RJ: Jovem congolês é espancado e morto; família diz que havia dívida trabalhista

O jovem congolês, Moïse Mugenyi Kabagambe, foi brutalmente assassinado por seu patrão, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio. Foto: Reprodução

Um jovem congolês foi brutalmente espancado e morto no dia 24 de janeiro em um quiosque chamado Tropicália, na praia da Barra da Tijuca, no posto 8, zona oeste do Rio de Janeiro. O crime aconteceu depois que Moïse Mugenyi Kabagambe, de 25 anos, cobrou ao patrão o pagamento de duas diárias que haviam sido cumpridas.

Moïse chegou ao Brasil, com a família, em 2011, aos 11 anos de idade, fugindo da guerra civil na República Democrática do Congo.

Familiares de Moïse tiveram acesso às imagens do crime. Nas cenas, Moïse aparece discutindo com o gerente do quiosque Tropicália, onde trabalhava. Em dado momento o gerente do estabelecimento pega um pedaço de madeira e parte para cima do jovem que tenta se defender com uma cadeira. O gerente então chama outros quatro comparsas para ajudá-lo a espancar Moïse. A partir daí o jovem imigrante começa a ser espancado pelos cinco homens que portavam barras de madeira e um taco de beisebol

Por fim, o imigrante de origem africana ainda foi amarrado e estrangulado com uma corda. O corpo do rapaz foi encontrado numa escadaria próximo ao quiosque com as mãos amarradas. Até o fechamento desta matéria ninguém foi preso, apesar das imagens comprovando o brutal assassinato.

Parentes de Moïse fizeram um protesto no dia 29/01, em frente ao quiosque em que o jovem trabalhava, na avenida Lúcio Costa. Os familiares levaram faixas e cartazes denunciando o crime e exigindo justiça.

O primo da vítima, Yannick Kamanda, contou o que viu na gravação: “O início da gravação que eu vi é ele reclamando com o gerente do quiosque. Alguns minutos seguintes, o gerente pegou um pedaço de madeira para ameaçar ele. Até então, ele estava só recuando. E o cara foi atrás dele. Como ele estava reivindicando alguma coisa, ele pegou uma cadeira e dobrou para se defender. Ele não chegou a atacar ninguém. O gerente chamou uma galera que estava na frente do quiosque. Até então tinha só um sentado", relatou o imigrante.

O corpo do jovem foi enterrado no dia 30/01, no cemitério de Irajá, na zona norte do Rio. Durante o velório e cortejo fúnebre foram entoados cantos e homenagens em acordo com a cultura congolesa.

No dia 29/01, familiares e amigos fizeram um protesto na avenida Lúcio Costa, em frente ao quiosque onde o jovem Moïse foi assassinado. Foto: Reprodução

Mãe denuncia o assassinato covarde

A mãe de Moïse, em entrevista ao jornal Extra, do monopólio de imprensa, exigiu justiça: “Meu filho cresceu aqui, estudou aqui. Todos os amigos dele são brasileiros. Mas hoje é uma vergonha. Morreu no Brasil. Quero justiça”, afirmou Ivana Lay.

Ela também conta que moravam em uma região de intensos conflitos armados e veio para o Brasil para que os filhos não fossem assassinados: “Morávamos em uma região da República Democrática do Congo onde fica a guerra. Uma guerra tribal civil entre os hema e os lendu. Somos Hema.”.

A mãe fala que o filho era trabalhador e ajudava em casa, porém sofria discriminação no trabalho: “Ele era trabalhador e muito honesto. Ganhava pouco, mas era dele. No final, chegava com parte do dinheiro e me dava para ajudar a pagar o aluguel. E reclamava, dizendo que ganhava menos que os colegas”, conta a mãe.

