Foguetes e Greve Geral: Após mais de uma semana de ataques israelenses, Resistência Palestina se mantém altiva

Manifestante atira pedra em um dos muitos protestos realizados em Ramallah, na Cisjordânia, 18/05/2021. Foto: Issam Rimawi

A ininterrupta ofensiva militar de Israel à Faixa de Gaza, que completa 10 dias consecutivos em 20 de maio, continua a ocorrer em paralelo ao recrudescimento da ocupação no restante dos territórios palestinos. O total de palestinos mortos na Faixa de Gaza já ultrapassou 213, enquanto na Cisjordânia já são 27. 

No entanto, de cabeça erguida, o campo de forças da Resistência Palestina continua a demonstrar sua altivez em múltiplas frentes, seja com foguetes lançados de Gaza, com rebeliões populares diárias por toda a Cisjordânia, ou com a realização de uma vitoriosa greve geral no dia 18. 

O levantamento palestino em curso vem ocorrendo desde meados de abril, junto ao início do mês do Ramadã, sagrado para o Islã, quando tribunais israelenses ameaçaram despejar famílias palestinas das suas casas no bairro de Sheikh Jarrah, em Jerusalém Oriental, abrindo caminho para que colonos israelenses se mudassem. Com isso, protestos foram instigados contra o movimento de Israel de avançar a colonização da Palestina, plano que tem se intensificado na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, assim como na Cidade Velha de Jerusalém, locais em que Israel pretende anexar territórios ocupados, onde vivem colonos.  

'NAKBA EM ANDAMENTO': O TERROR ISRAELENSE EM GAZA 

Até o dia 18/05, 213 palestinos haviam sido mortos em decorrência dos ataques aéreos contra a Faixa de Gaza, incluindo 61 crianças e 36 mulheres. Em adição a isso, estima-se que mais de 72 mil pessoas foram forçadas a se deslocar devido aos bombardeios, e cerca de 2,5 mil tiveram suas casas destruídas. Na noite do dia 18/05, 122 bombas foram lançadas sobre Gaza em apenas 25 minutos.

Ao monopólio de imprensa Al Jazeera, a pesquisadora e escritora palestina Mariam Barghouti declarou: “O que Israel está fazendo é tentar completar o que começou em 1948”, e que "A Nakba está em andamento", em referência ao início da colonização e ocupação sionistas da Palestina, momento conhecido em árabe como Nakba ("a catástrofe"), quando mais de 700 mil palestinos foram expulsos de sua terra. 

As horas de terror durante a noite em que as bombas caíam nos céus de Gaza eram acompanhadas pelo corte total da energia elétrica no território, o que impediu muitos de gravar e compartilhar o horror que viviam. Familiares começaram a trocar mensagens de despedida, dizendo: "Nós já estamos mortos". Campos de refugiados, como o de Jabaliya, no norte de Gaza, foram alvos dos ataques.

No dia 17/05, um ataque aéreo israelense destruiu a única clínica de testagem para Covid-19 em Gaza, junto de outras clínicas e instalações médicas, como as do Crescente Vermelho do Catar, atingidas por um bombardeio no dia 18/05. A Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente (UNRWA) também afirmou que Israel está impedindo a entrada de ajuda humanitária, como do Comitê Internacional da Cruz Vermelha. 

Além disso, a principal via que leva ao maior centro médico de Gaza, o hospital al-Shifa, foi atingida intencionalmente por bombardeios israelenses. Por isso, mesmo quando as equipes de resgate conseguem retirar vítimas dos escombros com vida, muitos feridos sequer conseguem chegar ao hospital.

No dia 15/05, Israel bombardeou deliberadamente o edifício al-Jalaa, na cidade de Gaza, que hospedava 60 apartamentos residenciais e vários escritórios, incluindo os da Associated Press (AP) e da Al Jazeera Media Network. Segundo as duas empresas, o proprietário do prédio, Jawad Mahdi, implorou para que tivessem mais tempo para evacuar o prédio, após Israel notificar com 1 hora de antecedência que ele seria destruído, apesar do edifício ter apenas um elevador funcionando, mas o pedido foi negado. Em um comunicado oficial sobre o ataque, a AP afirmou que “O mundo saberá menos sobre o que está acontecendo em Gaza por causa do que aconteceu hoje”. 

Segundo o Conselho Norueguês para Refugiados, 11 crianças que estavam recebendo aconselhamento e terapia para traumas estão entre as mortas por ataques aéreos israelenses na Faixa de Gaza. A instituição afirmou que elas tinham entre cinco e 15 anos e foram mortas enquanto se abrigavam dentro de suas casas durante os bombardeios. 

