França: Muçulmanos são os que mais morrem durante a pandemia da Covid-19

Voluntários da associação Tahara enterram o caixão de Abukar Abdulahi Cabi, 38 anos, um refugiado do novo coronavírus (COVID-19), durante uma cerimônia de enterro em um cemitério em La Courneuve, perto de Paris, França, 17 de maio de 2021. Foto: Benoit Tessier

O monopólio de imprensa Reuters divulgou, no dia 16 de junho, uma matéria em que revela que a maior taxa de morte por Covid-19 são de muçulmanos. Isso se deve ao fato de que a maioria dos muçulmanos na França trabalham em sub-empregos,, como o setor de serviços. Entre os motivos estão também a necessidade da utilização do transporte público, a convivência em residências lotadas, entre outros.

De acordo com um estudo baseado em dados oficiais, as mortes em 2020 entre os residentes franceses nascidos no norte da África muçulmana foram duas vezes maior do que entre as pessoas nascidas na França.

Tal dado não é oferecido pelo próprio governo, que expressamente proíbe a coleta de dados com base na religião e etnia. A França possui a maior população muçulmana da União Europeia.

"Eles foram os primeiros a pagar um preço pesado", disse M'Hammed Henniche, chefe da União das Associações Muçulmanas em Seine-Saint-Denis, uma região perto de Paris com uma grande população imigrante.

O que os dados oficiais não revelam, os cemitérios escancaram

As pessoas enterradas de acordo com os ritos religiosos muçulmanos são normalmente colocadas em seções especialmente designadas do cemitério, onde as sepulturas são alinhadas para que a pessoa morta de frente para Meca, o local mais sagrado do Islã.

De acordo com números compilados pela Reuters, de todos os 14 cemitérios de Val-de-Marne, em 2020 houve 1.411 enterros muçulmanos, contra 626 no ano anterior, antes da pandemia. Isso representa um aumento de 125%, comparado a um aumento de 34% para os enterros de todas as religiões naquela região.

Pesquisadores também usaram dados sobre residentes franceses nascidos no exterior para construir um quadro do impacto da Covid-19 sobre as “minorias étnicas”. Isso mostra que o excesso de mortes entre os residentes franceses nascidos fora da França aumentou 17% em 2020, contra 8% para os residentes nascidos na França.

Seine-Saint-Denis, a região da França continental com o maior número de residentes não nascidos na França, teve um aumento de 21,8% no excesso de mortalidade de 2019 a 2020, mais do dobro do aumento para a França como um todo.

O excesso de mortes entre os residentes franceses de maioria muçulmanos do norte da África foi 2,6 vezes maior, e entre os da África subsaariana 4,5 vezes maior, do que entre os nascidos na França.

‘Há uma espécie de gosto amargo, de injustiça’

Em Seine-Saint-Denis, a alta mortalidade é especialmente marcante porque mesmo contando com sua população mais jovem do que a média de todo país, apresentou uma taxa de mortalidade menor do que a da França em geral.

Mas a região apresenta um desempenho pior do que a média em indicadores sócio-econômicos. Os dados que mostram a porcentagem dos lares superlotados, são um exemplo. Nessa região de maioria muçulmana, a taxa é de 20%. A nível nacional, a porcentagem de lares superlotados é de 4,9% em nível nacional. O salário médio por hora ali é de 13,93 euros, quase 1,5 euros (cerca de 10 reais a menos) a menos do que o valor nacional.

Henniche, chefe do Sindicato das Associações Muçulmanas da região, disse que sentiu pela primeira vez o impacto da Covid-19 em sua comunidade quando começou a receber vários telefonemas de famílias em busca de ajuda para enterrar seus mortos.

"Não é porque eles são muçulmanos", disse ele sobre a taxa de mortalidade. "É porque eles pertencem às classes sociais menos privilegiadas".

”Se alguém é um coletor de lixo, ou uma faxineira, ou um caixa, eles não podem trabalhar de casa. Essas pessoas têm que sair, usar o transporte público", disse ele.

"Há uma espécie de gosto amargo, de injustiça". Há este sentimento: 'Por que eu?' e 'Por que sempre nós?'".

Perseguição e opressão contra muçulmanos e imigrantes

A perseguição e opressão contra os povos muçulmanos e imigrantes na França já é de praxe com o ultrarreacionário imperialista Emmanuel Macron, o senado, e até mesmo os candidatos ditos de “oposição” a Macron, como Marine Le Pen, deputada extrema-direitista cotada para concorrer ao novo ciclo da farsa eleitoral francesa para a presidência em 2022.

Isso fica expresso em projetos de lei que foram propostos em 2021 (e muitos aprovados), como um que reforça a “supervisão” (investigação e repressão) de mesquitas, escolas e clubes esportivos para proteger a França dos “islamistas radicais” e para promover o respeito aos “valores franceses”.

Além disso, houve a proibição ampliada de símbolos religiosos e roupas contra o dito “separatismo islamista”.

Entretanto, esse mesmo projeto de lei (já aprovado), foi alterado, aprofundando seu caráter chauvinista, mais tarde neste mesmo ano, com a proposta de proibição do hijab. O véu é utilizado pelas mulheres muçulmanas, e pode vir a ser proibido para mulheres menores de 18 em locais públicos e inclusive para pais que acompanham crianças em passeios escolares, durante competições esportivas nacionais, bem como o traje de banho de corpo inteiro, conhecido como o burkini, nas piscinas.

Outras medidas surgidas recentemente incluem a proibição de práticas religiosas em universidades públicas e outras instituições de ensino superior, com senadores dando o exemplo de orações em corredores e outros "lugares inapropriados".

Além disso, de acordo com as novas medidas, as autoridades de imigração teriam o direito de recusar a renovação de cartões de residência no país de pessoas que parecessem ter rejeitado os “princípios republicanos”, os serviços sociais poderiam reter os benefícios familiares no caso de muitas faltas escolares (sendo que, por sua condição proletária ou semi-proletária, muitas crianças imigrantes têm de trabalhar), e os prefeitos teriam o direito de proibir bandeiras estrangeiras durante casamentos ou uniões civis.

Tudo isso se dá devido ao peso que os muçulmanos, principalmente os imigrantes, têm nas massas populares mais exploradas. Os muçulmanos (cuja grande parte foi expulsa de seus países de origem por conta de guerras de rapina travadas por países imperialistas como a própria França) conformam, juntamente com os operários nascidos na França, a classe operária nos países imperialistas.

Os imigrantes de religião islâmica, em especial, são o setor mais profundo, mais aviltado e oprimido. A iminência dos muçulmanos e imigrantes desatarem ondas de rebeliões por direitos básicos e de se unirem às organizações proletárias constituídas ao longo da luta popular revolucionária nesse país coloca em estado de alerta os imperialistas e reacionários franceses.

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