Ecos gritantes dos povos originários: resenha do disco "Resíduo da Alma", da banda Kohva

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A banda Kohva. Foto: Reprodução/Adailton Barros

A banda Kohva fundada em 2017 em Parintins (Amazonas) busca em suas letras trazer uma nova perspectiva acerca das lutas dos povos indígenas na Amazônia. Em suas letras, além de denúncias das condições de vida dos povos, há também o combate à romantização das violências sofridas desde a chegada dos europeus em território americano.

Localizado no extremo leste do estado do Amazonas, o município de Parintins é mundialmente conhecido por sediar o Festival Folclórico onde é travada a competição entre os bois Garantido e Caprichoso. O evento acabou se tornando o principal fator atrativo para a região, fomentando o turismo, a cultura e a economia local em geral. 

Entretanto, vale ressaltar que o underground também tem vez na cidade, e isso é comprovado através de nomes como o Kohva, banda de crossover thrash fundada em 2017 com o propósito de levantar a questão da resistência indígena em suas músicas.

Contando com um disco intitulado “Balas e Flechas” (2018), a banda foi contemplada em primeiro lugar através do inciso III da Lei Aldir Blanc na esfera municipal para gravar seu novo trabalho. 

A partir daí, o trio formado por Aury Lenno (vocal), João Victor (guitarra) e Luciano Ribeiro (baixo) embarcou em direção a Manaus para seu exílio no estúdio HS, e logo dedicaram-se a gravar durante um mês as dez faixas do chamado “Resíduo da Alma”. A bateria ficou sob responsabilidade de Henrique Freitas, conhecido no cenário manauara por sua participação em algumas bandas de metal.

A banda parintinense dedica-se essencialmente em suas músicas defender a causa dos povos originários, através de letras inteligentes que relatam a trajetória de resistência indígena desde o processo de colonização até a contemporaneidade, rompendo com qualquer tentativa de narrativa romântica a respeito do estupro e assassinato sofrido pelas várias nações daqui habitantes.

Capa do álbum Resíduos da Alma. Foto: Reprodução/Aury Leno

A música “Forjado” abre o disco escancarando sobre tal processo marcado por litros de sangue e exploração, com direito a um trecho da letra falado por Aury com tambores ao fundo. Na sequência, “Pífio” traz à tona a reflexão de como o passado pode afetar as inúmeras gerações advindas dessa grande violação retratada erroneamente como miscigenação. 

“Dedo de Deus” coloca o ouvinte em meio a uma caçada humana e a luta pela sobrevivência nativa para não cair nas mãos dos algozes. Seguindo o disco, a faixa título entrega um thrash veloz com sua letra retratando o pertencimento espiritual a esse vasto universo com referências ritualísticas. Fórmula prosseguida em “Resto” que, por sua vez, debate a real preservação da cultura originária em um mundo consumido pelo capital.

Os 46 segundos de “Ruptura” ainda contam com um pig squeal de Aury e levantam novamente o tema do estupro vulgo miscigenação. “Virgem” retrata a destruição da floresta em prol da falsa ideia de progresso, enquanto “Sacrifício” traz a temática da invisibilidade através de metáforas que remetem a temática ritualística. Em “Guerra Santa”, fica evidente o debate sobre a punição escravista como forma de salvação da alma para os colonizadores cristãos. 

O disco é encerrado com “Torso Nu”, faixa mais longa da obra, que traz em seu início um canto e os nomes de nações indígenas. Além de mostrar ao ouvinte denúncias contra o assassinato de líderes a mando do velho Estado e de latifundiários, assim como os vários esforços para manter sua terra e tradições intactas.

“Resíduo da Alma” mostra uma banda determinada a mostrar seu potencial lírico e instrumental, com seus integrantes entregues a construção do disco de maneira visceral. 

Os riffs de João Victor e as linhas de baixo feitas por Luciano entregam a mistura real entre o hardcore e o thrash metal, enquanto o vocal de Aury transita entre o drive e o gutural rasgado. O vocalista também foi responsável pela arte de capa e pelas letras espetaculares. 

A obra é uma prova cabal a quem duvida da existência de um cenário de música extrema no interior Amazônico e abre novos horizontes a quem decide seguir por esses mesmos caminhos, seja na representação indígena ou na construção de um movimento longe da capital amazonense.

Link do Albúm:

Instagram: Banda Kohva

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