Famílias palestinas carregam pertences em Beit Hanoun, no norte da Faixa de Gaza, enquanto fogem dos ataques aéreos israelenses, 13/05/2021. Foto: Mahmud Hams / AFP

FOGUETES DA RESISTÊNCIA ATINGEM REGIÕES INÉDITAS 

Pela primeira vez na história da Resistência Palestina, foguetes disparados da Faixa de Gaza atingiram o norte do território israelense. Os lançamentos de projéteis a partir de Gaza tiveram início com a invasão da mesquita de al-Aqsa, em Jerusalém, pelas forças armadas sionistas. 

Leia também: Insurreição popular contra Israel toma Jerusalém e se espalha por toda Palestina

Desde então, os foguetes disparados por grupos como o Hamas, que governa Gaza, e a Jihad Islâmica atingiram principalmente Tel Aviv – cujo nome antes de ser ocupada é Jaffa –, e cidades como Ascalão e Sderot, no sul do território ocupado, além de assentamentos coloniais em Jerusalém, e teriam deixado mais de 10 israelenses mortos, incluindo 2 crianças. A Resistência desenvolveu técnicas para conseguir penetrar mais foguetes pelo sistema de segurança conhecido como "Domo de Ferro" do que já visto no passado. 

Segundo o jornal israelense The Jerusalem Post, os militares tentaram matar o comandante militar do Hamas, Mohammed Deif, pelo menos duas vezes na última semana e meia desde o início das agressões. Deif, comandante procurado por Israel e pelo USA há 25 anos, já foi alvo de vários atentados contra sua vida pelos serviços de segurança israelenses, que assassinaram sua mulher e seus filhos em 2014. No início de maio, Deif divulgou um comunicado alertando que se Israel prosseguisse com o despejo de famílias palestinas em Sheikh Jarrah, a Resistência lançaria foguetes contra Jerusalém. 

Manifestantes ergueram barricadas e enfrentaram militares israelenses em mais de 200 localidades da Cisjordânia ao longo da última semana. 15/05/2021. Foto: Alaa Badarneh/EPA

MILHÕES ADEREM À GREVE GERAL!

Em 18/05, milhões de palestinos na Cisjordânia, em Jerusalém Oriental e nos territórios ocupados (em "Israel") emitiram uma declaração conjunta e um apelo unificado à greve geral. O Comitê de Acompanhamento da greve afirmou que o objetivo da ação era protestar contra "a agressão israelense contra nosso povo na Faixa de Gaza, em Jerusalém, na Mesquita al-Aqsa e no bairro de Sheikh Jarrah".

Participaram da Greve Karameh – que significa "Dignidade" em árabe – trabalhadores palestinos de escolas, bancos, empresas, lojas, instituições oficiais e da construção civil. Para se obter uma noção da proporção desse evento: estima-se haver cerca de 1,93 milhão de palestinos em Israel (um quinto da população da potência ocupante), e outros três milhões na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental. 

O objetivo central, de demonstrar uma unidade sólida do povo palestino, foi alcançada, fazendo se concretizar a palavra de ordem popular que diz: Do rio ao mar a Palestina será livre!, em referência ao território palestino que se estende desde o mar Mediterrâneo, na costa da Faixa de Gaza, até o rio Jordão, fazendo fronteira com o reino da Jordânia. 

Ouvido pelo portal Middle East Eye, Dareen Tatour, palestino da cidade de Reina, afirmou que a greve geral evidenciou que "os hospitais israelenses são administrados por uma grande porcentagem de médicos palestinos e que a economia israelense depende dos trabalhadores palestinos". Dareen disse que, apesar da possibilidade de muitos trabalhadores palestinos serem demitidos por aderirem à greve, "é tudo o que temos – greves, protestos e manifestações, e o mais importante de tudo, a vontade de enfrentar a ocupação”.

Mercado fechado para a greve geral palestina do dia 18/05/2021. Foto: Alaa Badarneh/EPA

MASSAS PALESTINAS ENCARAM A OCUPAÇÃO ISRAELENSE

Após semanas de protestos ininterruptos desde meados de abril, e apesar da brutal repressão lançada pelo colonialismo sionista e dos ataques dos colonos, as manifestações nos territórios ocupados e na Cisjordânia não cessam. O dia 18/05, dia da greve geral, foi marcado por protestos combativos e por enfrentamentos com as forças israelenses. 

No dia 18/05, quatro palestinos foram assassinados a tiros por forças israelenses na Cisjordânia, totalizando 27 o número de civis palestinos mortos na região. 

Na região de Ramallah, a maior cidade da Cisjordânia, manifestantes entoavam Vamos voltar para Haifa, Jaffa, Ramle e Lydd!, em referência a cidades ocupadas. 

