Após mais de cinco anos de espera, começa o julgamento dos responsáveis pelo Massacre de Caarapó

Reproduzimos abaixo uma nota emitida pelo Comitê de Apoio à Luta dos Povos Indígenas (Calpi) sobre o julgamento dos responsáveis pelo Massacre de Caarapó, ocorrido em 2016. O crime ocorreu a mando de latifundiários da região de Dourados e contou ainda com a participação de muitos deles. O julgamento demarca mais uma etapa da resistência e busca por justiça empreendida pelos Guarani Kaiowá e o Calpi convoca a todos a somarem-se na luta pela punição dos assassinos.

Com mais de cinco anos de espera para iniciar os julgamentos e muitas lutas cobrando justiça, os Guarani Kaiowá, do Mato Grosso do Sul (MS), entraram em um novo momento de sua luta para punir os culpados pelo Massacre de Caarapó. No dia 14 de Julho de 2016, latifundiários de Caarapó (MS) e região, organizaram e executaram o que ficou marcado como o Massacre de Caarapó, sendo este o cenário do assassinato do agente de saúde Clodiodi de Souza e que também deixou 13 indígenas feridos, dentre eles uma criança de 12 anos que foi baleada.

Durante esses mais de cinco anos os Guarani Kaiowá e apoiadores buscaram manter a memória do guerreiro Clodiodi de Souza viva, com a realização de atos organizados dentro dos tekohás e intervenções dentro das universidades denunciando os crimes cometidos pelos latifundiários Em meio a essa intensa batalha,  Clodiodi de Souza tornou-se um símbolo que jamais será esquecido, pois sua morte é a marca da resistência e o recado de que os povos originários não aceitaram deixar impune a morte dos seus. O guerreiro Kunumi Poty Verá (nome indígena de Clodiodi) foi enterrado no território em que foi assassinado com dois tiros e o tekohá foi batizado com seu nome. 

Dentre os feridos no Massacre de Caarapó, alguns deles ainda possuem as balas alojadas em seus corpos. O professor Jesus de Souza foi um deles. No ano passado (2021), após pegar Covid-19, o professor e irmão de Clodiodi também faleceu, tornando-se outra vítima fatal do Massacre de Caarapó (MS), uma vez que sua comorbidade foi em decorrência da bala ainda alojada em seu corpo. Outro desdobramento do massacre foi a prisão da liderança Guarani Kaiowá Leonardo de Souza, pai de Clodiodi e Jesus, ele foi acusado de reagir com violência contra policiais que chegaram ao local depois do ataque a seu povo.

Diante de toda essa trajetória de lutas, no dia 12 de janeiro de 2022, cerca de 130 indígenas e mais apoiadores protestaram em frente à sede da Justiça Federal, em Dourados (MS), com o objetivo de impulsionar o julgamento ordinário dos fatos ocorridos no Massacre de Caarapó. Gritando as palavras de ordem: “Clodiodi Vive! Leonardo Livre!”, “Demarcação já!”, "Punição imediata aos culpados do Massacre de Caarapó!” e rezas tradicionais; o protesto seguiu firme durante todo o momento em que as vítimas e testemunhas estavam sendo ouvidas. 

Assim, com o início ordinário do julgamento na sede da Justiça Federal em Dourados (MS), os povos Guarani Kaiowá se mobilizaram reivindicando a punição à quadrilha agressora que está no banco dos réus. Oficialmente são acusados cinco latifundiários que participaram diretamente do genocídio indígena. 

“Em entrevista ao Cimi, uma liderança indígena relatou o ataque: Às sete da manhã, começamos a avistar carro chegando […] Vinha mais de duzentos carros. Fizeram uma divisão, dois grupos: um veio de um lado, pela divisa da aldeia, fizeram um cerco na gente. Do outro lado, veio pá cavadeira e arrebentou a cerca, e começaram a entrar pelo campo. Vieram atirando, atirando, tiroteio feio mesmo, arma pesada. A gente foi empurrado de volta pra aldeia. Eles continuaram atrás e entraram na reserva, atacando. No meio desse ataque o filho da nossa liderança caiu morto, as pessoas foram feridas. Estamos cercados aqui. Tá tudo rodeado, os fazendeiros estão em volta. Não podemos nem entrar nem sair.”

