Mali: Mais de 3 milhões protestam contra o colonialismo francês e rechaçam sanções

Massas se manifestam contra a colonização francesa e a ECOWAS  em Bamako, Mali, em 14 de janeiro de 2022. Foto: Paul Lorgerie.

Milhares de massas malinesas protestaram, no dia 14 de janeiro, em rechaço ao colonialismo francês e à aplicação de sanções econômicas antipovo através da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (ECOWAS, na sigla original), organismo local que gerencia econômica e politicamente os Estados subjugados à França e à Inglaterra na África.

Os protestos massivos aconteceram tanto na capital Bamako, quanto em cidades menores, e contaram com a queima de bonecos do presidente reacionário francês Emmanuel Macron e de bandeiras da França. As massas gritavam palavras de ordem como Abaixo à França! e Abaixo à ECOWAS!

As sanções foram aplicadas por influência majoritária da França (antiga potência colonial de Mali e até então principal potência imperialista a dominá-la tanto economicamente, quanto através de intervenção direta com tropas) e foram apoiadas pela superpotência hegemônica única, o Estados Unidos (USA) e a União Européia (UE), que aplicou novas e outras sanções contra o Mali (tendo a França na gerência da presidência rotativa do Conselho da UE). 

Isso acontece após a junta militar que atualmente governa o Mali, e que se opõe à intervenção militar francesa no país, anunciar que se manteria no governo em até cinco anos antes de realizar eleições.

Nesse caso, o ministro das Relações Exteriores da França realizou todo tipo de ameaças e chantagens contra o país africano: “Cabe agora à junta assumir a responsabilidade”, referindo-se à manutenção do status quo no país. “Caso contrário, corre o risco de ver este país ser sufocado”, disse o reacionário. Ele acrescentou que a questão seria discutida pelos ministros das Relações Exteriores da UE, acrescentando que Mali era agora um "problema europeu".

Todavia, a França apoiou o golpe no Chade em 2021 pelo general Mahmat Déby, filho de Idriss Déby, então presidente do país, mas que morreu durante um enfrentamento na guerra civil. Idriss Déby e sua família eram lacaios fiéis aos franceses, ao que a França afirmou reconhecer como legítimo o governo que tomou lugar por “circunstâncias excepcionais”.

A França possui a quarta maior reserva de ouro do mundo, equivalente a 2.436 toneladas, sem uma única mina de ouro na França. Mali (ocupada pela França e submetida, portanto, a uma condição ainda colonial em parte de seu território) não tem nenhuma reserva de ouro nos bancos locais, embora tenha 860 minas de ouro e produza 50 toneladas por ano.

A França, principalmente, segue desatando a guerra contra a nação Mali para varrer do norte do país os grupos islâmicos armados que controlam grandes extensões de terras, com abundante riqueza e de privilegiada posição militar estratégica. Já descrito como o “eldorado” do urânio, ouro e petróleo, o Mali concentra ainda outros minerais estratégicos como minério de ferro, bauxita e manganês pouco explorados.

Logo, evidencia-se que o problema no Mali, para os imperialistas franceses, não é o governo militar em si, mas sim a qual potência imperialista tal governo é sujeito. De acordo com o portal maoista Internacional Comunista (CI-IC), os principais líderes do segundo golpe ocorrido no Mali em 2020 e que conformam o governo atualmente, assim como vários dos outros membros da junta, receberam treinamento militar na Rússia. Após o golpe, os golpistas iniciaram um fortalecimento dos laços diplomáticos com os imperialistas russos e, por sua vez, a Rússia fornece equipamento militar ao exército malinês e envia instrutores militares para o país.

As Forças Especiais da Dinamarca também foram “convidadas” pela junta militar a se retirarem do território da República do Mali.

