Potências imperialistas e as tempestades revolucionárias no Cazaquistão

Manifestantes lotam avenida durante levante de massas no Cazaquistão. Foto: Reprodução

No dia 2 de janeiro, eclodiram no Cazaquistão os maiores levantes de massas do país desde 1986, quando este era ainda uma república da antiga URSS social-imperialista. Segundo o monopólio de imprensa, os grandes levantamentos deixaram até o momento 225 mortos, entre uma grande maioria de civis e 19 agentes de repressão do Estado, além de 4,5 mil feridos.  O estopim das manifestações foi o repentino aumento dos preços do gás liquefeito de petróleo, muito utilizado no país como combustível e também para fins domésticos, como cozinhar. Os justos levantes jogam água no moinho de duas contradições fundamentais da nossa época: a contradição entre a nação oprimida (no caso, o Cazaquistão) versus as potências e superpotências imperialistas, e a contradição entre os próprios países imperialistas pela partilha e repartilha do mundo.    

Desde a restauração capitalista na União Soviética, desatada pelo golpe de Estado de Nikita Kruschov e sua camarilha após a morte do chefe comunista Stalin, a Rússia voltou a ser a prisão dos povos, exaltando o nacionalismo grão-russo e adotando práticas de social-imperialismo com as demais repúblicas soviéticas e demais nações sob sua influência, práticas estas ratificadas pela tese imperialista de "soberania ilimitada" e “divisão internacional do trabalho” de Leonid Brejnev, sucessor de Kruschov. O Cazaquistão, desde então, tornou-se uma das principais e mais importantes semicolônias da Rússia social-imperialista, tanto por sua extensão territorial, sendo a maior nação entre as 15 ex-repúblicas da União Soviética, quanto por suas reservas colossais de petróleo, gás natural, urânio e metais preciosos, além de sua grande quantidade de massas trabalhadoras.  

O Cazaquistão, nas últimas décadas, tem sido explorado por multinacionais do ramo de petróleo e gás como a anglo-holandesa Shell, as norte-americanas Chevron e ExxonMobil e a multinacional russa Lukoil. As empresas atuam na região sudoeste do país, onde justamente se iniciaram os protestos após o governo de Tokayev permitir o aumento do gás liquefeito de petróleo. Tal como em 2011, quando houve protestos de operários do ramo petrolífero em que 14 operários foram mortos e ao menos 100 ficaram feridos, a cidade de Zhanaozen à sudoeste foi novamente palco de greves e manifestações.  

Rússia ativa pela primeira vez a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC)

No dia 5 de janeiro as manifestações chegaram à cidade de Almaty, antiga capital e ainda centro político e econômico do país, onde se desenvolveu uma escalada de violência com  manifestantes ateando fogo no gabinete do prefeito e ensaiando assumir o controle de delegacias de polícia. O então presidente Tokayev ordenou que as forças de repressão atirassem para matar, além de instituir estado de emergência e toque de recolher em todo o país. Tokayev fora obrigado a demitir todo o governo e recuar em relação ao aumento no preço do gás, medidas que foram insuficientes para conter as manifestações, que já adquiriam naquele momento caráter político, de revolta contra a velha ordem em geral.   

Nesta situação, a Rússia prontamente tratou de ocupar com 2 mil soldados a nação cazaque, ativando pela primeira vez na história a OTSC, organização militar fundada em 1992 que reúne atualmente sete países da extinta União Soviética, além do Afeganistão. A OTSC é chefiada por interesses do imperialismo russo e o seu ativar no Cazaquistão é a prova cabal de que o país é, de fato, semicolônia russa. Ainda que o Cazaquistão receba enormes quantidades de capital ianque, a ocupação militar chefiada pela Rússia não deixa dúvidas de quem realmente domina a região, o que faz jus à forma como temos classificado a Rússia há anos: como uma superpotência atômica, aquém em termos de capital financeiro em relação à superpotência hegemônica ianque, porém com um considerável e importante poderio militar e bélico-atômico, o que permite-lhe brigar, ainda que com uma estratégia defensiva, pela partilha e repartilha do mundo.

Por conseguinte, a pressão do imperialismo ianque por agravar a crise aberta no Cazaquistão e tentar tirar proveito dela demonstra a situação delicada na qual se encontra a Rússia, apesar de seu poderio. A perda de sua influência na Ucrânia, fato culminante do longo processo de perdas de semicolônias e zonas de influência no leste europeu (processo iniciado no início de 1990), colocou a burguesia monopolista russa em um cerco, de caráter econômico como também militar.