Os indígenas e apoiadores levantaram faixas, cartazes e bandeiras cobrando justiça para Clodiodi e todas as vítimas do Massacre de Caarapó,  além da tradicional reza Guarani Kaiowá defronte ao policiamento que acompanhava os protestos. Uma viatura da polícia federal com dois agentes, bem como duas viaturas da Guarda Municipal de Dourados (MS) com sete agentes e um servidor do Tribunal Regional Federal da 3º região acompanharam todo o ato.

O julgamento

As vítimas e testemunhas de acusação se apresentaram na sede da Justiça Federal em Dourados (MS), na manhã de 12/01. Foram ouvidos pelo menos 10 depoimentos, sendo que um deles foi de jovem que à época dos fatos tinha 12 anos de idade. O depoimento do indígena, hoje com 17 anos, ocorreu de forma distinta dos demais. Todos que tiveram seus depoimentos colhidos nesta data vieram da região onde ocorreu o Massacre, tendo o apoio do Ministério Público Federal (MPF) e do Conselho Indigenista Missionário (CIMI). 

Além dos depoimentos das vítimas e testemunhas também estão anexos ao processo inúmeras fotos e vídeos, bem como muitas armas e munições que foram apreendidas e entregue à polícia, ainda, constam documentos médicos que comprovam que pelo menos 13 feridos foram internados no hospital vítimas do Massacre. Mesmo com a tentativa de adiar ainda mais o julgamento, por manobras feitas pelos advogados dos fazendeiros, sendo que conseguiram atrasar em um dia o processo, manteve-se no dia 12 e, posteriormente, as audiências irão ocorrer durante todo o mês de janeiro. 

Após 5 anos dos fatos, os procedimentos inquisitivos na sede da Polícia Federal atuante em Mato Grosso do Sul, bem como as diligências demandadas pelos advogados de defesa e poder judiciário, a população Guarani Kaiowá vê-se diante do julgamento que poderá levar à condenação a quadrilha de latifundiários que assassinou Clodiodi e deixou ferido pelo menos 13 indígenas. O ato do dia 12/01, demonstrou que a população clama por justiça, por agora, representada na condenação dos acusados. 

Chega, dessa forma, a hora de todos se juntarem aos Guarani Kaiowá, do Mato Grosso do Sul, em apoio para impulsionar o cumprimento da punição dos crimes cometidos em Caarapó em 2016. Diante disso, o Comitê de Apoio à Luta dos Povos Indígenas, chama os estudantes, professores e todos que queiram apoiar essa justa luta a se juntarem a mobilização desse importante momento para os povos originários da região. Pois, estes estão se mobilizando para impulsionar a conquista dessa vitória para o seu povo, as audiências ocorrerão durante todo o mês de Janeiro de 2022. O julgamento dos latifundiários assassinos de Caarapó (MS) é uma luta decorrente de muitos anos para chancelar a punição pelo derramamento de sangue inocente dos povos indígenas que têm resistido, lutado e trabalhado para retomar seus territórios. 

Viva a luta dos povos indígenas do Brasil!

Viva os Guarani Kaiowá!

Justiça por Clodiodi!

Clodiodi Vive! Leonardo Livre!



Povo Guarani Kaiowá ergue faixa com dizeres: "Justiça para Clodiodi!". Foto: Calpi

Jornal AND é lido por manifestantes. Foto: Calpi


Cartaz assinado pelo Calpi com dizeres: "Clodiodi vive!" e "Leonardo Livre!". Foto: Calpi

Povo Guarani Kaiowá ergue cartazes com dizeres: "Guerreiro Clodiodi: Presente na luta!". Foto: Calpi

Povo Guarani Kaiowá ergue cartazes com dizeres: "Guerreiro Clodiodi: Presente na luta!". Foto: Calpi


Povo Guarani Kaiowá ergue faixa com dizeres: "Justiça para Clodiodi!". Foto: Calpi

Durante manifestação, Povo Guarani Kaiowá ergue faixa com dizeres: "Demarcação já! Clodiodi Vive!". Foto: Calpi


Durante manifestação, Povo Guarani Kaiowá ergue faixa com dizeres: "Chega de genocídio!". Foto: Calpi


Durante manifestação, Povo Guarani Kaiowá ergue faixa com dizeres: "Demarcação já! Não ao Marco Temporal". Foto: Calpi

Manifestante ergue cartaz com dizeres: "Justiça para Clodiodi e o povo Guarani Kaiowá". Foto: Calpi

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