Editorial semanal - A tragédia brasileira em números

Nível de pobreza da população brasileira atinge patamares alarmantes. Foto: Reprodução

No último dia 30, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou os resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (PNAD) referente ao terceiro trimestre de 2021. Embora seja recomendado olhar com prudência os dados oficiais (ainda mais no contexto da pandemia, em que a sua coleta passou a ser feita remotamente), estes são os números disponíveis e eles revelam o abismo em que está mergulhada a maior parte da população brasileira.

De partida, constata-se que o Brasil possui 80,8% da população em idade de trabalhar (acima de 14 anos). Desta, 61,1% são adultos entre 25 e 59 anos. Ao contrário do apregoado pelos defensores da “Reforma da Previdência”, o Brasil ainda está longe do envelhecimento populacional característico dos países do chamado primeiro mundo e, pelo contrário, poderia se beneficiar do que se designa de “janela demográfica”, isto é, um período de transição em que a maior parte da população de um país está em franca idade produtiva. Ocorre que o desemprego, a precarização das relações de trabalho, a depredação do ensino público e outras mazelas mais impedem o País de se beneficiar disto. Nossa crise, portanto, não deriva de um problema demográfico, como dizem os arautos do darwinismo social – como o torpe Paulo Guedes, que chega a lamentar o aumento da expectativa de vida dos brasileiros –, e sim, da própria estrutura do capitalismo burocrático.

A taxa de desocupação foi estimada em 12,6%, o que equivale a 13,5 milhões de pessoas. É interessante frisar que, desde há muito, a estatística oficial tem priorizado a dicotomia “ocupados x desocupados”, ao invés de “empregados x desempregados”, pois a primeira inclui a massa de subempregados e “informais” – ou seja, mascara o índice real de desemprego. Não por acaso, descendo aos detalhes, percebe-se que, dentre a população “ocupada”, 27,4% constitui-se de “trabalhadores por conta própria”. Estes não são, naturalmente, os “empreendedores” ou “inovadores” tão louvados pela imprensa econômica burguesa, mas os milhões de precarizados, a camada mais explorada de nosso proletariado e semiproletariado, que trabalha extensas horas sem direito às mínimas garantias trabalhistas e segurança laboral. Em suma, um terço da força de trabalho ocupada encontra-se em situação de marginalidade latente.

Quando se olha, no outro espectro, o perfil da população desocupada, percebe-se que ela atinge, sobretudo, os mais jovens (31% têm entre 18 a 24 anos e 35,7% de 25 a 39 anos), as mulheres (54,8%) e as pessoas com menor nível de instrução (enquanto pessoas com ensino superior completo respondem por 10,4% dos desocupados, pessoas que possuem apenas o ensino médio são 41% do mesmo grupo. Notem: de todo modo, que 10,4% de pessoas com formação superior completa estejam nesta situação já é, por si só, um dado estarrecedor).

A remuneração destes trabalhadores tem caído sem cessar. Neste trimestre, o rendimento mensal médio real de todos os trabalhos foi estimado em R$ 2.459, menor tanto em relação ao segundo trimestre deste ano (R$ 2.562) quanto em relação ao mesmo trimestre do ano anterior (R$ 2.766). Claro que esta média é impulsionada por uma ínfima minoria que recebe super-salários, tanto no setor público quanto no privado, mas ela já permite notar a queda do nível de renda, quadro que se torna ainda mais dramático se confrontado com a alta inflacionária, sobretudo dos alimentos, que golpeia os lares mais pobres – como se sabe, o peso do gasto com alimentos é muito maior entre as famílias que ganham até dois mínimos. Na ponta deste processo, temos o retorno do fogão à lenha e do mercado de ossos.

Mas, tal qual o Inferno de Dante, há ainda círculos inferiores a este na escala da degradação econômico-social. Segundo o IBGE, 38% das pessoas em idade de trabalhar – 65,5 milhões de pessoas – foram classificadas como estando fora da força de trabalho. Estes são os desalentados, pessoas que desistiram de procurar trabalho de modo ativo e constituem a camada mais profunda do exército de reserva. 65,5 milhões de pessoas – ou 30% da população do País – à beira do precipício! Este segmento é constituído por 64,8% de mulheres. Vê-se, assim, a hipocrisia do discurso liberal sobre “empoderamento” ou “protagonismo” feminino: de fato, a burguesia empurra milhões de mulheres proletárias e camponesas para a escravidão doméstica, para o embrutecimento e o pauperismo mais odiosos, torna-as dependentes do homem (seja na figura do marido, seja na figura de um cheque governamental), quando não, para a prostituição e a marginalidade. Também não é difícil constatar que aí está inserida boa parte das populações faveladas, assassinadas aos montes pela política antidrogas hipócrita e genocida levada a cabo pelo velho Estado reacionário.

Qual conclusão devemos tirar disso?

Diante desta hecatombe social, que ocorre bem diante dos nossos olhos, o pequeno-burguês, representado pela opinião pública pseudossocialista, se alarma e reclama medidas urgentes que amenizem a situação das massas; acena com o “caos social” como um fantasma, contra o qual apela ao “bom senso” ou mesmo à “piedade” dos senhores. Estes, por sua vez, não veem problemas em atirar migalhas na forma de vouchers ao populacho faminto, ou meter-lhe baionetas e estados de sítio se se revolta. O proletariado com consciência de classe não lamenta as crises: sabendo-as inevitáveis, e insolúveis, nos marcos da dominação econômica e política da burguesia e dos latifundiários (a nível mundial: do imperialismo), vê na luta contra seus efeitos a possibilidade de agrupar e reunir atrás de si toda a massa de famintos e explorados. Parte desse nível de consciência, acessível e palpável, para chegar até as suas causas. Aponta que a eterna promessa da conciliação de classes, feita pelos politiqueiros das classes dominantes, nos trouxe até aqui. Ressalta, em suma, a necessidade de rechaçar esta ilusão e trilhar, com a maior firmeza, o caminho oposto.

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Em todo esse tempo lutamos e trouxemos às claras as entranhas e maquinações do velho Estado brasileiro e das suas classes dominantes lacaias do imperialismo, em particular a atuação vil do latifúndio em nosso país.

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