Editorial semanal – A guerra reacionária já instalada

Foto: Fernando Frazão.

Em qualquer guerra reacionária, a força beligerante em ofensiva busca conquistar territórios; nada e nem ninguém presentes nele importam. As construções, pertences e posses no território inimigo devem ser saqueados, usufruídos pelas tropas invasoras ou destruídos; os civis do território a conquistar são todos potenciais combatentes inimigos, e devem ser neutralizados, quer seja por um potente choque de ordem na base do terror, quer seja pela eliminação em qualquer suspeita. Embora sejam todos considerados crimes de guerra, são práticas calculadas e costumeiramente perpetradas. Não há escrúpulos e nem limites na guerra reacionária.

Poderíamos estar falando da invasão japonesa à China, ou das invasões nazistas no leste europeu e à União Soviética, todas durante a Segunda Grande Guerra mundial. Poderíamos ainda estar falando de qualquer uma das guerras medievais. Mas estamos falando do Brasil atual.

As tropas policiais do Rio de Janeiro operam dessa maneira. Qualquer favela é território inimigo, a ser conquistado; os pertences das massas que ali residem são reserva estratégica a serem saqueados, consumidos e, sendo impossível, que sejam destruídos; os moradores, sejam donas de casa ou aqueles que trabalham fora, os jovens e as crianças, são todos inimigos em potencial, razão por que devem ser submetidos a restrições de toda ordem, devem sentir com toda a força a presença policial-militar e, para que não esqueçam, devem receber visitas periódicas, terem suas casas revistadas e devassadas, abordagens vexatórias, abusivas em todos os sentidos; as mulheres, potenciais colaboradoras do “inimigo”, tratadas por esses invasores por vagabundas e vadias, devem ser frequentemente “recordadas” da presença militar através de ameaças de estupros. Se alguém tenta escapar desse choque de ordem terrorista, se alguém evitar através de uma fuga passar por humilhações, quer seja trabalhador ou não, deve ser sequestrado ou aniquilado ali mesmo.

Na Vila Aliança, em Bangu, uma tropa da Polícia Militar invadiu, pela décima primeira vez seguida, a casa de um morador. Geladeira, armários, despensa: tudo foi revirado e os pertences, saqueados. Não bastasse o ato odioso, os mercenários fardados ainda troçavam pelo fato do trabalhador que ali reside ter determinados produtos. Casos assim ocorreram tantas vezes na casa dessa família que ela decidiu instalar uma câmera, para pegar em flagrante os gatunos. O fato veio a público no último dia 7.

Na noite do dia 10, um jovem foi executado na favela do Jacarezinho por policiais, que invadiram a sua casa. Ele foi executado em frente a sua mãe. Detenções, averiguações, investigações e julgamentos – dispositivos de uma democracia burguesa, ainda que como costumeiros procedimentos viciados contra os pobres – não foram necessários no juízo dos algozes fardados. Afinal, ali, mesmo as normas habituais da velha democracia não existem, e isso deve estar bem claro: ali existem as leis da guerra reacionária, anexas e ratificadas por essa podre democracia. Se alguém mora ali e há qualquer suspeita, do ponto de vista das leis da guerra reacionária, trata-se de um inimigo. Um soldado das tropas de assalto nazista no leste europeu, ou das tropas especiais dos ianques no Afeganistão, pensava exatamente do mesmo modo.

Em protesto contra esses crimes, no Jacarezinho, as massas denunciaram ameaças de estupro contra mulheres, roubo e destruição de pertences dos trabalhadores e outros crimes típicos de bandos mercenários. As massas persistiram em protesto até a madrugada, atacando com pedras e garrafas tropas policiais, com seu ódio de classe exigindo que se baste a guerra reacionária sob a qual vivem.

É uma situação gravíssima a que pesa sobre as massas populares. É ainda pior do que uma guerra reacionária aberta e declarada, pois neste caso se reconheceria às massas agredidas a condição de força beligerante e seu direito a recorrer também à guerra, à guerra justa para defenderem-se. Em suma, as restrições das leis constitucionais valem para as massas populares, e as leis da guerra valem para as tropas policiais.

Que ninguém pense ser exclusivo do Rio de Janeiro – embora agravado –, ou mesmo exclusivo às cidades. No campo e de forma mais encoberta, especialmente onde os camponeses lutam pelo sagrado direito à terra sob a bandeira vermelha da Revolução Agrária, as leis da guerra reacionária também operam através das tropas militares, que têm à cabeça a direção política das Forças Armadas reacionárias. A diferença é que, neste segundo caso, elas não operam sem resistência organizada e à mesma medida.

Ouça já o Editorial Semanal de 15 de fevereiro de 2022:

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