Editorial semanal - Impasse

Foto: Adriano Machado.

A desmoralização e derrota do governo de Bolsonaro e dos generais é hoje um fato irrefutável. A crise econômica, política, sanitária e social, que de crônica nas últimas décadas tornou-se aguda a partir da recessão de 2015-2016, agravou-se a um patamar inédito desde a subida do capitão-do-mato há três anos. Já nada indica o entusiasmo com que o mitômano do Planalto foi recebido por setores da população iludidos com a sua promessa de acabar com a “velha política”. Se Bolsonaro, hoje, ainda respira, isso se deve exclusivamente à aliança com a pirataria denominada “centrão” e à mobilização da sua turba cada vez mais descolada do grosso da opinião pública e da lógica mais elementar. Ora, com 60 milhões de brasileiros vivendo no desalento e o gás de cozinha acima de 100 reais, não soa mais como um espantalho dizer que o Brasil pode virar uma Venezuela. É possível que, no país vizinho, a ameaça em sentido contrário é que surta algum efeito persuasivo.

Neste momento, há uma disputa surda no interior do governo, não pelo “legado positivo” - porque este não há em parte alguma - e sim pela desincumbência do fracasso. A dura resposta do contra-almirante Barra Torres, presidente da Anvisa, a Bolsonaro, bem como a determinação do comandante do exército de que todos os seus subordinados devem se vacinar e se furtar de compartilhar notícias falsas nas redes sociais, são movimentos claros neste sentido. Como boi de piranha, o fascista Bolsonaro foi usado pelo Alto Comando das Forças Armadas para que este se apossasse dos postos-chave da administração do País em um momento crítico, e, agora, diante da derrota iminente, prepara-se o seu abandono ao mar. Engana-se, no entanto, quem pensa que o fim deste governo marcará a menor intervenção dos militares na política. Pelo contrário, como medula do Estado reacionário, ganhe quem ganhar, estes conservarão o poder de veto frente a qualquer medida que arranhe sequer seus interesses de casta e as posições estruturais da grande burguesia e do latifúndio, serviçais do imperialismo.

Se nem mesmo a transição de 21 anos de um regime militar fascista a um outro de aparência civil alterou este quadro, não será a mera alternância de inquilinos no Planalto que o fará.

No entanto, ainda que as forças do atraso secular conservem as suas posições, os efeitos das suas ações não são idênticos quando distinto é o contexto. Depois das jornadas de junho de 2013, da luta contra a Copa e o massacre olímpico, da queda da falsa esquerda oportunista no esteio da Lavajato e ascensão e fracasso do governo militar de Bolsonaro, assim como da elevação da luta pela terra que voltou a sacudir o campo, o País não é mais o mesmo. A dita nova república acabou, sem que nada a tenha ainda substituído. É possível que a saída da pandemia (com alguma reativação econômica sobretudo no setor de serviços, num ambiente de extrema precariedade) e as promessas de um ano eleitoral arrastem parte das massas para alguma espécie de calmaria momentânea, mas ela não resistirá a novas e certas frustrações, que explodirão em ondas de revolta ainda mais sérias que as que sacudiram outros países da América Latina nos últimos anos. Quando isso ocorrer, as forças militantes da velha ordem, incluindo vastos setores das forças armadas e policiais, também politizadas como nunca, colidirão com as massas em fúria num choque inevitável. Tanto pior para a reação se isto ocorrer sob um governo oportunista, que será presa da vacilação e acabará devorado por todos os lados. Até aqui, o golpe militar contrarrevolucionário preventivo foi um tremendo fiasco. Doravante, ele terá que sair da toca e reagir ou será aniquilado. Saindo da toca, mostra suas garras para o mundo e cria condições políticas que incrementam as forças da revolução e favorecem a sua derrota.

Este é o seu impasse.

Ouça já o Editorial Semanal de 19 de janeiro de 2022:

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