Os efeitos das sanções para o povo

As sanções impostas pelo imperialismo através da ECOWAS afetam de forma brutal as massas do Mali. As fronteiras terrestres e aéreas entre o país e outros países da ECOWAS foram fechadas, impedindo a entrada de quaisquer produtos no território, que também não tem saída para o mar. Como efeito disso, no Mali, país que importa 70% de sua comida, os preços dos alimentos aumentaram exorbitantemente.

Os bancos malineses, todos operados pelo capital financeiro francês, foram suspensos, resultando que as pessoas não pudessem sacar suas economias. O Mali foi isolado da sua própria moeda local, operada em Franco CFA (que tem uma taxa de câmbio fixada à do Euro), fazendo com que as massas tenham que recorrer à prática do escambo.

Os protestos

As ruas não apenas do Mali, como de diversos outros países africanos, como em Burkina Faso e na própria cidade de Reno, na França, contaram com protestos organizados por cidadãos locais e, no caso da França, de imigrantes africanos apoiando a luta anticolonial malinesa. Em Burkina Faso, manifestantes queimaram bandeiras francesas e gritaram palavras de ordem contra o imperialismo francês.

Abdrahman Fofana, um farmacêutico de 60 anos, em entrevista à VOA News, relatou durante um protesto em Bamako: "Para nós, malineses, o que falta? Estarmos unidos. Temos isto hoje graças às sanções. Estamos unidos hoje. Vamos superar isto. Estamos prontos, mesmo que isso signifique a morte".

As massas malinesas exigem, por ora, a nacionalização de empresas francesas, o fechamento de institutos e das escolas francesas no Mali, e em particular a adoção de uma moeda local malinesa.

A ocupação colonial francesa

A “retirada” das tropas francesas, que ocupam o Mali com milhares de soldados desde 2014 através da Operação Serval e mais tarde com a operação Barkhane, não é total nem definitiva. 

Inúmeras foram as atrocidades cometidas contra as massas malinesas durante a mais recente ocupação francesa. De acordo com o portal comunista francês Cause du Peuple, em março de 2021, a ONU acusou a França de executar 19 civis em um ataque aéreo a um casamento. Massacres em aldeias (como na de Fulani, por exemplo) ocorrem com a aprovação tácita do Exército francês, e “erros” de execuções sumárias de cidadãos malineses são cometidos regularmente. Soldados franceses relatam que o contato dos aldeões é "frio" quanto às forças de ocupação.

O depoimento de Fofana mostra que as massas malinesas estão dispostas a dar suas vidas se isso significar ser uma nação independente e livre de toda subjugação imperialista. Entretanto, a nova junta militar a governar o Mali não trava nenhuma guerra de libertação nacional, e se alia às potências imperialistas Rússia e China para mudar do status de colônia para semicolônia, dado sua natureza de classe burocrático-latifundiária.  

As tropas francesas não foram expulsas do Mali. Ao contrário, elas se realocaram pela região do Sahel africano. A operação Barkhane, inclusive, serve como tropa de ocupação direta por todo o Sahel: na Mauritânia, Burkina Faso, Níger e Chade e não apenas no Mali.

O portal Internacional Comunista (CI-IC) afirma que o imperialismo francês não está, de forma alguma, se retirando da região. Ao invés disso, isto marca um recuo tático. Os imperialistas franceses pretendem deslocar o grosso de suas forças destacadas na região para a área de fronteira onde Mali, Burkina Faso e Níger se encontram. 

Os franceses pretendem continuar suas operações na região, mas sob a forma de guerra de baixa intensidade e de treinamento dos Exércitos dos Estados burocrático-latifundiários  a serviço do imperialismo. Os imperialistas franceses também fizeram planos para estabelecer uma força europeia liderada pela França para apoiar os Exércitos de suas semicolônias do Sahel, e estão tentando fazer com que os ianques e outros países imperialistas europeus desempenhem um papel maior. “Este é o contexto no qual os golpes em Mali devem ser entendidos”.