Ivana Lay ainda sofre quando se lembra da maneira brutal pela qual tiraram a vida do seu filho: “Olha a foto do meu filho, meu bebezinho. Era um menino bom. Era um menino bom. Era um menino bom. Eles quebraram o meu filho. Bateram nas costas, no rosto. Ó, meu Deus. Ele não merecia isso. Eles pegaram uma linha ([uma corda]), colocaram o meu filho no chão, o puxaram com uma corda. Por quê? Por que ele era pretinho? Negro?”, denunciou a mulher.

"Eles mataram o meu filho porque ele era negro, porque era africano."

Ivana Lay, mãe de Moïse Mugenyi Kabagambe

A mãe continua: “Não podem matar as pessoas assim. Eles quebraram as costas do meu filho, quebraram o pescoço. Eu fugi do Congo para que eles não nos matassem. No entanto, eles mataram o meu filho aqui como matam em meu país. Mataram o meu filho a socos, pontapés. Mataram ele como um bicho”.

A mulher conclama os demais trabalhadores, estudantes e demais democratas a protestarem contra a morte de seu filho e contra o racismo e a xenofobia: “Eu vi na televisão que, aqui no Brasil, se um cachorro morrer, há várias manifestações. Então, eu quero que todo mundo me ajude com justiça. Eu não sei mais como será a minha vida. Por favor, me ajudem!”

Violação no corpo de Moïse

Os familiares do jovem africano só ficaram sabendo do crime somente 12h após o ocorrido. Moïse foi levado ao Instituto Médico Legal (IML) como indigente. A família denunciou que o encontrou o rapaz no necrotério com o corpo já cortado e sem alguns dos órgãos. Depois da denúncia, o IML negou que os órgão haviam sido retirados e divulgou um laudo com fotos que comprovam a versão.

Tal confusão se deu pela total falta de notificação do ocorrido a família e também pela questão do tráfico de órgãos ser uma prática obscura e cruel muito comum e que tem como alvo principal trabalhadores pobres.

Racismo e xenofobia

O brutal assassinato de Moïse é mais um crime motivado por racismo e xenofobia. Ao longo dos anos os casos de violência física ou verbal praticadas contra estrangeiros negros em nosso país tem aumentado. Os crimes contra os imigrantes negros convergem com os casos de assassinatos, torturas e humilhações diárias a qual estão submetidos os jovens pretos nas favelas e periferias do Brasil. Desta forma, o genocídio do povo preto se desenvolve como parte do terrorismo de Estado e também da elevação da militarização reacionária. Neste contexto, os crimes por parte de racistas têm a certeza da impunidade a partir dos crimes do velho Estado.

Chama a atenção o fato de Moïse ter sido espancado e morto em um local turístico e com muito policiamento, sem que sequer uma viatura passasse pelo local. De acordo com Djodjo Baraka Kabagambe, irmão de Moïse, policiais só apareceram muito tempo após o crime: “Amarraram as mãos e as pernas dele com corda. A polícia veio depois de 20 ou 40 minutos", contou o irmão.

O presidente da Comissão de Direitos Humanos da secção da Ordem dos Advogados do Brasil no Rio de Janeiro (OAB/RJ), Álvaro Quintão, denunciou o crime contra o trabalhador congolês: "Ele foi brutalmente assassinado em frente a um quiosque e os vídeos das câmeras de segurança disponíveis mostram quem foram as pessoas que o agrediram até a morte. Não há dúvidas de que o racismo foi um fator no caso. As imagens mostram mais um negro sendo espancado até à morte, algo que pessoas que transitavam pelo local já normalizaram. Vamos exigir que o Ministério Público denuncie cada uma dessas pessoas e, principalmente, identifique o gerente do quiosque, que teria chamado esses agressores", afirmou Álvaro.

A coordenadora-geral do programa de atendimento a refugiados da Cáritas/RJ, Aline Thuller denuncia que estes imigrantes são alvos de xenofobia e chauvinismo: “É muito difícil. Eles enfrentam a xenofobia. Ouvem que o refugiado está vindo para roubar nossas vagas de trabalho, para roubar nosso lugar no hospital, no Sistema Único de Saúde (SUS). Eles vivem a xenofobia. E também tem aquilo de que o refugiado é foragido, que fez algo de errado no país de origem. Essa associação do refugiado com um foragido é muito presente”, afirma a coordenadora.

