mais como antes, mas segue viva em Nova Lima suas marcas. No traçado irregular de suas ruas estreitas, produto do típico urbanismo desordenado do Ciclo do Ouro (quem esteve por Ouro Preto pode confirmar) e nas características casinhas germinadas, "bonserás", que sobrevivem em vários bairros, oriundas das habitações destinadas aos mineiros, trafegam e vivem seus descendentes. Alguns, ainda tem a sorte de possuir em suas famílias senhoras que sabem fazer a típica “queca” – corruptela de cake, bolo em inglês – quiçá a mais positiva das influências britânicas na cidade. Nos carnavais, Bloco do Sujo e blocos derivados (Olosujo, Bloco – infantil – dos Sujinhos, etc.) são uma marca da cidade, mas não mais pelos mineiros que, direto das minas, iam sujos para as praças e ruas celebrar o Carnaval.

Submetido ainda ao jugo terrorista das mineradoras, o povo de Nova Lima segue em luta. Seja pelo direito à moradia, ocupando parcelas dos latifúndios da Anglo e MBR-Vale, como pelo direito à vida constantemente ameaçada pelas barragens de rejeitos, que se tornaram verdadeiras espadas de Dâmocles sobre seus bairros, recordando os crimes Brumadinho e Mariana. Há pouco mais de um ano, a mesma Honório Bicalho onde Lambari fez sua última reunião e encontrou o martírio, juntamente com outros bairros próximos banhados pelo rio das Velhas, receberam a notícia que uma barragem de rejeitos da mineração de ferro pode se romper, despejando seus resíduos tóxicos no rio e varrendo seus arredores. Ainda hoje caminhonetes com caixas de som circulam o bairro e de tempos em tempos promovem simulações de rompimento das barragens tais como trombetas ensaiando para o Juízo Final, lembrando a todos que as coisas não podem mais continuar como estão.

Por fim não posso deixar de recordar do antigo distrito de Nova Lima, Raposos, ainda é conhecida como Moscou.


Nota do autor:

Antes de iniciar essas breves linhas sobre a obra de meus conterrâneos, gostaria de deixar meus elogios ao colunista Sebastião Illari pelo excelente artigo: “Sal, luta e labuta: Os Salineiros do RN e o Levante Popular Armado de 1935”. Provavelmente se não fosse pela sua escrita morreria sem saber desses feitos heroicos do povo potiguara, assim como não ficaria compelido a escrever acerca dos feitos heroicos do povo mineiro.

Fontes:

Memórias do Cárcere (Volume I) - Graciliano Ramos.

História Militar do Brasil - Nelson Werneck Sodré

Citações do Presidente Mao-Tsetung - Mao Tsetung

Nova Lima, Raça Negra na Formação de sua História - Walter G. Ferreira

O Ardil Anticomunista – Estudo de Caso (1948-1949) - Victor Oliveira Pinto

Mina de Morro Velho: A Extração do Homem. Uma História de Experiência Operária - Yone Grossi

Apresentação Diretoria SindMetal SJC: Estudo De Caso: Sindicato dos Mineiros de Nova Lima 1930-1940 - Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos 

Sal, luta e labuta: Os Salineiros do RN e o Levante Popular Armado de 1935 - Sebastião Illari

A vida de Willian Dias Gomes - Maurício Vinhas de Queiroz, em Revista Problemas

Sites consultados:

http://historianovalima.no.comunidades.net/

https://anovademocracia.com.br/

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