Entretanto, nem mesmo nos outros países do Sahel a França “encontra paz”:  o portal CI-IC relata que no final de novembro, massas em Burkina Faso bloquearam um comboio militar francês em rota da Costa do Marfim para Mali. O comboio foi retido pelas massas que bloquearam o seu caminho na cidade de Bobo Dioulasso, a cidade de Kaya, e finalmente na capital Ougadougou. Em Kaya, o comboio foi forçado a voltar atrás, e ficou preso por vários dias entre barricadas erguidas pelas massas. No total, o comboio ficou retido por uma semana. O Exército francês respondeu aos bloqueios civis com balas. “Como aponta o Partido Comunista do Peru, estes lacaios da reação são ‘corajosos ao enfrentar massas desarmadas, mas assustados como coelhos ao enfrentar a guerrilha”, destaca o portal.

Sobre a junta militar, o portal destaca que, explorando a oportunidade que a derrota da Operação Barkhane traz, “estes inescrupulosos quislings* estão convidando o imperialismo russo a intervir no país para salvar sua própria pele da luta armada, a fúria das massas oprimidas pelas três montanhas. Eles estão explorando esta oportunidade de prostituir seu país ao imperialismo russo, por sua vez, para enriquecimento pessoal”.

A ofensiva estratégica da revolução proletária mundial

O portal CI-IC destaca que defende os sucessos das massas no Sahel, conscientes de que esta é uma luta travada sob bandeiras reacionárias, mas, mesmo assim, elas fazem parte do processo da revolução proletária mundial. O portal sublinha que “as massas precisam da direção do Partido Comunista e clamam por ela, enquanto não tiverem a direção de um verdadeiro Partido Comunista Marxista-Leninista-Maoista, as massas serão órfãs e sua luta nunca poderá resultar em uma vitória efetiva da revolução de nova democracia em curso; elas precisam ser guiadas pelo Marxismo-Leninismo-Maoismo, principalmente Maoismo”. E acrescentam que “nos alegramos com a derrota do imperialismo francês no Sahel, principalmente em Mali, ao mesmo tempo em que estamos muito vigilantes e nos opomos firmemente aos avanços do imperialismo russo, e não temos ilusões sobre a redução das tropas francesas na região”.

O portal destaca que celebra esta vitória das massas em Mali, no Sahel, como fez com a vitória das massas no Afeganistão, porque isto mostra algo muito importante: “Mostra que ao invés de conseguir estabelecer uma base sólida nas nações oprimidas através de suas guerras de agressão imperialistas, as nações oprimidas se tornam areia movediça para os imperialistas, consumindo cada vez mais de suas tropas e recursos à medida que são apanhados por uma maré crescente de massas pegando em armas contra o imperialismo. Isto impulsiona o desenvolvimento da situação objetiva no mundo e contribui para o desenvolvimento das forças subjetivas em nível mundial e deve ser e está sendo pelo próprio desenvolvimento das forças subjetivas de revolução em cada um destes países no continente africano. As guerras populares no Peru, Índia, Filipinas e Turquia precisam se desenvolver ainda mais, o que, juntamente com as novas guerras populares que acontecerão em qualquer lugar, será responsável por mostrar a essas massas todo o poder transformador do maoísmo e a invencibilidade da guerra popular”.

A série de guerras de agressão e as outras intervenções do imperialismo no continente é uma característica do colapso do imperialismo. “É um sintoma da defensiva estratégica do imperialismo e da reação mundial, mostra que o imperialismo está em sua última e apodrecida fase, apodrecida até o núcleo. Como um equilíbrio, a correlação de forças está mudando a nosso favor, e a defensiva estratégica do imperialismo significa necessariamente a ofensiva estratégica da revolução proletária mundial”, demarca.


*Quisling: um traidor que colabora com uma força inimiga ocupando o seu país. A palavra tem origem no sobrenome do norueguês Vidkun Quisling, ministro da defesa e mais tarde presidente da Noruega, que encabeçou um regime aliado aos nazistas durante a Segunda Grande Guerra Imperialista.

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