Editorial semanal – Intervalo entre guerras

Na eventualidade de uma explosão da luta social, teríamos sem dúvida nenhuma o confronto nas ruas entre o movimento popular e milícias (sem aspas) fascistas. Foto: Banco de Dados AND

A única certeza do fracassado 7 de setembro bolsonarista, dizíamos em nosso último editorial, é que a maior crise institucional e militar da nova república até aqui apenas prepara condições para a eclosão da próxima e da próxima. De fato, aqueles que acreditavam que o capitão do mato teria já forças para desfechar um golpe de Estado estavam tão equivocados como os que dizem, agora, que tudo passou e que as hostes de extrema-direita já constam nos anais da história brasileira como inofensivos representantes da chacota eterna.

Vamos aos primeiros: é verdade que Bolsonaro emula o fascismo, mas o Brasil não é a Itália daqueles idos, nem ele é Mussolini. Sempre erram e errarão aqueles que tratam a história com base em transplantações mecânicas e anacrônicas, ignorando o seu curso concreto. Vejamos.

1) Bolsonaro é uma espécie de anti-líder carismático, alguém que já demonstrou reiteradamente ser um inepto escrevendo, falando ou trabalhando, embora possua alguma esperteza política que os trinta anos de parlamento o adestrou. Após dois meses de convocação sistemática e milhões de reais queimados, ele falou 7 minutos em Brasília, e, com grande esforço, 19 minutos em São Paulo. Assinalar isto não é menosprezar o seu perigo, mas registrar características que são decisivas na política quando se trata não da disputa pelo governo – coisa que até figuras minúsculas como Café Filho e Michel Temer conseguiram – mas pelo poder.

2) Bolsonaro não possui um sistema articulado de ideias e nem um aparato de ideólogos militantes. Bolsonaro não conseguiu nem sequer estruturar um partido político. Esta afirmação não trai nenhum intelectualismo, mas guarda, pelo contrário, bastante objetividade: ninguém nunca venceu em política sem contar com tal aparato. Não à toa, o que culminou no golpe de 64 foi um processo de preparação e formação política, financiamento de candidaturas e outras atividades, como parte da essencial disputa pela opinião pública, mediante milhões de dólares norte-americanos injetados em institutos de “pesquisa social” como o IPES e o IBAD, para não falar do papel desempenhado pelos monopólios de imprensa. Olhado mais de perto, aquele evento foi tudo, menos uma mera quartelada.

3) Exceptuando seu discurso, especialmente direcionado ao campesinato, Bolsonaro não acena com nenhuma política integral de cunho corporativo que lhe assegure o apoio dos pobres – ao contrário do fascismo clássico, que se valeu sempre e em toda parte do discurso “anti-ricos”.

4) Como um condicionante externo, desde a vitória acachapante do Exército Vermelho na II Guerra Mundial, o fascismo escancarado não tem conseguido mais levantar a cabeça. Claro que houve os golpes militares e os regimes mais atrozes, em todo o Terceiro Mundo, financiados pela CIA na sua luta contra as revoluções democráticas, mas mesmo este contexto internacional está hoje sensivelmente alterado e, como sabemos, são medidas extremas para momentos extremos (não sendo, ainda, o caso do Brasil); hoje, ademais, dado que a história mundial tem adentrado numa nova época de revoluções dentro da qual, aos reacionários, é preciso manejar a contrarrevolução com bastante cautela para não atiçar a resistência popular. No seu quintal, o imperialismo ianque e as forças armadas “nacionais” (títeres) desejam, acima de tudo, estabilidade e legitimidade para o seu sistema de exploração, e resta hoje bastante claro para os setores mais arejados da reação que, para isso, se presta muito mais uma caricatura de regime liberal-democrático, com eleições periódicas e fantoches confiáveis.

Tudo isto significa que, para usar a expressão de um próprio bolsonarista, o 7 de setembro foi o “game over” da extrema-direita brasileira? Não, não significa. Ainda que fosse afastado do governo hoje, Bolsonaro expressa a existência de um movimento de massas radicalizado e, no fim das contas, da crise sem precedentes que assola o desacreditado sistema político brasileiro. O fascismo, ainda que minoritário, nunca é inofensivo. Como cão raivoso da reação, é cultivado por ela, como tropa de choque de defesa da ordem, a ser lançado contra as massas populares no momento em que estas se alcem de forma mais belicosa na defesa dos seus interesses histórico-universais. Na eventualidade, sempre possível e latente, de uma explosão da luta social, teríamos sem dúvida nenhuma o confronto nas ruas entre o movimento popular e estas milícias (sem aspas) fascistas, que contam com a simpatia – para dizer o mínimo – das forças policiais. Situação que fará destes futuros levantamentos algo bastante diferente do que vimos em junho de 2013. Por isso, o núcleo do establishment não vai até o impeachment e a prisão de Bolsonaro: a ele, não interessa que o cão raivoso passe a administrar a casa grande, mas tampouco interessa liquidar o guardião da sua propriedade.

Bolsonaro, no fim das contas, conseguiu ganhar tempo para voltar a tentar de novo mais à frente. E ele, sem dúvida, o fará. Às forças democráticas e populares, cabe robustecer as suas fileiras, organizar-se em todos os terrenos e responder medida por medida às provocações reacionárias. Seria um erro e um crime marchar a reboque da direita civilizada - frente a qual capitula o oportunismo -, traidora por natureza e cujo programa econômico é o mesmo de Paulo Guedes & Cia. Aos operários, camponeses e intelectuais honestos deve animar o sentido da urgência. A história registra que, uma vez que a hora decisiva chega, é tarde para preparar-se.

Ouça já o Editorial Semanal de 14 de setembro de 2021:

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