SC: Estudantes indígenas da UFSC lançam três livros

Capa do livro Ações e Saberes Guarani, Kaingang e Laklãnõ-Xokleng Em Foco. Foto: Reprodução

Estudantes indígenas das etnias Guarani, Xokleng e Kaingang que cursaram a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) acabam de transformar seus TCC (Trabalhos de Conclusão de Curso) em livros e os lançaram em abril passado.

Com organização/orientação/apoio da sua equipe de professores, a coleção de obras foi apresentada num evento online e se denominou Ações e Saberes Guarani, Kaingang e Laklãnõ-Xokleng Em Foco. Foi publicada pelas Edições do Bosque (série didática Instituto Brasil Plural) tanto em  formato comum, impresso em papel, quanto em formato digital. Neste último, os 3  e-books podem ser acessados gratuitamente através do site da Universidade.

Os autores foram alunos da primeira turma diplomada em Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica em 2015 e provenientes dos estados de MS, ES, RJ, SC e RS.

CALENDÁRIO COSMOLÓGICO

Os temas abordados, tidos pela equipe de professores como abrangentes e interessantes, variaram desde plantas medicinais, formação corporal, brincadeiras, viuvez, infância, gestação e parto, lavoura de milho, questão do lixo, até estudos sobre simbologia de grafismos e sobre cosmologia e constelações.

Como exemplo pode-se citar os irmãos guaranis Geraldo Moreira e Wanderlei Cardoso Moreira, da aldeia de Biguaçu (SC), que escreveram Calendário Cosmológico: Os símbolos e as principais constelações na visão guarani.

Sobre tal trabalho o professor Bessa Freire comentou o seguinte:“Os Guarani para verem a terra, olham o céu. Com a leitura do céu, elaboram o calendário cosmológico chamado Apyka Miri, que conta o tempo, marca o clima, a chegada da chuva, a época de extrair o mel e de semear, o tempo da colheita e de fazer artesanato, a duração das marés, a caça e a pesca, tudo em sintonia com Nhanderu Tenonde – o Pai Criador e com Nhamandu – o Pai Sol. A astronomia e a religião é que dão suporte para a agricultura guarani, que tem o pé na terra e o olho no céu.

Foi essa leitura que Geraldo e Wanderlei fizeram, trabalhando nos últimos anos para reconstituir uma versão do calendário guarani. Orientados por Wherá Tupã (Luminoso Tupã, um dos deuses da tribo e também nome do idoso pajé da aldeia) registraram o conhecimento oral antigo, observaram as principais constelações, descreveram seus significados para as atividades cotidianas e construíram uma réplica do relógio guarani, desenvolvendo uma metodologia para ensinar as crianças da aldeia, que desta forma aprendem mais facilmente. O (astrônomo e físico) Germano Bruno confirma:

‘Para o ensino da Astronomia às crianças, o céu guarani é um auxiliar precioso. Quando elas aprendem as constelações indígenas – da Anta, do Veado, da Ema, da Cobra, da Canoa, do Homem Velho, etc – a versão ocidental fica mais fácil de ensinar. Não precisa forçar a imaginação, você olha e enxerga. Por que? Porque os índios não apenas juntam as estrelas brilhantes, mas formam as figuras com as manchas claras e escuras da Via Láctea. Assim, eles vêem mesmo determinado animal no céu. Como aquela brincadeira que se faz com as crianças de enxergar desenhos nas nuvens.’

Os dois (estudantes) concludentes esclarecem que ‘o pensamento guarani não é estático, nem imutável. As constelações sazonais oferecem uma enorme diversidade de interpretação. Para acessar essa cosmologia é preciso considerar a localização física e geográfica de cada grupo indígena, como os que habitam o litoral e o interior ou diferentes latitudes.” (Artigo Assim na Terra como no Céu Guarani, professor José Ribamar Bessa Freire, 8 de fevereiro de 2015, Diário do Amazonas).

MORTO A PAULADAS

Um dos alunos-autores dos livros, Marcondes Namblá, que escreveu o trabalho Infância Laklãnõ:Ensaio Preliminar teve sua memória homenageada no lançamento, pois faleceu em 2018, vítima de um cruel assassinato.

O índio da etnia Xokleng, líder tribal e professor na escolinha da sua aldeia na Terra Indígena Ibirama, no Vale do Itajaí, foi morto a pauladas em janeiro de 2018 quando vendia picolés numa rua da cidade catarinense de Penha (não muito longe do parque Beto Carrero).

Para professores da UFSC, “Marcondes fazia parte de uma geração que vislumbrou na universidade um lugar para compreender melhor as dinâmicas políticas, econômicas e sociais que, ao longo da história, atingiram seu povo de forma injusta e sangrenta”.

No dia 24 de junho de 2019, o assassino Gilmar César de Lima, de 24 anos, foi condenado a 21 anos e 4 meses de prisão, em regime fechado. Para o Júri, Lima alegou que na madrugada do ano novo de 2018 Marcondes teria provocado o seu cachorro e ele não aceitou aquilo. A família e amigos de Marcondes afirmam que ele gostava de animais e negam tal justificativa.

Entidades como o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) acreditam que a morte foi encomendada “por gente interessada em realizar rinhas de galos e outras apostas e promoções deste tipo dentro da área dos Xokleng, coisa que era combatida pelo professor Marcondes.”

Conforme testemunhas relataram à sua esposa, horas antes de ser assassinado lhe ofereceram dinheiro, em Penha, para que ele liberasse as rinhas, “mas pela derradeira vez, ele se negou a receber”.   

NÃO GENTE? MENOS GENTE?

A Apresentação dos livros foi feita pela antropóloga Maria Dorothea Post Darella, da UFSC, uma das coordenadoras do curso Licenciatura Indígena. Eis o início de seu texto:

“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem (Bertold Brecht).

O rio, tomando Bertold Brecht, é aqui sinalizado e compreendido como sinônimo das populações indígenas deste país desde o século XVI, um sem número de vezes talhadas como hereges, não gente ou menos gente, insolentes, violentas, incultas, rebeldes, insubordinadas, preguiçosas, dentre outras adjetivações pejorativas e insanas. Populações entendidas como inúteis à sociedade nacional, pois, desde o princípio, empecilho à exploração da natureza-riqueza e ao crescimento econômico desde o Brasil Colonia (1500-1822), passando pelo Brasil Império (1822-1889), persistindo no Brasil República (1889 em diante).” 

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