O acirramento da pugna interimperialista: o problema da vanguarda revolucionária e posição dos oportunistas

É bem verdade que é complexa a situação política no Cazaquistão, e é mais verdade ainda que potências imperialistas ocidentais e, em especial, a superpotência hegemônica única (os ianques) buscam explorar as manifestações para obter avanços políticos ou mesmo pressionar a Rússia. O presidente russo Vladimir Putin acusou abertamente forças estrangeiras de atuarem para desestabilizar o Cazaquistão através de grupos paramilitares, utilizando as mesmas táticas que derrubaram em 2014 o presidente ucraniano Viktor Yanukovytch, que expressava o regime político semicolonial à Rússia. Naquela situação, grupos chauvinistas de extrema-direita atuaram ativamente nas manifestações ucranianas e na guerra civil que se instalou ao leste do país em favor do imperialismo ianque.  

O fato é que não existem até o momento provas cabais para essa afirmação de Putin (o que se tem é o esgotamento da velha ordem semicolonial perante as massas) e, por outro lado, os protestos no Cazaquistão deram aval para que a Rússia ativasse a OTSC, o que lhe permitiu tanto a consolidação do tratado quanto uma demonstração de força frente à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), situação que leva a um impasse temporário nesta pugna. No plano estratégico, porém, esta é uma situação que joga mais material inflamável nas contradições interimperialistas, que marcha em potencial como preparativos para uma inevitável guerra mundial para repartilhar o controle sobre as zonas de influência e semicolônias. Porém, a tendência política principal segue sendo a Revolução. 

Os oportunistas tendem a condenar esses levantamentos sob conceitos confusos de "guerra híbrida" e "revolução colorida", como se todas as milhares de massas que levantaram-se para protestar fossem golpistas pró União Europeia ou coisa que o valha, o que não passa de puro cretinismo, posição de quem não vê as massas como agentes da história. Em realidade, ao fazer isso, fortalecem justamente as direções que tentam cooptar essas manifestações em benefício de outros amos imperialistas que não a Rússia. 

É claro que há atuação do imperialismo ianque, através de forças reacionárias locais ligadas a determinados fração e grupos de poder das classes dominantes cazaques. Isso há em todas as revoltas importantes que eclodem, legítimas e espontâneas, nas nações oprimidas e submetidas à zona de influência do imperialismo russo. Tanto porque, no caso cazaque, tais forças pró-ianques exigem readequações no regime político que correspondam à crescente penetração de capital ianque naquela economia. Disso, não há dúvidas; como não há dúvidas de que, com ou sem atuação do imperialismo ianque para agravar a crise, as massas devem lutar, sem temer que se aprofunde o caos nas entranhas do regime reacionário, assim como devem desejá-lo. Temer isso significaria resignação total, pois toda luta de massas em situações similares e em qualquer país do mundo é “aproveitada” pelas forças oposicionistas reacionárias para desgastar o governo de turno e os grupos de poder dominantes para substituí-los pelos seus próprios. Todavia, as massas não têm e nem deveriam ter consideração por este ou aquele imperialismo, este ou aquele governo de turno reacionários, quando a elas são reservadas, seja qual seja o tacão de ferro a oprimi-las, a mesma base de exploração e opressão que as impede de viver dignamente e alcançar sua emancipação efetiva, isto é, o Socialismo, rumo ao Comunismo.

O problema, não só no Cazaquistão, mas em todos os países em que os povos se rebelam, é a falta de um autêntico Estado-maior do proletariado revolucionário, que saiba como garantir no terreno estratégico os interesses histórico-universais tanto da nação oprimida em questão como, em especial, do seu núcleo fundamental: o proletariado e o campesinato, as massas básicas, eliminando do movimento popular as direções não-proletárias, capituladoras, serviçais do imperialismo e da grande burguesia.  

Do ponto de vista das massas populares e dos revolucionários, o apoio à luta das massas cazaques deve ser irrestrito. Para tanto, não importa que não haja possibilidade imediata surgir tal Estado-maior proletário e de que esta luta, atual, se converta em luta política dirigida por dita força revolucionária. O que importa é que a vanguarda do proletariado tende a surgir tanto mais facilmente ali onde ocorrem as tempestades e cataclismas revolucionários, ainda mais se há ali tradições proletárias de luta; surge onde as massas são remexidas, quando se chocam com a velha ordem e seus elementos de vanguarda podem apreender as leis gerais da luta de classes e deduzir a estratégia de luta proletária; quando, inspirados pelo exemplo dos povos em cuja dianteira se encontram vanguardas revolucionárias proletárias, conformam suas próprias direções proletárias. Quiçá, assim inicia-se a história de toda revolução proletária.

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