Diariamente, enormes multidões têm se reunido em Ramallah, Nablus, Belém, Hebron, Jenin e Tulkum, dentre outras cidades da Cisjordânia, para protestar contra as agressões sionistas, e especialmente o massacre em curso em Gaza. Já nos territórios "israelenses" (anexados), um levantamento da Al Jazeera registrou protestos palestinos nas 23 seguintes cidades ocupadas: Nazaré, Shifa Amr, Umm al-Fahm, Ain Mahal, Deir Hanna, Tamra, Majd al-Krum, Arrabah, Haifa, Bat Yam, Arrabat al-Batouf, Baqa al-Gharbia, Jafa, Lod, Ramla, Jaljuliya, Sakhnin, Kufr Manda, Kufr Kanna, Rahat, Deir al-Assad, Qalansiwa e Acre.

As forças sionistas fazem uso indiscriminado de gás lacrimogêneo, canhões de água e de skunk water (água de gambá) – arma de punição coletiva que possui cheiro pútrido –, balas vivas e revestidas de borracha, espancamentos com cassetetes e uma série de outras armas que produzem centenas de feridos. Além disso, tem sido comum que colonos israelenses se juntem aos soldados e policiais para atacar manifestantes, muitas vezes atirando com armas de fogo contra eles. 

Em resposta, as massas palestinas vêm erguendo enormes barricadas na rua com pneus em chamas, lixeiras e outros objetos da rua, para defenderem a si mesmos e aos seus bairros da violência brutal. Desarmadas, elas atiram pedras e coquetéis molotov, e fazem uso de armas improvisadas, como as fundas – um tipo de arma usada para lançar pedras, utilizada por Davi para derrotar Golias, na história bíblica. Símbolos da ocupação, como viaturas policiais e postos de controle, foram amplamente atacados pelas massas. 

Manifestante atira pedras contra forças israelenses com uma funda, coberto por uma bandeira palestina, na Cisjordânia ocupada, 16/05/2021. Foto: Reuters

Em Sheikh Jarrah, Jerusalém Oriental, onde famílias enfrentam o despejo de suas casas desde 1950, os militares genocidas bloquearam as entradas para o bairro com barricadas de concreto e utilizaram canhões de água de gambá para dispersar manifestantes no dia 18/05. Segundo palestinos que vivem no bairro, eles têm sido importunados todos os dias por colonos e militares israelenses, impedidos de ir e vir, e apenas outros colonos têm entrado e saído com liberdade. 

Também foram relatados confrontos entre jovens manifestantes e agentes de Israel na entrada do Portão de Damasco para a Cidade Velha de Jerusalém.

Até o momento, há 120 processos judiciais registrados contra palestinos e nenhum processo contra israelenses, apesar de mais de 300 deles terem sido detidos por atos de violência contra palestinos, evidenciando a impunidade racista de Israel. Até os colonos israelenses que executaram a tiros um palestino em Lydd foram libertados, embora haja filmagens do crime. 

Por conta disso, palestinos em Israel tiveram que formar comitês legais de emergência para ajudar os detidos durante as prisões e nos interrogatórios, e também para ajudar a proteger os palestinos que vivem em cidades ocupadas e de demografia mista (com grande população de colonos) de ataques por israelenses. 

Nessas cidades, ocorreram dezenas de linchamentos de cidadãos palestinos e episódios de intensa brutalidade colonial. Imagens de Akka mostraram um grupo de israelenses gritando "morte aos árabes" em hebraico. Em Bat Yam, um subúrbio de Tel Aviv, um palestino foi retirado de seu carro e linchado durante uma transmissão ao vivo em um canal de televisão israelense. Segundo o Haaretz, grupos de extrema-direita israelenses vêm atacando lojas e empreendimentos de palestinos, e pichando os prédios com slogans racistas. Vídeos divulgados na internet mostram uma família tentando repelir a invasão de um grupo de colonos à sua casa, depois, a polícia israelense aparece e se junta a eles para agredir os moradores. Em Lydd, uma mesquita e uma sinagoga foram incendiadas, e um toque de recolher foi imposto após um palestino ser executado e o prefeito considerar a cidade em "situação de guerra civil". 

A situação chegou a tal ponto que grupos capitulacionistas, como o Fatah e a Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP, ou PFLP na sigla em inglês), e outros aliados a eles, chegaram a marchar juntos perto de Ramallah, na Cisjordânia, cantando em apoio à Faixa de Gaza e aos palestinos em Jerusalém Oriental. Os últimos acontecimentos evidenciam que esses grupos, que nas últimas décadas "depuseram as armas" e agem em conluio com Israel para "administrar a segurança" nos seus territórios, estão sendo pressionados pelas massas a abandonar o pacifismo, e alterar sua posição submissa à ocupação e ao imperialismo ianque imediatamente.

Pichação diz: "Israel é um projeto colonial", na cidade de Haifa, Israel. Foto: Adalah Justice Project

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