A situação dos refugiados no Brasil

Ao chegarem no Brasil, os refugiados são alocados em favelas, em meio a pobreza e a conflitos armados. A coordenadora da Cáritas, conta que os imigrantes congoleses vão morar em favelas na Zona Norte do Rio ou em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense: "Muitos dos que estão aqui moram em Brás de Pina, Madureira… Sempre em comunidades. Mas depois eles começaram a migrar para Duque de Caxias, no Jardim Gramacho, e Jardim Catarina, em São Gonçalo”.

Nestes locais os imigrantes africanos enfrentam uma rotina de pobreza e violência tais como as enfrentadas no seu país de origem, do qual saíram em busca de uma vida melhor.

De acordo com o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), os congoleses são o segundo maior grupo a ter a solicitação de refúgio acolhida pelo governo brasileiro depois da Síria, com 953 pedidos reconhecidos entre 2007 e 2017, o equivalente a 13% dos refúgios acatados no período.

O imperialismo impõe guerra aos congoleses

Muitos dos congoleses fogem da guerra, de massacres, da pobreza e da fome, frutos de uma guerra longínqua. Os congoleses vêem seu país sendo saqueado por imperialistas que exploram os abundantes recursos minerais do país, entre eles o Coltan, minério amplamente usado na fabricação de aparelhos eletrônicos.

A própria Aline Thuller relata que “eles (os congoleses) têm um percentual altíssimo desse minério. Então, as indústrias de tecnologia têm muito interesse nesse elemento. E aí se cria essa rivalidade. Existia alguma rivalidade tribal, mas sem ser violenta. Enquanto eles estão se matando, se retira as riquezas sem pagar imposto no país, nem nada disso”, denuncia a assistente social.

Em meio à crise econômica e aos altos índices de desemprego no Brasil, os imigrantes têm enfrentado cada vez mais dificuldades de encontrar empregos, como diz o refugiado Charly Kongo, congolês que chegou ao Rio dez anos atrás e hoje é uma das lideranças da comunidade na cidade: "Para a gente, às vagas reservadas são nas áreas de limpeza, construção civil, carregador. Como acontece com a maioria dos negros no Brasil.”, relata o trabalhador congôles.

A fala de Kongo explicita a situação vivida também por Moïse, que antes de ser assassinado, trabalhava fazendo bicos e sem carteira assinada no quiosque, no qual recebia menos do que seus colegas de trabalho.

Chadrac Kembilu Nkusu, é outro imigrante congolês que vive no Brasil e primo de Moïse. Ele chegou aqui junto com seu irmão, Ali Ngangu Ntela, aos 16 anos de idade. Chadrac trabalha de camelô vendendo replicas de camisetas de marcas como Nike, Adidas e Calvin Klein, na estação de barcas em Charitas, Niterói.

Com as poucas vendas e a dificuldade de comprar alimentos e pagar as contas, Chadrac desabafa: "Sair com fome do Congo para passar fome aqui no Brasil... Que vergonha, né?".

O rapaz também falou sobre a morte do primo: “Uma pessoa de outro país que veio ao seu país para ser acolhido. E vocês vão matá-lo por que ele pediu o salário dele? Porque ele disse: ‘Estão me devendo?’”, questionou Chadrac.

Protesto contra a morte de Moïse

Está sendo convocado pela internet um protesto contra a morte do jovem Moïse e exigindo justiça. O ato também deve denunciar o genocídio contra a população preta e pobre das favelas do Rio de Janeiro. O protesto acontecerá no dia 05/02, as 10h da manhã, na avenida Lúcio Costa, posto 8, em frente ao quiosque Tropicália, na orla da Barra da Tijuca.



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